Retomando partes de mim II

4985 Palavras
[...] Eu estava quase pulando no sofá quando mamãe passou pela porta da frente. Ela até tentou subir rapidamente para seu quarto, mas dessa vez eu não deixei entrando na sua frente. – Mamãe, que bom que chegou! – Disse animada. Ela me olhou meio perdida. – Eu preciso ir tomar banho. Com licença. – Pediu tentando passar por mim, mas entrei novamente na sua mente. – Você pode deixar isso para depois. – Me fingi de sem graça. – É que eu gostaria de te pedir uma coisa. Mamãe me olhou surpresa. Isso, ganhei sua atenção para mim. – Se estiver ao meu alcance. Pulei empolgada. – É claro que está. – Quase gritei e me recompus assim que ela me encarou assustada. – Hum... – Pigarreei. – Quer dizer, eu preciso de um favor seu se você aceitar claro. Ela não perguntou simplesmente esperando eu continuar. – Você, poderia ir comigo caçar? Mamãe piscou varias vezes os olhos mostrando sua completa confusão. – O que? – É... sabe, faz dias que eu não me alimento e pelo visto você também não. – Expliquei encarando seus olhos escuros pela sede. – Sofi, eu não sei se eu sou a pessoa indicada para ir com você. – Mas é claro que é e além do mais todos estão ocupados fazendo algo e eu não quero caçar sozinha. – Fiz cara de choro. – Eu até iria com você, mas... – Ótimo! Então vamos. – Peguei-a pela mão e a puxei em direção à saída da casa. – Sofia, para! – Mamãe pediu, mas fingi nem escutar. – Sofi... Para! – Ela elevou um pouco mais a voz se soltando de mim. Encarei-a. – O que foi? – Perguntei. – Eu não posso ir com você. – E por que não? Ela revirou os olhos. – Será que é por que eu não me alimento igual a você? – Ah isso? – Dei como o assunto por desinteressante. – Não tem nada haver. – Abanei com a mão. – Eu só não quero ficar sozinha. – Disse a mais pura verdade olhando dentro dos seus olhos. Mamãe ficou uns segundos em silêncio somente me observando. Será que ela ia aceitar a ir comigo? E como se tivesse lido minha mente, no mesmo instante respondeu. – Tudo bem! – Eu quase pulei vitoriosa, mas me controlei no último instante. – Bom, então vamos? – Dessa vez quando a arrastei para o lado de fora, ela não me impediu permitindo ser guiada por mim. O tempo estava nublado como de costume por conta da neve que caia, dando a impressão de ser mais tarde do que aparentava ser. Porém ainda estávamos na metade do dia. Ao entrarmos na floresta corremos por ela em nossa velocidade normal. Eu enxergaria só branco se não fosse pelos troncos das árvores ou o verde das suas folhas parcialmente cobertas pela neve. Era gostoso correr na neve quando descalço, pois seus pés afundavam na neve fofa. Do mesmo jeito que era gostoso afundar os pés nas areias do mar. Fechei os olhos e ergui os braços maravilhada apreciando a neve que caia do céu. Assim que os abri novamente senti o olhar de mamãe sobre mim, mas fingi não perceber. Eu não podia estragar nada. Continuei a correndo com ela em silêncio por longos minutos. Nós tínhamos nos afastado bem de Vancouver, então não tinha como colocar os Jauregui em suspeita. A invés de ir mais para dentro da floresta eu fui em direção a cidade. Assim que chegamos parei na ponta do penhasco que tinha a vista para a cidade. Mamãe parou ao meu lado franzindo o cenho. – Por que paramos? – Perguntou. – Escuto ursos mais a oeste daqui! – É porque não vamos caçar urso. – Falei olhando para as luzes da cidade iluminada abaixo de nós. Quando dei um passo para frente, mamãe me impediu segurando meu pulso. – O que está fazendo? – Indo caçar, não está vendo? – Falei apontando para os humanos que andavam pela rua. – Certo, mas sua caçada está para lá. – Mamãe apontou para a nossa direita. – Não. Está para lá. - Insisti virando para pular o penhasco, mas isso não aconteceu porque mamãe me puxou com tudo virando em sua direção. – O que está acontecendo aqui? – Questionou irritada. – Você não se alimenta de humanos! – A partir de agora eu me alimento. – Puxei meu braço se soltando dela. Mamãe fechou os olhos e provavelmente contando até 10, antes de abri-los novamente. – Olha Sofi, não vejo problema algum me alimentar de animal, então vamos dar a meia volta e ir atrás daqueles ursos. – Não! Nós não vamos, primeiro porque você não consegue se alimentar de animal. Seu corpo rejeita qualquer tipo de sangue que não seja de humano. E, segundo porque eu não estou fazendo isso por você, mas por mim! Falei sustentando seu olhar, parte do que eu disse era verdade, mas eu não estava fazendo só por mim, mas por ela também para nos aproximarmos novamente e ser como éramos antes. Mamãe abriu e fechou a boca varias vezes, antes de dizer: – Eu não posso me alimentar como você? – Ela sussurrou parecendo chateada. Me senti m*l por ter falado isso para ela. – Não, mas olha você nunca se importou em se alimentar de humano, só uma vez, mas era porque eu era humana e bebê. E você não queria se arriscar comigo por perto, ai você tentou sangue animal só que não deu certo... – Parei de falar eu normalmente já tinha uma boca grande, porém quando eu ficava nervosa ela ficava maior ainda. Mamãe não disse nada, apenas olhou para frente e se manteve quieta enquanto íamos em direção a cidade. Será que a magoei? Droga! É melhor eu me desculpar. – Mamãe, eu... – Shiii. – Ela me interrompeu? – O que? – Guinchei. – Escute. - Pediu. Agucei meus sentidos e escutei vozes de homem algumas quadras daqui. Não acredito eu aqui preocupada, achando que magoei mamãe e ela me ignora pra prestar atenção na bagunça dos humanos, e espera... É o que estou pensando? Encarei mamãe que fitava a direção onde os humanos estavam. – Vamos! – Ela disse dando um passo para frente. – Espera. – Fiz o mesmo movimento que ela fez anterior comigo: puxei-a pelo braço virando-a de frente para mim. – Vamos mesmo pegar aqueles humanos? Ela me olhou confusa. – Não é o que você queria? – Sim, mas eu achei que teria que te convencer. Mamãe revirou os olhos. – Não vou te proibir de fazer o que quer. Arqueei as sobrancelhas, não pelo que disse, mas pela conversa amistosa que estávamos tendo, apesar de alguns empecilhos estava quase como antigamente, só faltava as conversas irônicas e os sorrisos debochados ai sim seria igualzinho ao passado. – Ok. Então vamos. – Falei empolgada. Eu corri na frente sendo seguida pela mamãe. Ao chegar deparei com uma cena detestável. 5 caras tentava abusar de uma menina que estava basicamente desmaiada no chão. Sua respiração era fraca denunciando o quão perto da morte que estava. Pois é, eles serão a entrada do cardápio variado que está por vir. Só de pensar assim já sinto minha barriga roncar. É tantos anos de espera. Aii aii. Suspirei sonhadora. Olhei para mamãe que fitava curiosa. – O que foi? – Questionei. – Nada. – Sei. – Estreitei os olhos. – Você não me engana. Mamãe abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida por um daqueles homens. – Hey, o que as duas gracinhas estão fazendo ai? Nós estávamos na parte mais escura do beco. Apesar de ainda ser dia eles não conseguiam nos enxergar claramente, porque estávamos nas sombras. – Não sejam tímidas bonecas, venham aqui pro papai. – Gritou outro homem rindo, sendo acompanhados pelos outros. – Pronta? - Perguntou em sussurro. – Pronta mais do que nunca. Mamãe deu um passo para o lado permitindo que eu fosse a primeira a sair. Caminhei a passos lentos onde as sombras do prédios não me cobriria mais e as nuvens me protegeria do sol. Mamãe foi me acompanhando logo atrás. Assim que surgimos nas suas vistas, suas reações foram a mesma que todos humanos faziam. Ficaram boquiabertos, parecendo entrar num estado de choque. Por longos segundos, eles nos encararam abismados. Uns piscavam os olhos varias vezes e outros esfregavam as mãos neles para ter certeza o que viam era real. Eu sabia que tal reação era por causa da beleza da mamãe, mas nunca me senti m*l ou inveja dela, pelo contrario só orgulho, admiração e repeito. Eu penso assim: Se ela é linda, com certeza eu devo ter herdado alguma beleza da parte dela. – p**a merda, olha a sorte grande que tiramos. – Essa foi a primeira reação deles. – Nunca vi mulheres mais gostosa. Revirei os olhos. – Vocês não tem vergonha não? – Questionei colocando as mãos na minha cintura e estreitando os olhos. – Não é vergonha nenhuma te achar gostosinha. – Idiotas. Não é disso que estou falando, me achar bonita é um elogio, obvio que nunca ia reclamar. – Revirei os olhos. – Estou falando do que fizeram com a garota. Os homens se olharam entre si e caíram na gargalhada. – Está falando disso? – Apontou para a menina quase morta no chão. – Não precisa ficar com ciúmes, não bonequinha. Daremos atenção somente para você e sua amiga. – Pode ter certeza que eu fico com a morena. – Sussurrou um homem mais atrás para outro. – Então, você vai ter que saber dividir. Porque essa tem que passar por mim. Nunca vi mulher mais gostosa. Mamãe rosnou baixinho, porém ameaçadora. – Que gatinha brava. – Um zombou e todos riram. – Com essa vamos nos divertir. – Que pena que vocês não iram se divertir. –E posso saber por que não? – Porque todos vão morrer, começando com você. – Apontei para o que tinha acabado de falar. – Que é o mais i****a. O cara se enfureceu ficando todo vermelho quando seus amigos começaram a rir da sua cara. – Sua p*****a, eu vou te f***r de um jeito que nunca mais vai esquecer. Não deu tempo nem de responder, pois um rosnado bestial arranhou pela garganta da mamãe. Tudo ficou num silêncio total no momento que ela rugiu. Já no décimo de segundo seguinte, mamãe estava de frente para o cara que me zoou. O homem por sua vez deu um pulo para trás com o susto que levou. – Que p***a é essa? – Gritou um dos seus amigos. Mamãe nem sequer ouviu o que o outro disse, simplesmente pegou o homem da sua frente e o ergueu pelo colarinho tirando-o facilmente do chão. – Me larga, filha da p**a! – Ele se contorcia tentando se soltar. – Pede desculpas para minha filha. Agora! – Abri a boca em choque, mamãe me chamou de filha pela primeira vez desde que nos reencontramos. Eu não acredito. Por tantos dias eu desejei isso e finalmente aconteceu. Eu senti uma felicidade imensurável. Sai do meu estado que se encontrava assim que ouvi dois barulhos de tiro. Pisquei voltando a realidade e me surpreendi ao ver que o cara que mexeu comigo estava morto no chão, com um r***o enorme na sua garganta. O som do tiro veio de outro cara que encarava aterrorisado mamãe com sangue na boca. Fechei a cara e andei passos lentos na direção deles. Ninguém atira na minha mamãe. Antes que eu me aproximasse o suficiente. Um rapaz magrelo cheio de tatuagem ergueu sua arma atirando em mim. – Aaahhh! – Gritei horrorizada. – Eu não acredito, você destruiu a minha roupa! – Onde que eu estava com a cabeça pra não desviar da bala? – Eu vou acabar com você, miserável!! E com certeza ia, eu faço questão que ele seja meu primeiro lanchinho depois de tantos anos. Nem medi meus esforços. Avancei direto para sua garganta e tomei o liquido mais saboroso que possa existir. Eu até tinha esquecido o quão delicioso que é. Realmente o sangue animal não chega nem aos perto do sangue humano. O néctar proibido. Mal tinha tocado os lábios na garganta do homem e seu sangue já tinha acabado. Eu hein, acho que ele está furado. Depois que eu tomei seu sangue, a cede parecia ter aumentado. Então Avancei no próximo ligeiramente. Quando finalmente estava um pouco saciada larguei o corpo do homem no chão. Passei em parte de cima da mão na minha boca tirando parcialmente o sangue que estava ali. Agora eu poderia ir com a mamãe encontrar mais humanos pra se alimentar. Olhei para onde mamãe estava e ele me avaliava fixamente. – O que foi agora? – Você estava mesmo com fome. - Disse olhando para baixo. Acompanhei seu olhar e arregalei os olhos. Todos já estavam mortos no chão inclusive a menina sem sangue nenhum. – Eu que fiz isso? – Perguntei. Mamãe balançou a cabeça confirmando minhas suspeitas. Eu não estava acreditando que me alimentei de todos, parece que eu nem sequer me alimentei de um direito quem dira 5. Bom, pelo menos não me alimentei daquele que mamãe matou. – Vamos se alimentar mais? – Pedi ansiosa já sentindo a sede fazer minha garganta queimar. Mamãe arqueou as duas sobrancelhas. – Ainda está com fome? – Mais é claro, tantos anos sem se alimentar de sangue humano parece que faz abrir o apetite. – Disse dando uns tapinhas no meu estômago. E era mesmo, parecia que eu nunca tinha comido na minha eternidade e a fome veio em tona tudo de uma vez. Os olhos da mamãe tinham um ar de curiosidade. – Se gosta de sangue humano, por que tem se alimentado de animal? – Apostei com o tio Chris que aguentaria me alimentar só de sangue animal. – Por quanto tempo? – 1 ano. – Então está passando a perna no seu tio? Essa era a primeira vez que eu via mamãe falar mais do que duas frases no mesmo dia, e eu com certeza não perderia essa oportunidade. – Claro que não. Eu venci facilmente. - Respondi com um enorme sorriso toda orgulhosa de mim mesma, mas como não ficar, não é? Aguentei tantos anos sem cair nenhuma vez, nenhum vampiro maduro consegue tanto tempo sem ter dado um escorregão. Mamãe olhou para cima, pensativa. – Se venceu, por que ainda continua a se alimentar de animais? Ou você acabou de concluir sua aposta? Hesitei quando ela me perguntou isso. Eu sabia que tinha que entrar nesse assunto para dar uma desculpa na minha tentativa de aproximação, porém não me senti preparada. Eu não sabia o que dizer, precisava tomar cuidado com minhas palavras, porque conhecendo minha mãe ela se sentirá culpada. – A data expirou há poucos dias. – Menti como uma verdadeira covarde. Sim, covarde porque fiquei com medo de dizer a verdade e piorar a situação ao invés de melhorá-la. Mamãe não disse nada, apenas ficou em absoluto silêncio por alguns segundos até dizer sem olhar para mim: – Podemos continuar agora. – Disse sem demonstrar reação alguma. Ela caminhou para fora do beco passando direto por mim. Oh merda, oh merda! Ela percebeu que eu estava mentindo. Eu estraguei tudo. – Mamãe, espera! – Precisava concertar a besteira que causei. Ela nem sequer olhou para trás, continuou seguindo para a rua mais movimentada. Até decidi correr atrás dela, mas ai lembrei dos corpos no chão. Eu não podia deixear eles jogados ali. Duas vezes meda! – Argh! – Grunhi pegando rapidamente dois corpos e jogando na caçamba de lixo e fiz o mesmo com os outros quatro. Ateei fogo dentro dela e rapidamente corri atrás de mamãe. Não demorei muito para encontrá-lá. Ela estava três ruas acima, caminhando por uma rua bem movimentada. – Hey, espera. – Puxei o braço da mamãe virando-a de frente para mim. – Vamos conversar. – Da para se limpar? – Brigou comigo. – Ham? – Do que ela estava falando? Ela me ignorou olhando para os lados, parecia que estava a procura de algo. E pelo visto achou porque caminhou um pouco mais a frente entre as pessoas. O seu gesto a seguir me surpreendeu completamente. Duas garotas conversavam em frente a uma loja de roupas, quando mamãe arrancou a garrafinha de água da mão da menina. – Ei, qual o seu problema? – A menina gritou, mas logo se calou engolindo em seco quando viu a cara de m*l da mamãe. Como ela não disse mais nada mamãe deu as costas voltando para nossa direção. – Maluca! – A garota resmungou baixinho. Eu quis gargalhar e muito, mamãe roubou uma garrafinha de água. Espera pra que ela precisa de água se não tomamos? Quando ela ficou de frente para mim fui perguntar, mas manti a boca aberta assim que a vi rasgando parte da sua blusinha. Deixando parte do seu abdômen despido com apenas a blusa de frio que usava por cima cobrindo pequena parte da pele. Oh, com certeza Lolo não ia gostar nada dessa história, principalmente porque esse gesto chamou a atenção de basicamente toda a ala masculino daqui. – Por que você fez isso? – Perguntei. Ela não me respondeu, ao invés disso ela jogou água no pano que até segundo atrás fez parte da sua blusinha e com ele esfregou na minha boca. – Para... com... isso. – Tentei empurrar sua mão que abafava minha voz, mas ela não me permitiu. – Sua boca está completamente lambuzada de sangue. As pessoas estão olhando! Finalmente a compreensão surgiu. Mamãe me limpou com cuidado, é sério parecia aquelas cenas quando a filhinha lambuza a boca de sorvete e as mães delas estão ali para limpar, a única diferença é que eu não sou mais uma criança. Eu até poderia protestar com mamãe pela vergonha que estava me fazendo passar na frente dos humanos, porém não foi o que eu fiz. Pelo simples fato dela estar agindo diferente de todas as outra vezes. Mamãe foi sempre de brigar com quem me fazia m*l a ultima vez que me deu carinho foi há cinco anos, depois disso nunca mais. Por isso eu deixei. Pela primeira vez ela está deixando algo diferente acontecer dentro dela mesmo inconscientemente. Ela nem ao menos percebeu o cuidado que estava tendo comigo. Porém assim que percebeu se afastou imediatamente de mim. Deixando um vazio no meu peito. – Hum, coloca essa parte do pano sobre a boca para fingir que se machucou. - Indicou a parte limpa que restava nele. Fiz o que mamãe mandou. – Tinha feito uma promessa. – Falei do nada. – Ham? Droga, a única coisa que podia fazer é torcer para que desse certo. – O fato de eu não me alimentar de humanos é porque prometi que quando voltasse a me alimentar eu faria isso com uma pessoa. – E por que isso não aconteceu? – Porque ela não estava aqui. Mamãe arregalou os olhos surpresos. – Sofi, eu... – Espera, deixa eu terminar, sim? Ela chegou a abrir a boca para contradizer, mas fechou assim que vi meus olhos pidões. – Mamãe escuta, você não faz ideia, não tem a menor noção de quão m*l fiquei quando achei que estava morta. Foram mais de três mil anos convivendo juntas. Mas graças até mesmo à Deus você sobreviveu e esta aqui na minha frente. O que aconteceu cinco anos atrás foi um terrível trágico acidente. – Encarei profundamente seus olhos. – Você não precisa se culpar por ter esquecido de mim ou de qualquer um. Mamãe arqueou as sobrancelhas. – Como você sabe? Não tinha nenhum m*l em contar para mamãe o dom de Troy. – O dom de Troy é simplesmente poder sentir e controlar os sentimentos das pessoas. Mamãe se mexeu desconfortável desviando o olhar do meu. Fitei-a com curiosidade. Ai tinha! Tenho que me lembrar de perguntar a Troy o que ele sabe para ter deixado mamãe desconfortável. Ela suspirou cansada. – Sofi, você não entende. – Então me explica porque você não está sendo muito clara. – Ironizei. A mandibula da mamãe travou. Acho que agora a irritei. Ela me pegou pelo braço. – Eu tentei te matar! – Quase gritou chamando a atenção de muitos olhares em nossa direção, mas nem ao menos deu bola. – Que tipo de mãe esquece um filho e pior além de tudo tenta matá-lo? Pude presenciar o sofrimento que mamãe estava passando. Seus olhos entregavam toda a dor que estava sentindo, mas no segundo seguinte voltaram para raivosos. – Então não, você não entende. Soltou o meu braço e me deu as costas voltando a caminhar para longe de mim. Então é isso? Ela vai embora sem mais nem menos? Agora eu quem estava furiosa. – i****a! – Gritei jogando o pano na minha mão em suas costas. – Quer saber, que se f**a você! Mamãe se virou na minha direção chocada. Me aproximei dela com longos passos e apontei o dedo no seu peito. – Estou cansada de ficar correndo atrás de você e sendo desprezada por você o tempo todo. Agora me responde que tipo de mãe despreza a filha? Você obviamente! Só se faz de vítima colocando a culpa que perdeu memória. Se