Pré-visualização gratuita 1. O dia do meu casamento
Paola
O véu cai no meu rosto. Com o passar dos anos, o cheiro presente nele é o de morfo. Ele é velho, mas é da minha mãe. O que ela usou no dia do seu casamento.
O cheiro dos lírios cobrem o chão de pedra enquanto a mulher resmunga atrás de mim. Ela está irritada por ter que trabalhar com o véu antigo quando um novo e mais bonito fica sem uso em sua caixa. Movo o pé, espremi um pétala de lírio rosa-claro no chão com o calcanhar.
Flores funerárias para um casamento. Um m*l presságio.
Não que eu precise de um.
O fedor das flores revira meu estômago. Não foi assim que imaginei o dia do meu casamento.
— Terminado — anuncia a mulher.
Eu fico de pé, a pétala grudada no meu calcanhar. Eu não ligo. Olho para cima e encontro meu reflexo no espelho.
— Ele não vai gostar do véu — diz ela. Ela é um borrão ao meu lado.
Eu viro meu olhar, fazendo meus olhos focarem nela. Ela é rechonchuda e baixa e tem uma verruga na lateral do rosto com um cabelo preto e grosso crescendo dela. Mas não se deve julgar o livro pela capa neste caso. Ela é tão v***a por dentro quanto parece por fora.
— Acho que ele terá que superar isso.
— Você deveria usar o que ele enviou.
Não me preocupo em responder, embora concorde. O véu foi um presente dos meus irmãos.
Presente.
Não, um presente não.
É mais um ato de crueldade para me obrigar a usar o véu da minha mãe neste casamento falso.
Ela bufa, vira-se para recolher o vestido, as chaves tilintando em seu cinto. Eu poderia pegá-los. Dominar ela. Essa parte seria fácil. O problema são os homens armados do lado de fora da porta.
Passos barulhentos nas escadas anunciam a aproximação de soldados ao meu quarto na torre.
Uma torre. Eles me trancaram na p***a de uma torre. Meus próprios malditos irmãos.
Pelo que parece, eles estão esperando que eu resista. Eles vão me levar aos chutes e aos gritos se eu fizer isso. Além disso, sei que não devo desperdiçar minha energia com eles. Vou precisar disso depois. Para a noite de núpcias.
Um homem diz alguma coisa, outro ri, pouco antes de eu ouvir um estrondo, como se algo batesse com força contra a parede.
É então que isso acontece. O tiroteio explode logo além do meu quarto. Uma bala atravessa a grossa porta de madeira e quebra o espelho, quebrando meu reflexo em mil pedaços, me jogando para trás contra a parede de pedra.
A mulher com a verruga grita.
Eu me endireito. Tocando a nuca com uma das mãos, de alguma forma ainda consigo segurar os lírios. De repente, a porta é arrombada, batendo contra a parede enquanto homens fortemente armados e em uniforme militar invadem meu quarto. Uma nuvem de fumaça segue atrás deles, penetrando nos meus olhos.
Eles se espalham, uma dúzia deles e não reconheço nenhum. Estes não são homens dos meus irmãos.
A mulher está no chão chorando e soluçando.
Eu apenas fico olhando para a porta enquanto outro conjunto de passos se aproxima, mais silencioso agora. Este não está com pressa. E eu sei no instante em que ele entra na minha linha de visão que ele está no comando.
Ele é quem deve me preocupar. O único que está mascarado.
Ele para dentro da sala, examinando-a, observando cada soldado, cada pedra, cada teia de aranha. E quando profundos olhos verdes pousam em mim, um peso cai na minha barriga, um bloco de cimento de cinquenta quilos.
A mulher com as chaves se levanta, tropeçando nas palavras enquanto caminha em direção a ele. Ele olha para ela como se estivesse irritado, e ela não vai longe.
Um eco de balas a desliga, respingando sangue como tinta em meu pescoço e em meu rosto. Os tiros a colocaram de volta no chão.
Porra.
Eu não olho. Não preciso saber que ela está morta.
Os olhos do homem voltam para os meus. Eles estreitam. E quando ele dá um passo em minha direção, eu recuo, derrubando a cadeira atrás de mim no chão, entrando em pânico.
Viro-me para correr, mas vejo uma dúzia de pares de olhos olhando para mim. O intruso mascarado, o maior de todos, bloqueia a única saída. Não consigo nem pular da janela. O suicídio nunca foi uma opção, não para meus irmãos. Eles precisavam de mim.
Mas algo deu errado.
E antes que eu possa decidir o que fazer, antes que eu possa decidir tentar atacá-lo, arriscar que as balas me derrubem como fizeram com a mulher no chão, ele segura meu pulso na mão direita e o aperta.
Minha mão se abre. As flores se espalham pelo chão. Eu os observo e depois vejo ele levar minha mão ao rosto dele. Seu polegar chega ao meu dedo anelar, onde o diamante horrível reflete o sol minguante. Por um momento acho que ele vai quebrar meu dedo. Mas ele torce e força. É apertado, mas ele consegue. Ele guarda o anel no bolso e depois olha para o meu dedo novamente.
Eu engulo em seco.
Ele inclina a cabeça para o lado, uma mão ainda presa em meu pulso. Ele me gira.
Eu grito quando ele me puxa para ele, seu corpo é uma parede sólida nas minhas costas.
Ele solta meu pulso e coloca o braço sob meus s***s. Com a outra, ele tira o véu do meu pescoço, a mão áspera contra minha pele, os dedos cavando, machucando. Acho que ele vai quebrar meu pescoço. Um torção rápido é tudo o que seria necessário. Ele é um maldito gigante.
Mas ele não faz isso.
Em vez disso, no momento em que viro meu rosto para o dele, ele aperta e instantaneamente, meus joelhos cederam. Meus braços caem inutilmente ao meu lado. Ele muda seu aperto e quando eu escorrego, ele me levanta, me puxando por cima do ombro, virando a sala de cabeça para baixo antes que fique escuro.