O jardim da casa de veraneio era amplo, silencioso e quase sagrado.
O sol da manhã filtrava-se entre as folhas, criando jogos de luz sobre o caminho de pedras que levava até o lago. O perfume suave das flores se misturava ao ar frio da montanha, trazendo uma estranha sensação de paz.
Nicole caminhava alguns passos atrás de Yusuke.
Ele seguia à frente, as mãos nos bolsos, o olhar atento ao ambiente, como se estivesse sempre pronto para um ataque invisível.
O silêncio entre eles era espesso.
Mas, diferente da noite anterior, não era apenas tenso.
Havia algo mais.
Uma curiosidade contida.
Yusuke parou perto de uma grande cerejeira.
Os galhos carregados de flores rosadas balançavam suavemente com o vento.
— Você sente falta da sua casa?
A pergunta veio inesperada.
Nicole piscou, surpresa.
— Muito.
Ele não olhou para ela.
— Do quê, exatamente?
Ela pensou por alguns segundos.
— Do cheiro dos bolos da minha mãe. — respondeu em voz baixa. — Do barulho dos meus irmãos brigando. Da risada da minha tia. Do jeito que meu pai me abraçava antes de sair pra trabalhar, mesmo quando estava atrasado.
Yusuke permaneceu em silêncio.
— Sinto falta da liberdade de não ter medo. — completou.
Ele a encarou então.
Havia algo afiado em seu olhar.
— Você tem medo de mim.
— Sim. — respondeu, sem mentir.
A sinceridade a surpreendeu.
— Por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque você não demonstra nada. Porque seus olhos parecem sempre vazios. Porque você machuca quem ama achando que isso é proteção.
Yusuke sentiu algo se contrair dentro do peito.
— Você acha que eu amo alguém?
— Acho que você não sabe como amar. — disse ela, com cuidado. — Mas isso não significa que não possa aprender.
O silêncio voltou a se espalhar.
Eles caminharam até a beira do lago.
A água refletia o céu limpo e as árvores ao redor, criando uma imagem quase perfeita.
— Você tinha sonhos? — perguntou Yusuke, inesperadamente.
Nicole virou-se para ele.
— Ainda tenho.
— Quais?
Ela sorriu, pequeno e triste.
— Fazer faculdade. Ter minha própria confeitaria. Viajar. Ter uma casa simples, cheia de luz. Um marido que chegasse cansado do trabalho e comesse meus bolos reclamando que engordaria.
Yusuke sentiu uma pontada estranha.
— Agora você é minha esposa. — disse, frio. — Esses sonhos morreram.
Nicole o encarou.
— Não. — respondeu com firmeza suave. — Eles só estão dormindo.
Ele a observou por longos segundos.
Havia algo nela que o desarmava.
Não pela força.
Mas pela pureza.
— Você é estranha. — murmurou.
— Já me chamaram de pior. — tentou brincar.
Por um instante quase imperceptível, o canto da boca de Yusuke se moveu.
Quase um sorriso.
Quase.
O vento soprou mais forte, fazendo pétalas de cerejeira caírem ao redor deles.
Pareciam presos dentro de um momento que não deveriam viver.
Dois mundos opostos.
Dois corações feridos.
Caminhando lado a lado no fio da destruição.
---
O vento soprou mais forte.
As pétalas das cerejeiras começaram a cair lentamente ao redor deles, dançando no ar antes de tocar o chão.
Nicole observava o lago em silêncio, perdida nos próprios pensamentos.
Foi quando sentiu.
A presença de Yusuke atrás de si.
O calor do corpo dele.
A respiração próxima demais.
Antes que pudesse reagir, mãos firmes seguraram seus braços, puxando-a para trás.
O coração dela disparou.
— Yusuke…
Ele a virou bruscamente.
Os olhos escuros queimavam.
Não havia raiva.
Havia conflito.
Havia algo muito mais perigoso.
Sem dar tempo para que pensasse, ele a puxou contra o próprio corpo e a beijou.
O beijo foi intenso.
Profundo.
Carregado de tudo que ele não sabia expressar em palavras.
Não era delicado.
Mas também não era brutal.
Era urgente.
Como se estivesse lutando contra si mesmo.
Nicole ficou rígida por um segundo, surpresa, assustada.
Mas então seus dedos se fecharam na roupa dele, buscando equilíbrio.
Seu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro do peito.
Quando Yusuke se afastou, ambos respiravam com dificuldade.
Ele encostou a testa na dela.
— Você não deveria me provocar. — murmurou.
— Eu não sei nem como se faz isso. — sussurrou ela, os olhos ainda fechados.
Por alguns segundos, eles ficaram ali, apenas sentindo a presença um do outro.
Então, sem dizer nada, Yusuke a puxou pela mão e a conduziu até um trecho de grama macia, sob a sombra das cerejeiras.
Sentou-se primeiro.
Depois a fez deitar ao seu lado.
O céu azul se estendia infinito acima deles.
Nicole nunca imaginara que ficaria assim, ao lado do homem mais temido do submundo japonês, olhando nuvens passarem.
— Por que você não grita comigo? — perguntou ele, de repente.
Ela virou o rosto para encará-lo.
— Por que eu faria isso?
— Qualquer outra mulher faria. — respondeu. — Você aceita. Observa. Aguenta.
Nicole pensou por alguns segundos.
— Porque eu aprendi que gritar não muda o coração das pessoas. — disse em voz baixa. — Só endurece ainda mais.
Ele ficou em silêncio.
— E você? — perguntou ela. — Por que me trouxe pra cá?
Yusuke fechou os olhos por um instante.
— Porque eu precisava saber se você era real. — confessou, quase contra a própria vontade.
Ela engoliu em seco.
— E sou?
Ele abriu os olhos e a encarou.
— Infelizmente.
Nicole soltou um pequeno riso nervoso.
— Você me odeia?
Yusuke não respondeu de imediato.
— Não. — disse por fim. — Mas também não sei o que fazer com você.
Ela observou o perfil sério dele.
As tatuagens.
A expressão constantemente em alerta.
— Eu não quero ser sua fraqueza. — murmurou.
— Tarde demais. — respondeu, seco.
O coração dela deu um salto.
Ele virou o rosto, encarando o céu.
— Você me desarma. — continuou. — E isso é perigoso.
Nicole sentiu um nó se formar na garganta.
Sem pensar muito, virou-se de lado e apoiou a cabeça levemente no braço dele.
O corpo de Yusuke ficou tenso.
Mas ele não a afastou.
Ficaram ali.
Em silêncio.
Sob as cerejeiras.
Dois corações completamente opostos, presos num destino c***l que nenhum dos dois escolheu.