As semanas se seguiram desde que Jacob e eu nos encontramos pela última vez. Eu só não estava mais agoniada e desesperada porque recebia notícias constantes dele através do jovem lobo Natai, uma imposição feita por Jake para que eu soubesse onde ele estava e porque não poderia me ver naquele dia. Eu havia me interposto quanto a isso, dizendo que o garoto não era lobo correio, mas não adiantou. Jake continuou mandando-o todas as noites e eu era agraciada com as notícias de seus dias e depois contava sobre os meus.
- Não me importo mesmo, Nessie - disse o garoto na terceira noite em minha janela - É mais legal do que fazer rondas. Além disso, estou me tornando especialista em garotas ouvindo as declarações de vocês dois. Vou me ficar irresistível na escola.
Suspirei. Isso era extremamente constrangedor, eu iria m***r Jacob da próxima vez que o visse. O garoto era um bom rapaz e parecia realmente confortável com aquela situação toda, por isso não consegui impedir que continuasse.
- Então eu já vou indo. Ah, e Jake mandou um beijo beeem apaixonado para você, e como eu estou aqui para cumprir suas ordens…
Joguei meu sapato na direção dele, mas o garoto desviou com habilidade. Depois correu para a floresta rindo enquanto eu voltava para a sala e me emparramava no sofá.
Eu tinha que admitir que era bom ter notícias constantes do que estava acontecendo em La Push, eu já tinha ficado distante demais.
Então estava a par de tudo ao longo das semanas graças aos recados de Jake. Mia tinha ficado num estado muito pior dessa segunda vez que quebrou os ossos, mas como não possuía mais veneno de vampiro em seu organismo, a recuperação estava acelerada e bem sucedida, graças à capacidade mágica dos lobos de se curarem. Porém ela ainda era impossibilitada de se transformar até… bem, até Carlisle avaliar seu estado, o que era impossível graças a seu profundo ódio contra nós.
Jake havia finalmente voltado para a faculdade depois de um mês ausente e agora precisava compensar todas as faltas com urgência, fazer os trabalhos pendentes e estudar loucamente para as provas que se aproximavam.
Há dois dias Jared finalmente conseguira parar de se transformar em lobo. Depois de tantos anos de luta, agora estava oficialmente fora do bando, o que deixava Jacob mais preocupado, mesmo sabendo que essa hora um dia chegaria. Eu não conseguia nem imaginar como ficaria seu estado quando Paul atingisse o mesmo feito. Dois lobos fortes e experientes a menos era uma situação alarmante, principalmente tendo em vista que a maioria dos outros membros ainda eram jovens demais e todo o acontecimento da aldeia Makah estava muito fresco.
Perdida em pensamento, enquanto fingia prestar atenção em um filme na enorme televisão da sala, ouvi os passos de meu pai se aproximando. Supus que minha mãe estivesse estudando na varanda.
- Seu namorado chega a me espantar com o tamanho da sua insolência - disse Edward irritado, ao se sentar ao meu lado. - Ainda não me conformo do porquê esse filhote de lobo tem que vir aqui todas as noites.
- Porque a ronda dele é a mais próxima da nossa casa.
Meu pai me aninhou em seu abraço.
- É isso ou Jacob quer ficar de olho em Nahuel?
- Pai! - o repreendi.
- Não me culpe por ser sincero - ele levantou as palmas das mãos num gesto de rendição.
Revirei os olhos.
Nahuel estava se comportando como um perfeito cavalheiro e um amigo muito fiel. Nós perdíamos horas e horas na grande casa dos Cullen conversando sobre diversos assuntos. Nos dias em que ele não estava me ensinando a aprimorar meu espanhol, nós aproveitávamos as tardes para treinar alguns golpes, algo que eu estava me aperfeiçoando cada vez mais. Vez ou outra meus familiares se juntavam a nós, mas as lutas eram sempre deixadas de lado quando minha mãe aparecia, ela não me queria ver lutando com vampiros. Eu me frustrava e papai vinha logo com a ideia de jogarmos baseball.
Nahuel tinha decidido que iria cursar Astrofísica na Universidade de Washington, mas estava ainda com problemas para atualizar seus documentos e conseguir uma vaga tão em cima da hora. Mesmo se mostrando brilhante para o reitor da universidade, o fato de todas as turmas estarem no período das primeiras provas dificultava sua entrada. Eu tentava convencê-lo a esperar o próximo ano, mas ele estava animado demais para esperar.
Lembrando-se das minhas aulas, olhei para o relógio em cima da escrivaninha de mogno antigo, estava ficando tarde e amanhã eu teria exame de biologia logo no primeiro horário.
- Boa noite querida - disse meu pai antes mesmo que eu me levantasse.
- Obrigada pai - respondi o abraçando e indo até a varanda dar um beijo em minha mãe.
- Bons sonhos meu amor - desejou ela e depois mordeu o lábio.
Eu entendi sua expressão, meus sonhos não tinham tranquilizado nenhum pouco nas ultimas semanas, na realidade estavam ficando cada vez mais realistas ao ponto de eu acordar arfando e com dor entre as coxas…
O pigarrear de meu pai na sala interrompeu meus pensamentos abruptamente.
Isso estava ficando muito constrangedor. Como eu poderia pensar no meu namorado em paz com pais que sabiam de tudo que eu sentia? Edward tentava ser o mais cavalheiro possível e quase não demonstrava emoção alguma quando me pegava pensando nessas coisas, mas às vezes uma careta tomava seus lábios ou trincava os dentes. Já a minha mãe não precisava perguntar coisa alguma para ele, uma vez que meu falatório noturno deixava bem claro a loucura que meus sonhos se tornavam.
Eu queria ser uma avestruz e enfiar minha cabeça num buraco ao me despedir deles e ir para a cama, mas como isso não era possível me contentei em cantar mentalmente o antigo hino da União Soviética de trás para frente, a fim de me distrair.
Tomei um banho frio para tentar abaixar a temperatura do meu corpo, algo que eu sabia que era impossível, mas me acalmava. Vesti um pijama simples de renda azul e cai na cama, me entregando ao sono rapidamente.
"Nessie" ouvi a voz rouca de Jacob sussurrar em meu ouvido, sentindo o corpo inteiro se arrepiar em resposta. Virei-me, mas não o encontrei em parte alguma, mesmo ainda sentindo sua presença. Andei por uma escuridão sem sentido mais alguns metros até que suas costas nuas e musculosas apareceram a alguns metros.
"É uma otária mesmo, não enxerga nada que esteja diante de seus olhos" ouvi a voz de uma mulher na direção onde Jacob estava.
Sua figura ainda de costas pareceu agarrar alguma coisa na frente e um par de pernas pálidas passou em torno de sua cintura, logo em seguida uma enorme cabeleira n***a surgiu cobrindo um de seus ombros, um rosto escondido no seu pescoço. Tentei me aproximar, mas o rosto que estava colado em Jacob se mexeu e ergueu-se para mim, porém no lugar de uma pessoa vi o focinho de um grande lobo branco com olhos azuis como gelo me fuzilando.
Acordei assustada, suor escorrendo pelo meu peito enquanto eu tentava recuperar o fôlego. Esse foi o sonho mais maluco até agora, sem sombra de dúvida.
Depois de alguns minutos apreciando o silêncio e tentando me acalmar, me dei conta que estava silencioso demais, nem o som da respiração de meus pais eu ouvia. Saltei da cama e fui para a sala, onde um bilhete pousava em cima do livro que eu estava lendo.
"Fomos até o Canadá caçar com Alice e Jasper, voltamos em menos de três dias. Te amamos. B.E."
Eu lembrava deles terem mencionado aquela viagem, só não sabia que seria essa madrugada. Eu sentiria falta deles naquela casa sozinha, mas ao menos não precisava controlar meus pensamentos o tempo todo.
O que, parando para pensar, era um problema. Sempre quando minha mente ficava um pouco livre imediatamente rumava para Jacob, como um ímã poderosíssimo. Às vezes as divagações tomavam caminhos mais tranquilos, como quando eu refletia no alívio que era finalmente termos deixado as claras o que sentimos pelo outro e tudo ser recíproco: amor, carinho, paixão. Logo em seguida vinha a vontade de saciar o desejo de estar constantemente em contato com sua pele, sentir o seu calor, me inebriar pelo seu cheiro. Era nessa altura que eu estava em chamas e arrepios percorriam todo o meu corpo, porém depois vinha a pior parte: a saudade. Ah, se eu deixasse ela me dominar poderia passar o dia inteiro naquela varanda outra vez, ou pior, cometer alguma loucura e sair correndo atrás dele.
Enquanto comia aquele cereal intragável, olhei para o relógio na pilastra da cozinha vagamente. Ainda estava cedo para ir à escola, mas eu precisava muito de distração, então escolhi a roupa mais fácil do guarda-roupa - blusa azul turquesa em gola V, jaqueta de couro e calça jeans escura - e fui buscar meu carro na garagem.
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Quando parei com o carro em uma vaga próxima da entrada, já conseguia avistar Liam e Julie me esperando próximo às escadarias, como todos os dias. Eu estava feliz que nosso contato tivesse se estreitado e agora eu os considerasse amigos. Julie se mostrara muito meiga e simpática, parecia uma mocinha de romances antigos e tinha umas tiradas muito inteligentes. Liam formava um par perfeito com ela, era galante e educado, além de possuir um humor peculiar. Era aquele tipo de pessoa que você sempre pedia uma opinião para qualquer assunto, só pelo prazer de ouvi-lo falar.
- Ei Rê, estava falando com o Liam sobre a nova sequência daquele filme de ação que acabou de estrear, poderíamos combinar de irmos juntos assistir - disse Julie assim que os cumprimentei com um beijo no rosto.
- Mas você nem gosta de filme de ação, Juju - rebateu Liam.
- Tem razão, mas é essa ou a nova comédia romântica. Imaginei que você não gostaria de assistir esse.
- Eu me divirto com comédias românticas, todo mundo adora um clichê. O que você acha Ness?
Enquanto pensava por uns instantes percebi que Liam havia estreitado ainda mais o espaço entre nós e roçava seu braço no meu com frequência enquanto caminhávamos pelo corredor, sem tirar os olhos mim.
- Para mim tanto faz, gosto dos dois gêneros.
- Eu acho que um romance combina mais com seu estado de espírito atual - disse Julie, atraindo minha atenção e de Liam rapidamente.
- Como assim? - perguntei.
- Ah, fala sério, está muito na cara. Há dias tenho percebido que você fica perdida em pensamentos toda hora, às vezes soltando uns suspiros, e ontem vi que seu caderno está cheio de “J” escrito na contracapa.
A olhei bestificada, não me lembrava de ter feito nada daquilo. Mas uma coisa ela acertou, eu andava muito distraída ultimamente.
- Isso só quer dizer que você está a-pai-xo-na-da – frisou Julie cada sílaba - Ei, você poderia convidar quem quer que seja esse J para ir ao cinema com a gente, se estiver com vergonha pode dizer que é uma saída só entre amigos.
Só uma garota como Julie para acreditar que o maior problema da minha vida amorosa era a timidez. Ri com esse pensamento, fazendo Liam virar o rosto para mim. Ele estava em silêncio durante todo o percurso e só percebi naquele instante como sua expressão estava fechada.
Eu não tinha contado ainda sobre Jacob a nenhum dos meus amigos, não por falta de vontade, eu só não estava pronta para assumir tão abertamente nosso relacionamento aos humanos, principalmente porque fazia semanas que Jake me pedira em namoro e não tínhamos nos vistos nenhuma vez desde então. Ele parecia mais um namorado imaginário.
- Sim, pode ser - consegui dizer.
Julie deu um pulinho de alegria ao mesmo tempo em que Liam murmurou um "com licença" e entrou no banheiro masculino ao meu lado. Olhei para Julie sem entender, mas ela apenas deu de ombros.
Depois de mais algumas caminhadas com a garota tagarelando sem parar, eu entrei na aula de biologia enquanto ela ia para Educação Física. Hoje teria prova prática no laboratório, um exame bem fácil que eu poderia fazer de olhos fechados.
Mesmo sendo a única da turma sem acompanhante, terminei mais rápido que todos, mesmo enrolando ao máximo e conferindo as respostas três vezes.
Quando parti para a aula de inglês, Liam já estava me esperando. Agora que éramos amigos, fazíamos dupla em todas as aulas que tínhamos juntos.
- Oi, está tudo bem? - perguntei ao sentar-se na cadeira, largando minha mochila no chão, ainda lembrando-se de seu comportamento estranho mais cedo.
Ele pigarreou antes de responder.
- Sim, sim, está tudo certo. Conseguiu ler os três livros que o professor indicou?
- Consegui - respondi simplesmente, eu já tinha lido aqueles volumes duas vezes, Dante era um de meus autores favoritos.
Liam encolheu os ombros.
- Sorte a sua. Eu m*l consegui terminar o primeiro volume.
Achei estranho. Liam era um leitor tão ávido quanto eu, sempre afoito para debater sobre as histórias que estava lendo atualmente, e com isso embarcávamos em excitantes conversas até o professor chegar, depois continuávamos até o refeitório como se não tivéssemos sido interrompidos. Então estranhei que não tivesse terminado aquela história, visto sua alegria quando o professor anunciou que leríamos os três volumes da Divina Comédia.
Comecei a reparar na postura cansada de Liam, com os ombros curvados como se estivesse carregando algum peso. As roupas estavam levemente amassadas e um tom arroxeado surgia abaixo dos seus olhos.
- Liam, você não parece nada bem. Não anda dormindo direito? - perguntei preocupada.
Ele se aprumou na cadeira, voltando a ficar mais alto e me deu um de seus sorrisos fáceis que formavam luas nas bochechas.
- É só nervoso com as provas – explicou, depois fingiu pegar algo na mochila.
Não entendi por que ele mentiu, mas não tive a oportunidade de perguntar mais nada, pois o professor entrou na sala.
O dia transcorreu normalmente como todos os outros. Durante o almoço o foco da conversa foi o planejamento do cinema, qual seria o dia mais viável para todos e qual o filme que realmente assistiríamos: a sequência de ação famosa ou a comédia romântica que estava bombando nas bilheterias. Eu tentava participar ao máximo da discussão, principalmente tentava evitar que Julie voltasse ao assunto da minha suposta paixonite, mas não pude deixar de perceber como realmente Liam aparentava estar m*l. Eu teria uma conversa com ele depois das aulas, era o que uma amiga de verdade faria, não era?
Porém, mesmo que eu tentasse me enturmar com todos e ser simpática, o que mais me tirava do sério era que nada havia mudado desde o meu primeiro dia de aula. Eu ainda era alvo constante dos olhares e comentários da maioria dos alunos, que disfarçavam cada vez menos.
Disputando a posição de top um dos meus martírios escolares estava a aula de Educação Física. Era uma chatice sem fim jogar um jogo que eu amava tanto - vôlei - praticamente em câmera lenta. Porque era assim que me pareciam todos os jogos. O único consolo era que Liam fazia minha dupla, o que tornava as coisas mais divertidas. Ele sempre gritava histericamente e aplaudia quando eu fazia um lance que ele considerava impressionante. "Isso aí parceira!" Exclamava alegremente e vinha até mim para bater na palma da minha mão. Mas até nisso ele parecia desanimado hoje, então enquanto me acompanhava até meu carro eu treinei a postura mais descontraída possível ao perguntar:
- Está precisando de alguma ajuda para estudar para as provas?
Vi que ele estava distraído e franziu a testa levemente.
- Ajuda? Por quê? – pergunto confuso.
- Você me disse que estava preocupado com elas.
- Falei?... Ah, sim! Quero dizer, não preciso de ajuda, mas obrigado por perguntar.
- Tem certeza? Se for isso que está te atormentando, posso ir até a sua casa para estudarmos jun...
- Não, não será necessário. Eu vou conseguir me virar, obrigado mesmo assim – respondeu depressa – Acho que a Julie já está me esperando. Até amanhã Ness.
E saiu antes mesmo que eu pudesse responder. Normalmente Liam me acompanhava até o carro e depois se encontrava com Julie para pegar carona em seu carro, uma vez que eram vizinhos. A última aula de Julie sempre atrasava, por consequência acabávamos conversando alguns minutinhos no estacionamento. Porém a garota ainda não tinha chegado e Liam já estava do outro lado do pátio.
Que coisa estranha, ele estava me evitando totalmente, ou evitando minhas perguntas. Torci para que estivesse melhor amanhã e entrei no meu carro, batendo a porta ao mesmo tempo em que ligava o motor e saia dos terrenos da escola silenciosamente.
Quando cheguei em casa encontrei Nahuel na varanda conversando com sua tia Huilen, ao me aproximar ele se levantou da mesa e veio até meu encontro.
Nahuel estava se adaptando muito bem ao nosso estilo de vida, nem parecia um estrangeiro. Ele adorava sair para conhecer a região, principalmente as montanhas para um pulo de penhasco. Quanto a alimentação, ainda não estava pronto para abandonar a dieta de sangue, como eu havia feito, mas progredia consideravelmente ao estilo “vegetariano” dos Cullen. Sua tia que estava tendo mais dificuldades, de modo que sua postura era sempre tensa e rígida. Ela nem ao menos me olhou quando cheguei, mas eu estava acostumada com seu comportamento.
- Oi amable Renesmee. Como foi a aula? – perguntou ele num tom simpático, me lançando um sorriso estonteante.
- Foi normal...
- Ah, não! Cinema telepático, por favor.
Tive que rir de sua expressão ao erguer a mão para tocar seu rosto e mostrar o meu entediante dia de aula. Nahuel sempre ficava maravilhado quando eu usava meu dom, eu sinceramente não entendia sua empolgação para saber da minha rotina.
- Legal – disse por fim – está com a tarde livre? Podemos fazer alguma coisa, o que acha?
- Tudo bem. O que sugere?
Ele olhou de relance para a tia antes de responder.
- Bom, eu não cacei muito da última vez, estava ocupado me preocupando com Huilen. Se você não se importar de me acompanhar...
- Não me importo.
- Sério? Achei que seria um problema para você.
- Querido, eu sou o modelo de superação nessa família – brinquei e joguei os cabelos para trás num gesto displicente.
Nahuel apenas ampliou ainda mais o sorriso e agarrou minha mão, me guiando para a floresta.
Eu o segui num ritmo calmo e paciente por uns bons 8 km até chegarmos numa clareira fechada, onde Nahuel começou a apurar seus sentidos de caça enquanto eu o esperava em cima de uma rocha, me sentando e passando os braços sobre os joelhos.
- Não adianta roubar dessa vez, tem que deixar de pensar do meu sangue enquanto caça – falei, brincando.
- Não preciso disso. Observe e aprenda – respondeu do outro lado do terreno plano, num tom de desafio.
E foi o que eu fiz, observei seus movimentos graves e elegantes enquanto subia em árvores para depois de algumas batidas de coração saltar sobre uma dupla de cervos grandes e robustos. Não levou menos de um minuto para as duas criaturas serem totalmente drenadas.
- Não sei como vocês conseguem suportar o cheiro – falou ao limpar o canto dos lábios e vindo até mim.
- Realmente é desagradável, mas para mim o cheiro da comida humana é ainda pior. Apenas alguns alimentos se salvam.
Ele se curvou levemente e saltou com agilidade até a rocha em que eu estava e se sentou ao meu lado.
- Já está satisfeito? – perguntei.
- Ainda não, mas não estou com pressa. Mas me conta quais os alimentos que você consegue suportar.
- Os naturais de forma geral, principalmente cozidos com muitas ervas. Carne também é ótimo.
- Esse nosso corpo é estranho, não acha? Por exemplo, se eu bebesse essa mesma quantidade que bebi agora de sangue humano já estaria completamente saciado. Mas esse sangue “vegetariano” me dá mais sede ainda e depois passa a vontade. Já você tem que comer uma quantidade absurda de comida humana para se sentir satisfeita.
Refleti por uns instantes. Eu nunca tinha provado sangue humano, a não ser quando bebê, mas não sentia falta. Minha mente tinha se adaptado muito bem sem, porém às vezes era complicado resistir à sede em si, principalmente quando eu estava com muita fome, o que acontecia com frequência.
- Isso é verdade – respondi a ele – você viu o prejuízo em casa por conta de comida. Toda minha família agora sabe cozinhar por minha causa.
Ele riu.
- O pior é que eu fico irritadiça quando não como o suficiente – continuei – Teve até um dia que eu estava com um humor do cão, quando cheguei em casa minha mãe tinha preparado um banquete enorme. O problema foi que eu sabia que Jake estava vindo me ver, então eu comi tudo antes dele chegar.
Eu ri com a lembrança, mas logo em seguida minha expressão murchou ao lembrar-se dos momentos com Jacob, parecia pertencer a outra vida. Nahuel notou minha mudança de humor e bufou com irritação.
- Esse cara é um trouxa – disse.
Olhei para Nahuel surpresa.
- Desculpe, eu sei que o ama, mas ele é um tremendo trouxa, simplesmente pelo fato de que tem você e fica ausente desse jeito. Se eu tivesse a sorte que ele tem não a deixaria sozinha por um segundo sequer.
Tentei manter o rosto lívido, mas por dentro eu estava espantada. De onde veio isso? Eu não precisava de mais uma complicação na minha vida. Ai meu Deus...
- Na verdade eu deveria me dar por satisfeito – continuou ele, uma vez que eu estava totalmente muda – passo mais tempo com você do que aquele infeliz.
- Nahuel... – comecei.
- Mas sua cabeça está sempre longe amable Renesmee e muitas vezes a vejo olhando para nada em específico, como se estivesse em uma discussão interna. De onde eu venho, homens que deixam suas companheiras sempre sozinhas não é bom sinal.
- Não estou sozinha e recebo notícias dele todos os dias. Jacob tem muita responsabilidade agora, mas isso logo vai passar. Não é culpa dele se eu fico a maior parte do dia livre.
- Como ele pode ter tempo para todas essas coisas exceto para você? E ainda envia uma criança para te mandar recados. Perdon, mas isso é desprezível.
Meu primeiro instinto foi contestar tudo que ele estava dizendo, defender Jacob de suas acusações infundadas, mas não consegui, porque não eram tão infundadas assim. Eu tentava ao máximo expulsar esses pensamentos da minha mente, mas essa e**a daninha ainda estava ali. O fato era que eu me sentia sozinha sem Jake, abandonada na verdade. Havia semanas que eu não o via e as sensações do nosso último encontro só me atormentavam, me deixando sempre à beira das lágrimas pela sua ausência, a ansiedade tomando conta de mim.
