Melissa Ferraz
No instante em que Gustavo desapareceu no final do corredor, eu fiquei parada ali, segurando a maçaneta da porta do banheiro… mas incapaz de entrar.
Eu tinha esquecido tudo. Tudo!
Até o anel brilhando na minha mão.
Até o pedido emocionado — ou o que deveria ter sido emocionado — de Hugo.
Até o jantar elegante, a vela acesa, as pessoas sorrindo.
O mundo inteiro se dissolveu, restando apenas a lembrança do olhar de Gustavo queimando na minha pele.
Meu peito parecia pequeno demais para comportar a explosão de sensações que ele deixou dentro de mim. Eu nunca — NUNCA — tinha sentido aquilo com Hugo. Um arrepio que começava na base da coluna e subia, um impulso irracional de me aproximar mais, de querer entender por que aquele homem, praticamente um estranho, conseguia mexer comigo de um jeito tão visceral.
O toque dele nos meus dedos ainda pulsava.
O perfume dele ainda envolvia meu pescoço.
E aquele beijo no canto da boca… Deus. Era como uma marca invisível, queimando.
Respirei fundo, tentando recuperar a consciência do meu próprio corpo. Ouvia minha respiração irregular, minhas pernas ainda frágeis.
— Noiva… — murmurei para mim mesma, como se essa palavra pudesse me ancorar.
Mas, por alguns longos segundos, essa palavra não me dizia absolutamente nada.
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Quando finalmente voltei para a mesa, Hugo levantou os olhos para mim. Seu olhar percorreu meu rosto, minha postura, como se sentisse que algo estava… deslocado.
— Você demorou — comentou, franzindo a testa. — Tá tudo bem?
Eu engoli em seco, tentando evitar que minha voz tremesse.
— Só… passei m*l por um instante. Acho que o vinho subiu um pouco.
Era uma desculpa frágil. Transparentemente frágil.
Mas Hugo não insistiu.
Claro que não.
Ele relaxou contra a cadeira, como se já tivesse cumprido sua parte naquela noite.
— Certo. Senta. A sobremesa já está chegando — disse, voltando o olhar para o celular, como se tudo estivesse no devido lugar.
E, de certa forma, estava.
Pelo menos para ele.
Para mim… era como se eu estivesse vivendo uma vida em cima de outra vida, e acabasse de perceber a rachadura entre elas.
O jantar continuou.
Hugo falou de trabalho.
Fez alguns planos genéricos sobre o casamento — data, lista de convidados, orçamentos.
Eu sorri, concordei, respondi no automático.
Mas, toda vez que minha mente escapava… ela corria direto para Gustavo.
Para o olhar dele se demorando demais nos meus lábios.
Para o arrepio quando ele sussurrou meu nome.
Para a sensação de perder o chão e, ao mesmo tempo, me encontrar inteira pela primeira vez.
Era loucura. Eu sabia.
Mas também era incontornável.
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Quando o jantar terminou, caminhamos até o carro.
Eu esperava — ou talvez desejasse — que Hugo viesse comigo para casa. Que, pelo menos naquela noite, ele quisesse estar ao meu lado, marcar aquele momento que deveria ser tão importante.
Durante todo o caminho, fiquei esperando que ele sugerisse isso.
Uma noite juntos.
Um carinho. Algo. Qualquer coisa que envolvesse nós dois juntos.
Mas quando estacionou em frente ao meu prédio, ele desligou o carro e soltou um suspiro cansado demais para a ocasião.
— Amor… hoje eu não vou poder ficar — disse, sem olhar diretamente para mim. — Amanhã cedo tenho uma reunião pesada. Preciso acordar antes do sol nascer. Melhor eu ir direto pra casa organizar algumas coisas.
Eu senti o gelo escorregar sobre a minha pele.
— Ah… claro — respondi, fingindo naturalidade.
Quando fechei a porta da minha casa, o silêncio pareceu abraçar meu corpo inteiro. O anel no meu dedo brilhava demais — como se quisesse me lembrar a cada segundo do que tinha acontecido naquela noite.
Eu me encostei na porta, respirei fundo e fechei os olhos.
Por alguns instantes — poucos, perigosos, profundos — eu tinha esquecido completamente que estava noiva.
Esqueci do jantar.
