Gustavo Pierone
Eu estava rindo.
Era isso o que mais me irritava depois.
A música alta, o corpo quente demais, a Chloe colada em mim, falando qualquer coisa no meu ouvido enquanto eu fingia estar inteiro ali. Fingindo que aquela noite não era só mais uma tentativa de esquecer coisas que eu não queria sentir.
Foi quando eu vi.
Melissa passou por mim como um furacão.
Nem me olhou.
O vestido preto, os olhos vermelhos, o rosto completamente desfeito. Ela atravessou a pista correndo, empurrando pessoas, como se estivesse fugindo de algo — ou de alguém.
Meu peito apertou de um jeito estranho, imediato.
— Gustavo? — Chloe chamou, confusa.
Mas eu já não estava mais ali.
Vi a amiga de Melissa correndo logo atrás dela, desesperada, chamando o nome da amiga. E, alguns segundos depois, um cara que eu não conhecia saiu no mesmo ritmo, expressão em pânico, abrindo caminho como quem tenta alcançar algo que já está se perdendo.
Alguma coisa dentro de mim gritou.
— Espera aqui — falei para a Chloe, já me afastando.
— O quê? — ela reclamou. — Gustavo, aonde você vai?
— Eu já volto.
Mentira.
Eu fui atrás. E Chloe também.
A boate ficou para trás rápido demais, a música abafada, as luzes morrendo à medida que eu empurrava a porta e sentia o ar frio da rua bater no rosto.
Foi ali que eu vi tudo.
Melissa estava parada, chorando como eu nunca tinha visto alguém chorar. Não era um choro bonito, contido. Era dor pura, crua, rasgando de dentro pra fora.
Liz tentava segurá-la.
E o cara.
O filho da p**a estava na frente dela.
Falando. Gesticulando. Tentando tocar.
Quando os olhos de Melissa se levantaram e encontraram os meus por um segundo, alguma coisa em mim quebrou de vez.
Não foi ciúme.
Foi pior.
Foi ver alguém que você…
que você sente, mesmo sem admitir, sendo destruída ali, na sua frente.
O ar faltou.
Meu coração pareceu se despedaçar em partes irregulares, como vidro estourando no chão. Eu entendi tudo sem que ninguém precisasse dizer uma palavra.
Era ele.
O noivo.
O cara que deveria estar protegendo, cuidando, amando. Não sendo o motivo daquele desespero.
Fiquei parado alguns passos atrás, incapaz de me mover, enquanto ela gritava coisas que me deixava cada vez mais puto de raiva. Só via o rosto dela se contorcendo, as mãos tremendo, o corpo pequeno demais pra aguentar tanta coisa.
Quando ela entrou no carro, foi como se o mundo tivesse desacelerado.
Câmera lenta.
Liz tirando as chaves da mão dela.
A porta do passageiro se fechando.
Melissa encostando a testa no vidro, derrotada.
Eu dei um passo à frente sem perceber.
O carro arrancou.
E levou algo comigo.
O silêncio que ficou depois foi ensurdecedor.
Foi aí que eu virei.
— Ei! — chamei, a voz saindo mais baixa do que eu gostaria, mas carregada de algo perigoso.
O cara se virou.
— Você é quem? — ele perguntou, defensivo.
Cheguei mais perto.
— Fica longe da Melissa.
Ele riu. Um riso curto, nervoso.
— Desculpa? — ele cruzou os braços. — Você não sabe do que tá falando. Ela é minha noiva. Quem você pensa que é?
Cheguei tão perto que ele precisou erguer o queixo pra me encarar.
— Eu sou o seu pior pesadelo.
O sorriso dele morreu.
— Não se mete no que não é da sua conta — ele rosnou.
— A partir do momento em que você fez ela chorar daquele jeito — respondi, sentindo o sangue ferver — virou, sim.
Chloe apareceu atrás de mim, confusa.
— Gustavo, vamos embora…
Eu nem olhei.
— Se você chegar perto dela de novo — continuei, com a voz firme — eu juro que você vai se arrepender.
Por um segundo, pensei que ele fosse avançar. Mas ele não fez nada. Só ficou ali, parado, respirando pesado.
Me afastei.
Entrei no carro sem saber pra onde ir.
Sem destino.
Sem música.
Sem ninguém.
A boate, as pessoas, a Chloe, tudo ficou para trás.
Enquanto eu dirigia pelas ruas vazias, só uma imagem se repetia na minha cabeça:
os olhos da Melissa.
Quebrados.
Meu coração se apertou, eu sei que não deveria me envolver, mas eu já estava tão envolvido, aquela pequena feiticeira me laçou. E sem querer, me pego rindo. Quantos dias faz que eu a conheci? Não tem nenhuma semana, e já estou assim, com certeza é feitiço.
E mudando totalmente o rumo dos meus pensamentos, eu fiz uma rápida análise na minha vida, um homem sério, que depois de uma enorme decepção amorosa se fechou para qualquer coisa que envolvesse sentimentos, eu já sofri tanto, que me vi no fundo do poço, e vendo a Melissa passar por isso, realmente me dói.
Eu vejo vida em seus olhos, eu vejo um brilho de alguém que tem o coração puro, alguém que traz alegria para tudo a sua volta. E por mais que pareça cedo demais, parece que já a conheço a tempos, meus dias tem se resumido a isso desde quando a vi no shopping pela primeira vez. Eu sinto que é ela.