quisesse ser mesmo minha mãe estaria lutando para continuar a vida ao meu lado não importa a situação. – Falei. – Algum problema? – Um homem se intrometeu. – Cala a boca! – Eu e mamãe gritamos ao mesmo tempo assustando ele. Deixei a raiva de lado assumindo a tristeza que estava sentindo. – Acho que está certa em se manter longe. – Murmurei. – A antiga Camila Cabello, minha antiga mãe nunca pararia de lutar pelo que quer. E se fosse verdade quando dizia que eu era tudo pra você. Agora mesmo não estaríamos tendo essa discussão. Era visível que ambas estávamos cansadas disso tudo. Então o melhor a se fazer é dar tempo ao tempo. Dei dois passos para trás fitando-a última vez antes de dar-lhe as costas e ir embora. Assim que sai das vistas dos humanos usei minha velocidade e corri para longe. Nem ao menos sabia para onde estava indo, eu só não queria a presença de ninguém por perto a minha vontade era de chorar. Eu podia sentir meus olhos arderem pelo choro seco, nenhuma lágrima caia. Eu lembro que quando humana e até mesmo depois de transformada sempre que eu tinha meus momentos tristes, mamãe sempre oferecia seu colo e me ninava como um bebê, me protegendo do mundo. Parei em um campo pleno coberto pela neve, não fazia ideia de onde estava e muito menos por quanto tempo corri, mas sabia que não fui tão longe, pois ainda era dia se bem que o céu aqui estava mais claro e limpo. A minha frente tinha uma árvore coberta pela neve, caminhei até ela e sentei-me na raiz. Fiquei pensando em tudo que aconteceu e me arrependi de ter dito as p************s para mamãe. Oh céus! Eu tecnicamente mandei ela embora. O que eu fiz? E se ela for e nunca mais voltar? Eu sei que o jeito dela agir não é o certo, mas é a maneira que ela encontrou para se proteger. Sim se proteger, pois céu conheço mamãe mais que ninguém nesse mundo e ela estava agindo assim para de certa forma não se sentir excluída. Para ela todos nós somos de certa forma novos em sua existência e todos se conhecerem se achando uma intrusa no meio de nós. Eu sabia que podia correr o risco de estragar tudo e foi o que eu fiz, no momento da raiva disse palavras que não devia. Se eu falasse o que eu queria dizer, mas com as palavras certas provavelmente nada disso teria acontecido. Envolvi minhas pernas com minhas mãos e abaixei minha cabeça apoiando-a em meus joelhos. Eu queria tanto pedir desculpas para mamãe. Será que um dia ela vai me perdoar? E quando que isso aconteceria se eu não encontrá-la? Não adiantaria voltar lá. Eu tenho certeza que ela não estava mais lá. Senti uma mão tocar meu ombro. Relutante ergui meu rosto para ver quem era e assim que meus olhos se encontraram com os mais belos castanhos que já vi. A vontade que eu tinha de chorar só aumentou. Mamãe não foi embora. Ela estava agachada bem na minha frente. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, mas não era um sorriso de alegria e sim de tristeza. Quem se importa, ela estava aqui na minha frente. – Mamãe... – Choraminguei jogando-me em seus braços. Mamãe não esperava por essa reação pois se desequilibrou caindo comigo. Abracei sua cintura e deitei minha cabeça no seu estômago. De imediato ela não fez nada, no entanto em seguida me abraçou contra seu corpo e começou a fazer carinho em meus cabelos. Passamos durante horas assim, não sabia quantas ao certo, porém a noite já estaa sob nossas cabeças o céu estava completamente cheio de estrelas iluminando claramente o campo onde estávamos. – Por que nunca voltou antes? – Quebrei o silêncio depois de tanto tempo. Mamãe fechou os olhos por um instante e abriu-os com um brilho diferente no olhar. – A maior parte do tempo durante esses anos estive a procura de você. – Quase engasguei diante da nova revelação. – O que? – Será que eu ouvi direito? – Quando acordei não sabia quem eu era, me senti completamente perdida nesse mundo, claro tive a sorte de ter Laura ao meu lado me orientando e me dizendo quem eu era. O único problema é que eu tinha problema com confianças e com Laura não foi diferente. – Ela parou por um segundo. – Laura contou sobre você e a família que eu tinha na Itália, fiquei desconfiada e minha desconfiança só aumentou quando encontramos um vampiro nômade e descobri que os que ela dizia ser minha família eram os mesmos que comandavam nosso mundo. Depois que o vampiro explicou quem era os Estrabão fiquei com o pé atrás com Laura e tal pensamento só aumento conforme fomos encontrando vários vampiros dizendo sempre a mesma coisa 'Simon é um caça-talento para seu poder.' Achei que Laura só queria me levar para esse tal de Simon e a partir daí duvidei se realmente você existia, outro problema é que não conheci ninguém que sabia sobre mim além de Laura. Eu poderia ter ido embora e deixado de lado Laura e tudo seria mais fácil, porém a dúvida se realmente tinha uma filha me corroeria por toda a eternidade. Então fiz ela concordar em me ajudar encontrá-la sem envolver os Estrabão. Passamos durante anos te procurando, mas não tínhamos ideia de onde estava foi ai que eu vi que provavelmente não teria chances de te encontrar nunca por mim mesma a não ser se fosse pelos Estrabão. Hoje em dia vejo o quão estúpida fui em duvidar de Laura quando ela me disse que os únicos que sabia onde você estava eram os Estrabão. Depois que ouvi sua história me sentei eufórica ao seu lado. – Quer dizer que queria me procurava desde o primeiro instante? – Disse animada. – Eu estava ansiosa para reencontrá-la quando descobri que estava indo para Volterra, mas tudo mudou quando. – Mamãe engoliu em seco. – Tentei matá-la! Agora tudo se encaixava. – Quer dizer que estava tudo bem até antes de do que aconteceu no dia do nosso primeiro encontro? – Sim, estava tão desconfiada dos Estrabão e já tinha matado uns vampiro da guarda que me tiraram do sério que quando você chegou me pegando de surpresa achei que era mais um da guarda. Fui uma tola causando quase a maior tragédia do mundo. – Esquece isso, mamãe. – Disse com desdém eu entendia agora o lado da mamãe. Ih, acho que ela não concorda comigo, pois virou o rosto na minha direção completamente indignada e furiosa. – Eu nunca vou esquecer que tentei matar uma filha minha. – Pois deveria, se não vai continuar essa velha ranzinza. – Falei mesmo. – O que disse? – Ela me olhou boquiaberta levantando Levemente o tronco apoiando-se nos cotovelos. – Te chamei de velha ranzinza. – Falei lentamente como se estivesse falando com um débil metal. – Eu não sou velha. – Bom, não fisicamente já que está mais conservada que muitas múmias que ainda existem por ai, mas mentalmente puts, nem se fala. – Pelo menos sou mais bonita, inteligente e forte que você. – Ela arqueou uma sobrancelha em desafio. – Hey! – Me indignei. Revoltada disfarçadamente peguei uma quantidade generosa de neve na mão e ataquei acertando em cheio na sua cara. Tive vontade de rir e foi exatamente o que fiz gargalhei como a muito tempo não fazia colocando uma mão sobre o meu estômago e a outra me apoiando para não cair na neve. Eu estava rindo com gosto quando senti algo gélido atingir meu rosto. A neve não me fazia sentir frio. O problema que com a temperatura do meu corpo ela não se derreteria e provavelmente ficaria grudada os poucos flocos que caíram na minha cabeça. Tirei a neve do meu rosto e encarei mamãe com os olhos arregalados. O que veio a seguir me pegou completamente de surpresa. Mamãe riu. Não, gargalhou como fiz minutos atrás. Uma risada gostosa de se ouvir. Esperei desde o dia que reencotrei mamãe poder vê-la sorrir eu tive o privilégio de ganhar mais do que isso. Agora eu tinha certeza que quando voltassemos para casa não agiriamos como duas estranhas e sim como tanto ansiei como mãe e filha. E toda a mágoa e culpa entre nós não existirá mais.
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