Esqueci de Hugo.
Esqueci de tudo.
Porque, na presença de Gustavo, nada mais existia além daquela energia visceral que tomou conta do meu corpo.
Abri os olhos devagar, olhando meu reflexo no espelho da sala.
Algo em mim estava diferente.
Eu me olhava e m*l me reconhecia.
Meus olhos ainda guardavam o brilho que Gustavo despertou.
Meus lábios ainda lembravam o toque quente e proibido dele no canto da boca.
Meu corpo inteiro vibrava como se tivesse sido acordado depois de muito tempo adormecido.
— Noiva… — sussurrei para o espelho, tentando trazer minha mente de volta ao chão.
Mas essa palavra parecia pertencer a outra pessoa.
A uma versão minha que existia antes do corredor do restaurante.
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Sentei na ponta da cama, tentando reorganizar meus pensamentos.
Eu gostava de Hugo. Eu o amava — pelo menos achava que sim. Ele era estável, seguro, um porto.
Só que… nunca havia despertado em mim o que Gustavo despertara em questão de segundos.
Aquele arrepio profundo.
Aquela necessidade inexplicável de ficar perto.
Aquela química absurda que parecia acender partes minhas que eu nem sabia que tinham luz.
E isso… isso me assustava.
Eu não deveria sentir nada assim.
Não naquela noite.
Não daquele jeito.
Balancei a cabeça, como se pudesse espantar o fantasma da sensação.
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Peguei meu celular — quase por impulso.
Nada de Hugo. Ele raramente mandava mensagem quando chegava em casa; dizia que preferia “desligar do mundo” à noite, até porque nos últimos tempos ele mais ficava na minha casa do que na de seus pais, mas nas últimas semanas ele anda tão atarefado com o trabalho, que posar em casa tem sido um evento digamos que, quase raro.
Eu respirei fundo. Tentei não me magoar.
Ele tinha acabado de me pedir em casamento, é verdade… mas era tão ele quanto sempre foi: reservado, prático, com mil responsabilidades.
E eu nunca acreditei que ele pudesse agir de outra forma.
Eu apenas desejava, em silêncio, que ele quisesse ficar comigo naquela noite especial.
Mas não ficou.
“Ele está cansado”, pensei. “Ele tem mesmo muito trabalho.”
E eu acreditei nisso — porque para mim, aquilo era apenas Hugo sendo Hugo.
Um homem comprometido com sua carreira, um pouco alheio a emoções, mas alguém que escolheu construir uma vida comigo.
E eu… deveria estar feliz.
Mas meu coração ainda estava acelerado demais para isso.
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Antes mesmo de eu desbloquear o celular, a tela acendeu com uma notificação.
Um número desconhecido.
Meu estômago virou.
"Chegou bem?"
Meu pulso acelerou tão rápido que doeu.
As pontas dos meus dedos formigaram.
Eu sabia quem era. Mas ainda assim eu lhe perguntaria, eu precisava ter certeza.
Apenas li a mensagem três vezes antes de responder — e mesmo assim, minha voz interna falhava, questionava, temia.
"Quem é?"
A resposta veio quase instantaneamente.
"Tenho certeza que sabe quem é."
Meu corpo inteiro esquentou.
Era como se ele ainda estivesse ali… no corredor… perto demais, olhando demais, queimando demais.
Fechei os olhos, engolindo o ar, porque meu peito não parecia ter espaço suficiente para tudo que eu sentia.
E então veio outra mensagem:
"Não imaginei te encontrar hoje novamente."
Meu coração bateu tão forte que eu tive que sentar novamente.
Era errado.
Era confuso.
Era inesperado.
Mas era real.
Muito real.
E eu não consegui mentir — nem para ele, nem para mim.
"Bom, nem eu. Inclusive foi um prazer conhecer o melhor amigo do meu irmão. Me tira uma dúvida, como conseguiu meu número?"
Enviei.
"Tenho meus contatos"- sua mensagem veio logo em seguida
"Imagino quem são esses contatos"- só podia ser meu irmão, para quem mais ele pediria meu número?
"Imagino que tenha chegado maravilhosamente bem. Tenha uma ótima noite Melissa"
"Boa noite Gustavo"- Foi tudo que consegui dizer, também, não tinha muito o que dizer.