Melissa Ferraz
Eu não queria voltar pra casa.
A simples ideia de atravessar a porta daquele apartamento me embrulhava o estômago. O sofá onde a gente ria até tarde. A mesa onde ele segurava minha mão como se eu fosse a única mulher do mundo. A cama onde eu tinha acreditado em promessas sussurradas no escuro.
Agora tudo aquilo parecia contaminado.
— Liz… — minha voz saiu baixa, quase engolida pelo som distante do trânsito. Eu encarava a rua pela janela do carro, mas não enxergava nada de verdade. — Você pode me levar até o apartamento do Gabriel?
Ela não perguntou o motivo. Não perguntou o que tinha acontecido. Não perguntou se eu tinha certeza.
Só assentiu.
— Claro.
Ela me entregou o celular e eu digitei o endereço com os dedos trêmulos. Quando o carro voltou a andar, o silêncio se instalou entre nós. Não era um silêncio desconfortável. Era um silêncio de respeito. De quem entende que qualquer palavra errada pode quebrar o pouco controle que restou.
A cidade passava borrada do lado de fora, luzes se misturando como se o mundo estivesse derretendo. Mas o verdadeiro caos estava dentro de mim.
Minha cabeça repetia as cenas como um castigo.
O beijo.
A mão dele na cintura dela.
O sorriso… aquele sorriso que morreu no instante em que ele me viu parada ali.
O anel ainda pesado no meu dedo.
Pesado demais.
Ontem ele estava ajoelhado na minha frente, num restaurante cheio, dizendo que me amava, que eu era a mulher da vida dele.
Hoje ele estava com a boca colada na de outra.
Quando o prédio do meu irmão surgiu na esquina, senti um alívio estranho. Quase infantil. Como se aquele lugar fosse o único ponto seguro que ainda existia no mundo.
Liz estacionou e desligou o carro. O motor silenciou, mas meu coração continuava acelerado.
Ela me olhou com cuidado.
— Quer que eu suba?
— Não precisa — respondi rápido demais, quase atropelando as palavras. — Já é tarde… você fez demais por mim hoje.
Ela franziu o cenho. Liz me conhecia o suficiente para perceber quando eu estava fingindo força.
— Melissa… — sua voz ficou mais firme. — Eu não vou te deixar sozinha agora.
Engoli em seco. Não discuti. Eu não tinha energia para bancar a forte.
Saímos do carro juntas.
O hall do prédio estava silencioso demais. O som dos nossos passos ecoava no mármore frio. Entramos no elevador, e cada andar que o visor marcava parecia aumentar o peso no meu peito.
Um.
Dois.
Três.
Quando as portas se abriram, minhas pernas estavam trêmulas. Caminhei até a porta do Gabriel como se estivesse atravessando um campo minado. Toquei a campainha.
Nada.
Toquei de novo.
— Ele deve estar dormindo — Liz murmurou.
Toquei uma terceira vez, mais forte, já sentindo a visão embaçar. Se ele não estivesse ali… eu não sabia para onde iria.
Alguns segundos depois, ouvi passos apressados.
A fechadura girou.
E a porta se abriu.
Gabriel apareceu… de cueca.
Meu cérebro demorou alguns segundos para processar a cena. O cabelo bagunçado. O olhar perdido. O corpo ainda marcado pelo travesseiro.
Liz ficou completamente vermelha e desviou o olhar na mesma hora.
Eu, por outro lado, não pensei.
Só senti.
— Gabriel… — meu nome dele saiu quebrado, falho.
Eu avancei.
Me joguei nos braços do meu irmão e desabei.
O choro veio bruto. Alto. Desesperado. Como se tudo o que eu tivesse segurado naquela noite finalmente tivesse encontrado um lugar seguro para cair. Meu corpo tremia. Meus dedos se agarraram às costas dele como se eu tivesse medo de afundar.
— Ei, ei, ei… — ele me envolveu imediatamente, apertando forte. A voz dele perdeu qualquer traço de sono. — Mel, o que aconteceu? Pelo amor de Deus…
Foi então que percebi.
Havia uma mulher atrás dele.
Linda. Cabelo impecável, maquiagem suave, vestida com uma camisa dele que cobria só até a metade das coxas.
Ela segurava a própria bolsa contra o peito, claramente desconfortável com a cena.
