Capítulo 9

1706 Palavras
Gustavo Pierone Eu já estava de pé, pronto para ir embora, quando o restaurante inteiro pareceu prender a respiração. Foi rápido. Um movimento calculado, uma cadeira sendo afastada, um homem ajoelhando-se diante dela. Melissa. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Sentei de novo, como se minhas pernas tivessem desistido de mim. Eu não devia assistir, eu não tinha esse direito. Mas assisti. Vi o sorriso dela — não exagerado, não teatral. Um sorriso real, desses que nascem antes mesmo da gente perceber. O tipo de sorriso que não se ensaia. O tipo que… machuca quem observa de fora. Quando a caixinha se abriu e o anel refletiu a luz do restaurante, senti algo estranho, quase físico, atravessar meu peito. Um aperto seco, absurdo, injustificável. Eu não a conhecia. Não de verdade. Algumas palavras trocadas, olhares, impressões. Nada que justificasse aquilo. E ainda assim, ali estava eu, com o coração se comportando como se tivesse perdido algo que nunca foi seu. “i****a”, pensei. Repeti isso várias vezes. Me martelando internamente por sentir qualquer coisa. Por permitir que alguém cruzasse meus pensamentos daquele jeito. Por criar versões dela na minha cabeça, histórias, possibilidades que nunca existiram. Quando ela se levantou, ainda meio atordoada, em direção ao banheiro, meu instinto gritou para que eu ficasse onde estava. Para que eu fosse embora. Para que eu fosse adulto. Mas eu nunca fui muito bom em obedecer instintos quando eles brigam entre si. Segui-a. O corredor era estreito, m*l iluminado, e eu juro que tentei diminuir o passo. Juro. Mas ela virou a esquina no mesmo instante em que eu avancei, e nós trombamos. De leve. Mas o suficiente. — Opa — falei no reflexo, segurando o braço dela por um segundo a mais do que o necessário. Ela levantou o rosto, surpresa… e então sorriu. — Tudo bem. Houve um silêncio estranho. Denso. Carregado. Aquele tipo de silêncio que não constrange — provoca. Eu soltei o braço dela, pigarreei e disse, meio sem pensar: — Foi m*l… pelo trombão. Ela riu, um riso baixo, quase cúmplice. E foi aí que eu mudei de ideia. — Na real… — corrigi, olhando diretamente para ela — foi ótimo trombar com você. Os olhos dela vacilaram por um segundo. E naquele exato momento eu soube: a química estava ali, pulsando entre nós de um jeito absurdo, indecente, completamente fora de hora. Meu olhar desceu, quase involuntário, até a mão dela. O anel. Brilhando. — Parabéns — falei, sincero, apontando com a cabeça. — Ela olhou para a própria mão como se ainda estivesse se acostumando com a ideia. Havia alegria ali… mas também algo indefinido. Algo que eu não deveria notar — mas notei. — Obrigada, acabou de acontecer. — respondeu, baixinho. Estávamos próximos demais agora. Perto o suficiente para eu sentir o perfume dela. Perto o suficiente para saber que aquilo era uma péssima ideia. Mesmo assim, não recuei. Inclinei-me apenas o necessário e deixei um beijo rápido, contido, no canto da boca dela. Não foi um beijo completo. Não atravessou a linha — mas chegou perigosamente perto. — Cuida de você, Melissa — murmurei. Afastei-me antes que qualquer um de nós tivesse coragem de dizer mais alguma coisa. Voltei para a mesa com o coração descompassado, como se tivesse feito algo proibido e inevitável ao mesmo tempo. Quando finalmente saí do restaurante, ela ainda estava comigo — no jeito como o sorriso dela tinha vacilado, na forma como meus pensamentos insistiam em voltar para aquele corredor estreito. Horas depois, já em casa, lutei contra a ideia. Andei de um lado para o outro, tentei dormir, tentei racionalizar. Ela estava noiva. Fim da linha. Mas, mesmo assim, peguei o telefone. Meu melhor amigo atendeu com a tranquilidade de sempre. E eu fui direto, como quem arranca um curativo. — Qual é o número da Melissa? Silêncio. Um segundo. Dois. Então a gargalhada. — Você tá brincando comigo, né? Expliquei por alto. Não tudo. Nunca tudo. Ele riu de novo, me zoou, disse que eu tinha péssimo timing, que eu escolhia as mulheres mais complicadas possíveis. E então soltou, ainda rindo: — Olha… se depender de mim, eu adoraria te ter como cunhado. Revirei os olhos, mesmo sabendo que ele não podia ver. Talvez eu fosse mesmo um i****a. Logo eu, que fujo de relacionamentos, não consigo lidar com coisas de romance, esse não sou eu, esse clichê todo não combina comigo. Mandei mensagem para ela, só precisava saber se ela chegou bem em casa, mesmo sabendo que seria praticamente impossível ela me responder, afinal ela acabou de ficar noiva, deve estar comemorando. E só de pensar nisso, sinto o ar faltar nos pulmões. O que está acontecendo com você Gustavo? Isso não pode acontecer, não vou me permitir passar por tudo outra vez, não mesmo. A surpresa me pegou quando recebi a mensagem dela de volta, quase que instantâneo. Me surpreendeu! Como assim ela não estava com seu noivo? Isso sim me pegou. Ou ela estava me respondendo enquanto estava com ele? p***a Gustavo!! Se recompõe! Logo fui para o chuveiro tomar um banho gelado, precisava por meus pensamentos em ordem, precisava agir com racionalidade. Me preparei para dormir, mas nada do sono vir, Melissa veio como um tornado nos meus pensamentos, seus olhos verdes como esmeraldas, sua boca carnuda e tão apetitosa, parecia que me chamava... e no fim trocamos apenas algumas mensagens rápidas e pronto. O despertador tocou às seis em ponto, e eu o desliguei antes do segundo toque. Não foi difícil acordar — eu praticamente não dormi. O banho gelado da noite anterior não tinha adiantado nada. Melissa ainda estava ali. No fundo da mente. Nos cantos do pensamento. No espaço exato onde eu costumava guardar silêncio. Enquanto vestia a camisa branca e ajeitava o relógio no pulso, tentei repetir para mim mesmo tudo o que sempre funcionou: Controle. Distância. Racionalidade. Mulheres comprometidas não entram na minha vida. Mulheres que bagunçam demais, menos ainda. E ainda assim… bastaram alguns minutos de conversa. Um corredor estreito. Um beijo que não foi beijo. E pronto. Tudo fora do lugar. No caminho até o consultório, dirigi no automático. Os semáforos mudavam, as pessoas atravessavam a rua, a cidade seguia viva — e eu preso à imagem dela ajeitando o cabelo antes de esbarrar em mim. Àquele segundo exato em que nossos corpos se reconheceram antes mesmo da razão chegar. Estacionei o carro e fiquei ali, com as mãos apoiadas no volante, respirando fundo. — Não — falei sozinho. — Isso não é você. Melissa era noiva. Tinha uma vida. Um futuro desenhado com outro homem. E eu… eu era só um erro em potencial no meio do caminho dela. Subi, comecei os atendimentos, sorri no momento certo, fiz perguntas, ouvi histórias. Por fora, tudo funcionava. Por dentro, algo estava perigosamente atento ao celular no bolso do jaleco. Não era expectativa. Era receio. Receio de uma nova mensagem. E, ao mesmo tempo, medo de que ela não viesse. Quando finalmente tive alguns minutos sozinho, encostei na bancada do consultório e fechei os olhos. Eu não queria nada. Não queria confusão. Não queria romance. Nunca quis. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não conseguia ignorar uma sensação simples e brutal: Melissa não tinha sido apenas uma coincidência. E isso… Isso me colocava numa linha que eu jurava nunca mais cruzar. A batida na porta veio forte demais para ser educada. — Entra — falei, sem muita paciência. Gabriel abriu a porta com um sorriso largo demais para ser inocente. Já entrou rindo, apoiando o ombro no batente, como se estivesse prestes a assistir a um espetáculo. — Então… — começou, cruzando os braços — fiquei sabendo que você resolveu atacar de cupido emocional ontem à noite. Ergui o olhar devagar. — Se veio aqui pra encher o saco, escolheu o horário errado. — Ah, não — ele entrou de vez na sala, puxando a cadeira e sentando ao contrário, com os braços apoiados no encosto. — Eu vim reforçar o convite da balada de hoje e rir da sua cara. Duas coisas muito importantes. — Não vou sair hoje. — Vai sim — ele rebateu, rápido. — Até porque você precisa urgentemente esquecer o fato de que pediu o número da minha irmã no meio da madrugada. Meu maxilar travou. — Você anda falando demais. Gabriel abriu um sorriso ainda maior. — Gustavo… — inclinou o corpo para frente — você tem noção do quão surreal foi receber essa ligação? “Me passa o número da Melissa.” Assim. Do nada. Às duas da manhã. — Eu só quis saber se ela tinha chegado bem. — Claro — ele riu. — Sempre começa assim. Você nunca pede número “só por pedir”. — Ela ficou noiva ontem. O riso de Gabriel morreu no mesmo instante. — …Como é que é? — Pedido no restaurante. Anel. Tudo — respondi, seco. Ele ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse recalculando toda a situação. — Não… não, isso não faz sentido — balançou a cabeça. — A Melissa? Noiva? Desde quando? — Desde ontem à noite. — p***a… — ele se recostou na cadeira, visivelmente chocado. — Eu não acredito que minha irmã vai se casar com aquele o****o!! Sua voz ficou um tanto alterada, seu rosto vermelho, parecia que meu amigo iria explodir. — Calma aí cara. — Eu preciso conversar com a minha irmã, preciso saber se realmente é isso que ela quer. — Não acha que se ela aceitou é porque quer?- Pergunto em um tom sarcástico mesmo, parecia até piada — Eu sei, mas mesmo assim vou verificar isso. Um silêncio chato se instalou na sala, até Gabriel quebrá-lo novamente. — Minha irmã não é qualquer mulher. E você também não é qualquer cara. Já te disse que adoraria tê-lo como cunhado. — Não viaja irmão, Melissa realmente mexeu comigo, mas isso está totalmente fora de cogitação, esquece essa história, esquece esse assunto, bola pra frente. Vamos a essa balada — dou um longo suspiro até continuar — te encontro lá as 22h Ele me olha, mas não diz nada. Vai até a porta e diz "Combinado" e simplesmente some da minha vista.
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