Capítulo 7

1661 Palavras
Melissa Ferraz Quando Hugo estacionou em frente ao restaurante, meu coração deu um pequeno salto. Era o meu favorito — não apenas pela comida, mas pelo jeito como a luz amarelada sempre parecia transformar tudo em cena de filme, com mesas de madeira escura, música baixa e aquele cheiro de massa fresca misturado com vinho tinto. Ele apagou o farol, deu a volta no carro e abriu a porta para mim. Um gesto simples, mas raro vindo dele. Fiquei imóvel por um instante, surpresa, e então coloquei a mão na dele para descer. — Você está… bonita hoje — disse rápido, quase como se estivesse cumprindo um protocolo, mas ainda assim um elogio. Curto. Mas o suficiente para acender algo em mim. Sorri, sentindo um calor suave subir pelo meu peito. A mão dele deslizou para a base das minhas costas, firme e ao mesmo tempo cuidadosa, conduzindo-me até a entrada do restaurante. A cada passo, eu sentia sua palma ali, quente, segura, e meu coração batia em um ritmo diferente, tentando acreditar que talvez — só talvez — aquela noite fosse especial. O maître reconheceu Hugo imediatamente e o levou até a nossa mesa reservada, uma das mais íntimas, perto da janela, com vista para a rua iluminada. Quando sentei, senti que o clima ao nosso redor parecia mais leve, mais… nosso. A dias eu pensava se nosso relacionamento realmente iria pra frente, porque de um jeito ou de outro, parecia que estávamos perdidos no caminho. Talvez eu possa estar encantada com o mínimo que eu mereça. Já me questionei tanto, sobre o comportamento do Hugo, eu sei, eu sinto... Não é mais como no início, tudo está tão diferente, ele sempre vem me decepcionando, mas eu acabo relevando a situação, não sei o que exatamente me prende a isso. Mas, no almoço de hoje, eu resolvi nos dar mais uma chance, talvez dê certo. As coisas vão mudar, eu sinto que sim. Durante o jantar a conversa fluiu com uma facilidade inesperada — nada do peso das reclamações do carro, nada da frustração que ainda latejava em mim. Ele estava mais presente, mais atento, olhando nos meus olhos enquanto falava, segurando minha mão de vez em quando sobre a mesa. Eu sentia meu peito se aquecer sem querer. As velas nas mesas deixavam sombras dançando suavemente pelos rostos ao redor, e o vinho que pedimos trouxe um brilho a mais na minha pele, uma coragem doce que me fazia inclinar o corpo para mais perto dele sempre que ele falava algo que me fazia sorrir. Em determinado momento, Hugo ficou em silêncio, observando meus dedos brincarem com a haste da taça. O olhar dele mudou — ficou mais profundo, como se algo estivesse prestes a acontecer. — Melissa… — ele começou, a voz baixa, quase íntima demais para o ambiente. — Eu estava pensando em como… como você faz tudo ficar mais fácil. Mais leve. Eu o encarei, surpresa. Hugo raramente falava assim. Ele respirou fundo, como se precisasse empurrar o resto das palavras para fora. — Eu sei que às vezes não demonstro direito. Sei que parece que estou sempre em outro lugar… mas você é a parte do meu dia que nunca pesa. A parte que eu sempre quero voltar. Meu coração simplesmente… cedeu. Se entregou. Como se tivesse esperado por essas palavras a vida inteira. Quando percebi, ele já estava se levantando. Eu arregalei os olhos, sentindo o mundo girar devagar ao meu redor. Hugo colocou a mão no bolso do paletó, e meu corpo inteiro congelou. — Hugo…? — minha voz saiu num sussurro frágil. As pessoas nas mesas mais próximas começaram a reparar, mas tudo ficou distante, abafado, como se só existisse ele na minha frente. Ele se ajoelhou. Meu ar desapareceu. Hugo abriu a caixinha com um anel que brilhava mais do que as luzes do restaurante — mas nada, absolutamente nada, brilhava tanto quanto a vulnerabilidade inesperada no olhar dele. — Melissa… — ele disse com aquela voz que eu raramente ouvia, firme e suave ao mesmo tempo. — Você aceita casar comigo? Meu mundo inteiro parou ali. O restaurante, a música, as luzes, tudo se dissolveu na pulsação acelerada do meu coração. — Claro que eu aceito — as palavras escaparam antes mesmo que eu pudesse respirar. Senti meu rosto esquentar, a visão ficando brilhante demais, e o mundo todo se reduziu ao sorriso que finalmente surgiu nos lábios de Hugo. Ele colocou o anel no meu dedo com um cuidado quase cerimonioso, levantou-se e me puxou para um abraço rápido — rápido até demais— mas naquele momento eu não quis pensar. Eu apenas me deixei envolver pela ideia de que meu futuro estava se encaixando. As pessoas ao redor aplaudiram, algumas suspiraram, e nós voltamos à mesa. E… foi isso. Logo depois de bebermos um gole de vinho, Hugo já estava falando sobre um cliente novo e super importante da empresa, como se não tivesse acabado de pedir alguém