Eu olhei para ela.
E não fui com a cara dela.
Ciúmes?
Com certeza.
Ridículo? Talvez.
Mas Gabriel era meu. Meu irmão. Meu porto seguro. E naquele momento, qualquer pessoa ali parecia uma invasora.
Ele seguiu meu olhar e soltou um xingamento baixo.
— Droga…
Respirou fundo.
— Bia, eu preciso que você vá embora agora.
— O quê? — ela arregalou os olhos.
— Agora — repetiu, firme. Sem espaço para discussão. — Depois a gente conversa.
O clima ficou pesado. Ela entrou no quarto, saiu minutos depois já vestida com as próprias roupas, lançou um último olhar curioso — quase avaliador — na minha direção e passou por nós em silêncio.
A porta se fechou com força.
O apartamento ficou pequeno demais.
— Liz… — Gabriel disse, ainda me segurando. — Desculpa por isso.
— Imagina — ela respondeu rápido, desconcertada. — Eu… acho melhor eu ir.
Eu me afastei um pouco, limpando o rosto com as mãos.
— Não vai — falei, quase implorando. — Pelo menos não a pé.
Ela respirou fundo.
— Mel, eu vou com o seu carro. Você fica aqui, tá? Amanhã eu venho te buscar ou te ligo cedo.
Assenti. Não tinha forças para discutir.
Ela me abraçou forte. Demorado.
— Você não tá sozinha — sussurrou no meu ouvido.
E aquela frase quase me quebrou de novo.
Quando a porta se fechou atrás dela, o silêncio ficou diferente. Mais íntimo. Mais cru.
Gabriel me conduziu até o sofá.
— Senta aqui. Eu já volto.
Ele desapareceu no quarto e voltou minutos depois vestido, camiseta preta e calça de moletom. O cabelo ainda bagunçado, mas o olhar completamente desperto.
Não era mais o homem tranquilo de antes.
Era meu irmão.
Alerta. Tenso. Pronto para guerra.
Ele se sentou à minha frente.
— Agora me conta — disse, apoiando os cotovelos nos joelhos. — O que aconteceu?
Respirei fundo.
Olhei para minhas mãos.
Para o anel brilhando no meu dedo como uma piada c***l.
— O Hugo… — minha voz falhou. — Ele me pediu em casamento ontem.
Gabriel congelou.
O rosto dele ficou vazio por um segundo.
— O quê?
— Ontem — repeti, sentindo o peito apertar. — No restaurante. Ele ajoelhou. Disse que me amava. Que queria construir uma vida comigo. Falou dos detalhes do casamento … de casa.
Minha visão ficou turva.
— E hoje…
Engoli em seco.
— Hoje eu vi ele na balada. Com outra mulher. Beijando. Rindo. Como se eu não existisse.
O silêncio durou um segundo.
Dois.
Três.
Então Gabriel se levantou num salto.
— Filho da p**a!
Ele começou a andar de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos, respirando pesado.
— Eu vou matar esse desgraçado!
— Gabriel…
— Eu sempre soube! — ele explodiu. — Sempre achei ele estranho! Distante! Cheio de desculpa i****a! E ainda teve coragem de te pedir em casamento?!
— Ele me fez acreditar que eu estava exagerando — falei entre soluços. — Que era insegurança minha… que eu precisava confiar mais…
Gabriel parou na minha frente.
Se agachou.
Segurou meu rosto com cuidado, como se eu fosse de vidro.
— Olha pra mim, Mel.
Eu levantei os olhos.
— Você não é louca. Você não é exagerada. Você não é insegura demais. — A voz dele estava firme, mas os olhos brilhavam de raiva contida. — Você foi enganada.
As palavras dele quebraram algo dentro de mim.
Ele me puxou para um abraço forte. Protetor. Quente.
Do tipo que só irmão mais velho sabe dar.
— Se aquele homem aparecer na minha frente… — ele murmurou, a voz baixa e perigosa — eu não respondo por mim.
Enterrei o rosto no ombro dele.
E ali, nos braços do meu irmão, pela primeira vez desde que tudo desmoronou… eu consegui respirar.
O coração ainda estava quebrado.
Mas eu não estava mais sozinha.
E isso, naquela noite, era o suficiente para me manter de pé.