Capítulo 9 - Crise (Parte 2)

2512 Palavras
Foi necessária uma hora para eu me controlar um pouco e voltar para casa. Dei graças a Deus por Huilen não estar por perto e ninguém ter me perguntado nada enquanto ia até o piano de Edward e começava a dedilhar sem prestar atenção na melodia, enquanto tia Rosalie e tio Emmett acompanhavam o jogo de hóquei próximo a mim. Eu não estava pronta para falar o que aconteceu, porque teria que explicar meu desentendimento com Nahuel e as causas dele. Ainda bem que meu pai estava viajando. Mesmo com os sentimentos ainda muito instáveis, a tristeza começou a ceder lugar para raiva. Mas que diabos! Por que ele veio com isso agora? Estávamos nos dando tão bem, por que ele tinha que tirar as coisas do lugar? Estavam no lugar para mim, pelo menos. Jacob era meu namorado, ele sabia disso. Não era para tentar nada comigo, eu já estava comprometida. Era ainda muito estranha a ideia de Jacob ser de fato meu namorado, até porque esse título não atribuía 1% do que eu verdadeiramente sentia por ele, da profundidade e da necessidade de que tínhamos um pelo outro. Era algo tão surreal e mágico que as preocupações com Nahuel foram varridas da minha mente naquele momento e meus pensamentos começaram a trilhar um caminho mais sombrio. Ao refletir sobre Nahuel ter me perdido, pela primeira vez me vi em um dilema que nunca tinha parado para pensar em toda a minha curta existência: perder Jacob. Jacob era tão, mas tão presente na minha vida – ultimamente de forma mais simbólica do que física - que nunca sequer imaginei que algum dia eu não teria aquilo. E agora que finalmente tínhamos confessado os sentimentos que tínhamos um pelo outros e começamos essa nova fase, as horas que eu tinha com ele pareciam ser contadas, limitadas. Eu não sabia de onde aquele medo todo tinha surgido, talvez porque quando nos beijamos pela primeira vez ele tinha confessado que tinha um medo de me perder. Mas por quê? Eu não estava sempre ali à sua inteira disposição, até mais do que a minha dignidade permitia? Eu orbitava em torno dele, como o sol que sempre foi na minha vida. Mas por que esse medo então? Sem que eu percebesse, meu inconsciente assumiu as rédeas de meus pensamentos lúcidos e uma palavra pareceu brilhar como uma placa de neon em meu cérebro: imprinting.  Eu entendia a enormidade dos sentimentos deles por mim, eu o conhecia por completo e sabia que o que tínhamos era verdadeiro e inquebrável. Assim como Nahuel, eu via em seus olhos a admiração e o desejo que ele nutria, mesmo sem eu entender por quê. Mas apenas uma coisa faria com que todo aquele brilho se apagasse de repente, como se alguém tivesse apertado um interruptor de luz. O maldito imprinting. A partir do instante que encontrasse aquela que estivesse predestinada a pertencer a ele por causa daquela maldita magia Quileute, tudo que sentisse por mim não teria qualquer importância ou significado.  Eu já ouvira histórias disso acontecer e mesmo após tantos anos, as cicatrizes eram permanentes. Sam e Leah eram muito apaixonados e namoraram por um bom tempo, até Sam se transformar em lobo e ver Emily, prima de Leah. Acabou. Aquilo bastou para que anos de relacionamento virasse fumaça. Leah não soube lidar muito bem com essa situação, logicamente, mas eu acreditava que agora tinha sido superado. Bom, era o que eu esperava, apesar de não ser nada fácil ver o homem que você amou casado e com filhos de outra mulher.  Eu tinha que parar de pensar, esvaziar a mente, antes que uma crise de pânico se instalasse dentro de mim, mas era inútil tentar. O ar chegava a faltar nos meus pulmões só de imaginar isso acontecendo comigo. Não! Era inconcebível, absurdo, impossível. Estava tão chocada e apavorada com esse futuro iminente que não quis saber de mais nada, apenas encontrar Jacob, abraçá-lo e fazer com que jurasse com a própria vida que isso jamais aconteceria conosco. Mesmo sendo algo inevitável para um lobo, eu não poderia suportar viver num mundo onde Jacob não me amasse.  - Querida, aonde você vai? - perguntou tia Rosalie. Eu m*l havia me dado conta de que estava passando pelas portas da casa. - Renesmee? Ei! Num piscar de olhos ela estava na minha frente impedindo que eu continuasse, as mãos segurando meus ombros. - Preciso sair daqui - nem sei como consegui dizer alguma coisa em meio a explosão nuclear que acontecia na minha mente.  - O quê? Por quê? - perguntou tio Emmett, preocupado. - Tenho que ir a La Push - respondi simplesmente. - Não antes de você dizer o que está acontecendo. Você estava tocando uma música linda quando de repente se levantou parecendo que viu um fantasma. Eu não estava com tempo para aquela discussão, precisava sair o mais rápido possível. - Saia! - gritei e tia Rosalie soltou meus ombros num átimo.  Como eu já ouvia passos das outras pessoas da casa se aproximando e sabia que com certeza eles me impediriam, não demorei nem mais um segundo para pedir desculpas a tia Rosalie e disparei para a garagem e peguei meu carro, correndo o mais rápido que pude. - Deixe-a Rose – ouvi ao longe a voz de Carlisle.  Eu não conseguia manter um pensamento racional na minha mente, a mísera possibilidade de um dia perder Jacob, a melhor coisa que me aconteceu, estava me deixando em pânico. Meu Deus, como eu nunca pensei nisso antes? Sempre quando pensava no imprinting - as raras vezes que isso acontecia - me perguntava apenas porque Jacob nunca tinha sofrido um, era uma curiosidade, algo superficial. Eu nunca tinha realmente parado para analisar as consequências que teria se ele sofresse algo assim, principalmente agora que estávamos juntos, eu ficaria completamente devastada. Eu não podia deixar isso acontecer. O pior de tudo é que era tão fácil e simples, poderia acontecer durante uma ronda próximo a cidade, tropeçar em alguma garota qualquer da faculdade que ele nunca tinha visto antes… as possibilidades eram do tamanho da população mundial. Um sentimento de posse e ciúmes totalmente desconhecido tomava conta de mim. Eu tinha que fazer alguma coisa, nem que fosse amarrá-lo dentro de casa, para que não visse mais ninguém, só a mim. Perdê-lo não era uma opção. Eu já estava na fronteira Quileute e me preparava para começar a rastrear seu cheiro pela vila, ou de qualquer outro lobo que pudesse informar seu paradeiro. Também comecei a preparar mentalmente o que eu iria dizer, como eu faria ele entender meu ponto de vista, mas algo me impediu ao tal ponto de me fazer parar abruptamente na estrada deserta, fazendo o carro cantar pneu. Eu não podia falar sobre imprinting com Jacob, não depois da forma como ele tinha reagido da última e única vez que eu tocara no assunto. Ele ficara tão nervoso na época a ponto de quase se transformar na minha frente. Eu tinha prometido a mim mesmo que jamais falaria sobre isso novamente, mas da mesma forma não podia ficar sem respostas sobre os tormentos que badalavam minha mente como sinos de uma catedral.  Respirei fundo duas vezes para recuperar a ordem dos meus movimentos e voltei a dirigir mais devagar dessa vez.  Tudo bem, eu não estava sentindo cheiro fresco de lobo nenhum na floresta, então a melhor maneira realmente seria ir até La Push. Não podia ir para a casa de Jacob, obviamente, até onde sabia, a garota lobo ainda estava lá. Talvez ir para a floresta… mas ao passar pela primeira rua da aldeia decidi parar em frente a casa de Sue e pedir alguma informação ali, para que eu ao menos tivesse um ponto de partida de onde procurar.  A rua de terra vermelha estava deserta, as pequenas casinhas que margeavam a calçada eram todas no mesmo padrão simples e rústico, com ar aconchegante. Ao puxar o freio de mão bem de frente ao pequeno portão que levava até a casa do Clearwater, tentei prestar atenção nos sons ao meu redor. Além do barulho tranquilizador da floresta que margeava as casas, conseguia ouvir lá dentro o som de comida no fogo, uma tv ligada em algum jogo de tênis e roncos baixos e compassados. Determinada a seguir com meu objetivo, empurrei a vergonha para dentro de mim e sai do carro, caminhando silenciosamente e dando três batidas mínimas na porta de entrada. O som da TV foi diminuído e a porta se abriu instantes depois, revelando um Seth com cara de sono e desorientado. - Ei, Nessie! Que surpresa - exclamou ele alegremente. - Nessie? - disse a voz da cozinha e Sue apareceu logo atrás. - Entre querida, estou com panela no fogo, mas fique a vontade.  - Valeu Sue, mas eu só vim dar uma passadinha rápida - disse ao colocar as mãos nos bolsos. - Queria saber onde Jacob está.  - Está tudo bem? - perguntou o garoto, preocupado.  - Sim, eu só precisava… perguntar uma coisa. Tudo bem, não foi minha melhor resposta, mas eu precisava dizer algo e não podia compartilhar com Seth a minha piração. - Eu passo qualquer recado que precisar, aqui é profissionalismo - e bateu continência. Ri para disfarçar meu nervosismo e me vi pela primeira vez roendo as unhas, rapidamente escondi a mão nas costas.  - Mas vem cá… onde ele está hem? - perguntei tentando manter um tom descontraído, mas acho que não funcionou. - Jake está em semana de prova na faculdade. Ele se transformou bem cedinho e avisou que ficaria o dia inteiro com a cara enfiada nos livros. Sinceramente eu nem quero fazer faculdade, se for para ficar desse jeito. Ouvi Sue reclamar de alguma coisa da cozinha, mas não prestei atenção. - Mas Natai não está passando os recados de Jake para você? Posso puxar a orelha daquele pirralho se quiser, Jacob foi bem incisivo quando deu a ele essa função. - Não, não, o garoto está fazendo um bom trabalho, foi só uma dúvida que surgiu de repente, mas obrigada Seth, se puder apenas avisar o Jacob que quando ele estiver disponível me procurar… Seth franziu a testa e coçou a cabeça, confuso. - Ah… claro, beleza. Mas tem certeza que não quer que eu procure ele?  - Ele está muito ocupado agora, não quero incomodá-lo. - E nem ao menos entrar? - disse e abriu espaço para me dar passagem. - Não, não, muito obrigada. Eu tenho que… fazer lição de casa. E sai antes que fizesse mais papel de i****a. Senti que Seth me observava até chegar ao carro e depois que entrei ele voltou para a dentro. Fiquei alguns minutos ali parada pensando no que eu iria fazer. Já estava quase admitindo a derrota e me preparando psicologicamente para uma noite insone de preocupação quando ouvi batidinhas na janela. Olhei e vi uma garota alta de cabelos longos e pretos como petróleo, mas foi apenas quando olhei os olhos azuis cristalinos que reconheci quem era. Mia. Sai do carro rapidamente, tentando ser a mais simpática possível na tentativa de reparar o que tinha causado da última vez que nos encontramos.  A garota usava um moletom verde comprido demais e shorts curtos, tudo ali parecia fora das suas medidas.  - Mia, oi - exclamei, surpresa ao encará-la. Ela tinha uma expressão fechada e me avaliou dos pés à cabeça antes de responder.  - Torci para nunca mais encontrar a sua cara por aqui, mas fui i****a por imaginar que você não voltaria. Ou talvez a i****a seja você.  Ok, esse ódio gratuito estava começando a me irritar. Tudo bem que eu fui a responsável por repartir seus ossos como um pacote de salgadinhos quando já estavam fragilizados, mas era só me evitar se não gostava de mim.  - Vejo que você melhorou - falei ainda tentando manter o tom simpático na voz. Ela cruzou os braços e se encostou na porta do meu carro, com o nariz franzido como se estivesse sentindo um cheiro muito r**m.  - Não graças a você. O que você veio fazer aqui? Procurar Jacob? - e soltou uma risadinha. Eu poderia dar uma leve empurrada que a faria desgrudar do meu carro, mas resolvi manter a cortesia por enquanto. - Eu precisava falar com ele, mas como não o encontrei vou voltar mais tarde. Foi bom ver que você está melhor, mas com licença… - Você não se toca, não é mesmo? - interrompeu ela, me encarando com olhos semicerrados. - Como assim? - Jacob está te evitando, não percebeu? Ou você acha mesmo que ele prefere ficar brincando de namorandinho com a meia vampira? Não seja ridícula. Você ainda está fedendo a leite enquanto ele já é um homem feito, precisa de uma mulher a sua altura. Eu não precisava ficar ali ouvindo isso, já tive um dia bem estressante e se aquela mulher estava disposta a me tirar do sério, talvez eu me sentisse tentada a quebrar todos os seus ossos de novo.  - Se você não tem nada de relevante para me dizer, por favor desencoste do meu carro que eu preciso ir embora. Fiquei esperando, mas como ela não fez menção de se mexer, puxei a maçaneta com um pouco de força, a empurrei com a porta do carro e me sentei no banco. Porém ela interveio e se postou entre mim e a porta, me impedindo de fechar.  - Eu tenho algo para lhe falar sim. Pare de voltar a circular em La Push, ou eu mesma tomarei medidas contra isso. Jacob quer que eu faça parte da matilha, mas eu não vou tolerar o seu fedor e da sua família contaminando as ruas. Se o pessoal daqui é trouxa o suficiente para tolerar isso, eu não sou. Provei na própria pele o estrago que um vampiro pode causar, não quero passar por isso de novo.  Eu não a encarei em nenhum momento sequer enquanto falava, tentando controlar a raiva o máximo possível. - Acabou? - murmurei entre dentes. - Sim, o recado está dado. Pare para pensar, você nem mesmo tem motivos para vir aqui, sua família só causou estragos nesta aldeia, até Jacob parou de te visitar. E porque ele iria, afinal? Eu estou vinte quatro horas a disposição dele, estamos nos tornando bem íntimos.  O tom cínico da sua voz terminou de fazer todo o estrago. Coloquei o sorriso mais falso no rosto e me virei para ela, erguendo a mão até a maçaneta interna do carro.  - Com todo o respeito Mia, vai se fuder. Puxei a porta com força e senti as dobradiças protestarem. Acelerei o carro o máximo que pude e torci para que tivesse levado seus dedos junto comigo. Nada no mundo podia fazer eu duvidar da integridade de Jacob, muito menos as mentiras daquela garota peçonhenta. O lado bom é que agora eu não precisava mais me sentir culpada por tê-la machucado, na verdade estava bem arrependida de não ter feito isso de novo.
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