- Eu me lembro dele quando vim aqui pela primeira vez – falou Nahuel – Você era apenas uma criancinha. Ele não saia do seu lado e eu juro que nunca vi alguém olhar com tanta devoção para uma pessoa como ele olhava para você. Quando o vi há algumas semanas, assim que chegamos aqui, pensei ter visto a mesma coisa, como se você fosse a criatura mais preciosa do mundo para ele. Tive certeza naquele momento que eu tinha perdido, não teria a mínima chance, porque você o olhava da mesma forma.
Nahuel se virou para ficar de frente para mim e pegou minhas mãos nas suas, olhando profundamente nos meus olhos. Encolhi dentro de mim.
- Mas quem ama não faz isso, não coloca tristeza nos olhos do outro desse jeito. Você está desolada e a cada dia fica pior ainda.
- Nahuel, eu...
- Escute, eu já percebi que você é uma pessoa intensa, se entrega profundamente a esse relación. Mas não existe só isso, entende? Você pode ter muito mais, eu posso te dar muito mais, não precisa sofrer por migalhas.
Eu estava em choque, não tinha imaginado que ele alimentava todo esse sentimento por mim. Isso só deixava as coisas piores, pois eu não queria magoá-lo. Nahuel era um bom amigo, nós nos entendíamos de uma maneira única, principalmente por compartilharmos os mesmos dilemas que a nossa espécie singular podia proporcionar.
Ele olhou para as nossas mãos unidas por um bom tempo, talvez esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu estava perdida em minha mente, procurando uma forma de deixar claro o que sentia sem ferir seus sentimentos.
- Y entonces la ví, la chica preciosa con la que había soñado toda mi vida – murmurou numa voz cantante e ergueu a cabeça.
De repente fui totalmente inundada pela profundidade que habitava naqueles olhos brilhantes, quase me esquecendo do que estávamos conversando, mas sua respiração próxima demais me despertou. Afastei-me rápido e abruptamente quando percebi que ele estava a um suspiro de me beijar.
Os segundos se passaram e sua face expressou toda a dor que a minha atitude tinha lhe causado. Eu o rejeitara. Ele estava magoado. Meu coração se encolheu dentro de mim.
- Desculpe Nahuel, eu não queria...
- Eu percebi – sua voz era um misto de tristeza e angústia enquanto soltava minhas mãos.
- Não, eu fui pega de surpresa...
- Sou um i****a.
- Pare de me interromper! - falei mais alto – O que eu quero dizer é que eu não queria ter reagido dessa forma, só fiquei espantada. Você sabe que eu adoro você, mas estou com ele agora - até dizer o nome de Jacob era difícil naquela situação.
- Eu sei, você já fez sua escolha – sussurrou.
- Não é uma questão de escolha. Por favor, não estrague tudo, você é importante para mim.
Ele se levantou e foi para o chão, me deixando estática alí, e começou a caminhar para oeste.
- Para onde você vai? – perguntei com urgência.
- Já tem um tempo que estava planejando ir atrás de Johan desde o dia que vocês me contaram o que aconteceu na aldeia makah e sobre a criança híbrida. Só não fui antes porque... - sua voz se perdeu no ar.
- O quê? Mas você não pode ir sozinho – me levantei e fui até sua direção.
- Johan vai me receber melhor se eu não estiver acompanhado por Huilen, por favor, avise a ela e diga para não se preocupar.
- Mas que loucura é essa? Você nem sabe onde ele está.
- Tenho alguma ideia. Volto em alguns dias – e começou a andar, mas eu segurei seu braço, ainda de costas para mim.
- Por favor, não faça isso – implorei, lágrimas começando a inundar meu rosto. i****a, i****a!
Nahuel se virou para mim e me encarou profundamente de novo.
- Desculpe amable Renesmee, preciso fazer isso.
Então seus lábios encontraram os meus, pressionando-os com urgência. Antes que pudesse processar qualquer coisa ele havia desaparecido e eu estava sozinha no meio da clareira.