em casamento. Como se o momento mais importante da minha vida tivesse sido só um intervalo entre uma preocupação e outra dele. Ainda assim, eu sorria. Eu concordava. Eu segurava a mão dele por cima da mesa sempre que conseguia — e, quando ele a soltava para pegar o celular, eu fingia que não me doía. A conversa fluiu… superficial, mas leve. Eu tentava manter viva a chama do momento, enquanto ele parecia simplesmente confortável demais em seguir em frente. Depois de algum tempo, senti a necessidade de respirar um pouco. — Vou ao banheiro, já volto — falei, levantando com um sorriso pequeno. Ele assentiu sem tirar os olhos do cardápio que estava revisando como se fosse um relatório. Caminhei pelo corredor que levava aos banheiros, o coração ainda batendo forte — mas agora por um motivo diferente. Uma mistura estranha de emoção e vazio. Quando cheguei perto da porta, virei o rosto para ajeitar o cabelo… e acabei chocando meu ombro contra algo sólido. Muito sólido. Era como bater numa parede — só que quente. — Opa — uma voz grave, quase rouca, vibrante, deslizou pelo ar antes mesmo de eu levantar os olhos. — Foi m*l… ou melhor, foi ótimo, porque assim eu te encontro de novo. Meu coração errou o compasso. Gustavo. Ele estava ainda mais… tudo. Mais alto do que eu lembrava. Mais largo. A camisa preta marcava o peito e os ombros como se tivesse sido moldada nele. O perfume dele — aquele amadeirado quente — veio antes mesmo que eu respirasse. Quando levantei o rosto, os olhos dele já estavam nos meus… e pararam. Travaram. Como se me olhassem por dentro. — Melissa… — ele disse meu nome com uma lentidão quase perigosa. — Eu estava achando que tinha te visto entrar. Eu senti um arrepio correr pela minha coluna inteira. — Gu… Gustavo? — minha voz falhou, como se eu tivesse esquecido como usar meu próprio corpo. — Você aqui? — Coincidência… ou destino — ele sorriu, inclinando a cabeça, e o corredor inteiro pareceu ficar menor, mais quente, mais apertado. A química entre nós surgiu tão rápido que parecia uma descarga elétrica: um estalo invisível que fez minha pele arrepiar onde o braço dele havia encostado no meu. Ele baixou um pouco o rosto e aproximou — muito mais do que alguém deveria numa conversa casual. O perfume dele envolveu meu pescoço antes que o ar chegasse aos meus pulmões. — Você está… diferente — murmurou, a voz profunda demais. — E linda. Muito mais do que eu lembrava. Aliás, deveria ser crime sair por aí assim, tão perfeita e deslumbrante. Meu joelho quase falhou. — Você… você também — escapei, sem pensar, completamente perdida no sorriso dele. Aquele sorriso largo, de um lado só, que parecia proibido. Os olhos dele, azul como a imensidão do mar, com pequenos reflexos dourados, desceram até minha boca antes de voltar aos meus olhos. E quando voltou… vi algo ali. Reconhecimento. Desejo. Dúvida. Tudo ao mesmo tempo. — Engraçado — ele continuou, num sussurro quente. — Eu achei que aquela sensação no shopping tinha sido coisa da minha cabeça. Mas agora… Ele deu um passo ainda mais perto. Meu coração virou um tambor. — Agora eu tenho certeza. Senti a mão dele roçar a minha — de novo, como se fosse sem querer, mas não era. O toque era quente, firme, e uma onda inteira de eletricidade percorreu meus dedos. — Certeza do quê? — perguntei, a voz quase sem som. Ele aproximou o rosto do meu, muito devagar, como se estivesse esperando que eu recuasse… mas eu não recuei. — Que você mexe comigo de um jeito que ninguém deveria mexer — murmurou ele, a respiração batendo no meu maxilar. Antes que eu pudesse responder, ele inclinou o rosto e deixou um beijo — não na boca, mas perigosamente perto. No canto. Uma provocação. Um convite. Uma promessa. Meu corpo inteiro tremeu. Quando ele se afastou meio passo, ficou olhando para mim como se avaliasse a reação. E então sorriu — aquele sorriso lento que desmonta até lembrança. — Parabéns pelo… anel — disse por fim, com uma pontada irônica, como se tivesse notado tudo desde o momento em que me viu. Meu peito apertou. — É… aconteceu agora — respondi, ainda tentando encontrar minha própria voz. Gustavo inclinou o rosto mais uma vez, dessa vez sem tocar, apenas deixando o perfume dele envolver o meu pescoço. — É, eu vi. Acho que você devia voltar pra mesa… antes que eu te dê outro motivo pra ficar aqui — murmurou. E se afastou devagar, os olhos presos nos meus até o último segundo. Quando ele virou o corredor e desapareceu, eu finalmente soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Minhas pernas estavam fracas. Meu coração, um caos. E quando toquei o canto da minha boca onde o beijo ficou… eu soube. Soube que alguma coisa em mim tinha mudado para sempre.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR