Pré-visualização gratuita PRÓLOGO
Sabe aqueles dias nublados e bastante cinzentos? Eu tenho andado assim.
Não é difícil me lembrar do dia em que ele me colocou uma aliança, deu-me seu sobrenome e jurou a monogamia perante a igreja, bem atípico do Cameron, mas no momento que ele me propôs, foi a minha exigência. Sorte minha que a igreja católica aceita realizar o casamento mesmo quando um dos noivos não seja praticante, sem a exigência de conversão, porque se esse fosse o caso, então não era algo a sugerir para ele.
Me lembro da minha entrada, dos arrepios e da sensação das famosas “borboletas no estômago” ansiando pela reação do meu noivo. Enquanto todos nossos amigos e familiares me encaravam meus olhos só estavam fixos a figura dele, extremamente elegante, me esperando no altar. Embora sua postura firme, eu notei o quão emocionado Cameron ficou naquele momento, e pela primeira vez na vida, eu o vi ansioso. Lá estava ele. Meu homem, meu amor, minha vida… E seria pelo resto dela, ou era o que eu achava.
Ultimamente, sempre que meus pensamentos sobrevoam a esta lembrança, me causam uma tortura emocional indescritível. Mas eu continuava o fazendo, porque existem essas alegrias que irão nos consumir por completo, nos fazendo esquecer que tudo, outrora, deu errado.
O meu vestido de noiva era ombro único, longo e perolado, destacável pela faixa costurada a pedras brilhosas, rodeando toda região do meu b***o e se unindo ao ombro, a faixa com pedras brilhosas se tornava uma cauda caindo do meu ombro. Do lado oposto, exibia a parte de meu ombro desnuda. Discreto e chique.
Durante as nossas núpcias, ele me disse como ficou afetado quando me viu entrar na igreja, com meus cabelos castanho escuro presos em um coque baixo. Que meus olhos destacavam fosse pela minha emoção ou pelo brilho das pequenas pedras no vestido longo, ajustado em meu corpo.
– Tenha cuidado com o seu coração, querida. – A voz meiga da minha mãe carregava o cuidado nas palavras. – Não ame ele com todo seu coração... Porque um dia, quando os problemas aparecerem, você verá que a vida não é um conto de fadas.
Selena me alertou, enquanto me arrumava para a viagem de núpcias. Como me pedir isso, quando ele já tinha todo meu coração?
No dia do casamento a Igreja não pergunta se os noivos estão apaixonados, nos pergunta se estamos decididos. Amor é, acima de tudo, um compromisso. Mas há um ano, Cameron se esqueceu disso.
Traição é quebra de confiança. Traição é quebra de aliança.
Não dá para fugir da dor. Não dá para fechar os olhos fortemente engolindo o choro se convencendo de que vai passar. Fiquei meses pensando que era possível, mas não é. A dor de um término existe, ela está lá, ela é real, principalmente quando se trata de um término de companheirismo, de confiança. Tão real quanto as badaladas de um sino de manhã cedo, acordando toda a cidade.
O fim de um ciclo vai doer porque é real. Até mesmo a pessoa mais forte do mundo irá sentir, ninguém está imune.
Eu sempre tive medo de altura, achava que pular uma janela da vida era um ato de vandalismo. Engraçado, nesse exato momento estou me jogando de uma. Descobri que isso muitas vezes é um ato de coragem.
Quando começo a me lembrar de como tudo começou...
Eu e Jasmine nos sentávamos para descrever o provável cheiro do perfume dele, ou a marca do seu perfume favorito. Tentávamos imaginar como era seu toque, seus hobbies favoritos entre muitas outras coisas que envolviam o Cameron.
Uma amizade de infância, éramos inseparáveis, ela estava sempre lá por mim e eu por ela. Mas compartilhávamos um sentimento em comum; éramos completamente apaixonadas pelo Ian Cameron.
Toda vez que eu era perseguida e maltratada, era Jasmine quem me ajudava. Eu a enaltecia e admirava; era rica, linda e popular. Numa de minhas recordações mais importantes, me vem uma promessa entre nós duas, nunca e jamais deixaríamos nossa amizade acabar caso um dia, uma de nós conquistasse o Cameron.
Mas foi exatamente no primeiro ano do ensino médio que nossa amizade sofreu um declínio. A escola resolveu separar grupos de estudos em todas as turmas, fui ingressada no grupo do Cameron e da Jasmine. A partir daquele momento, ela passou a ter ciúmes e criar uma certa competitividade na nossa amizade. A partir daquele momento, eu lutei pela minha própria opinião.
Por fim, ela provou que poderia ter o que tanto desejou.
O meu marido.
***
Me sentei na poltrona e avaliei o ambiente. As persianas eletrônicas estavam abertas, não demorou muito para que meus olhos encontrarem os travesseiros de plumas de ganso.
Minha atenção foi roubada pela entrada de Cameron na cabine, ele surgiu fechando a porta de correr atrás de si, essa era uma das razões que ele mais exaltava na cabine de primeira classe; a privacidade do passageiro.
O peso de Cameron despejou-se na poltrona ao lado. Encarei a imagem do meu companheiro, ele era tão lindo. Essa era a minha tão esperada viagem de núpcias! Ele me olhou, sorri largo.
–– Cameron! –– risos –– por que escolheu Chang Mai mesmo?
Gaguejei, sentindo dificuldade em pronunciar o nome da cidade, o que fez surgir um sorriso divertido nele. Se tinha uma coisa que era mais bonito do que Cameron, era com certeza ele sorrindo.
–– Você quis dizer, Chiang Mai.
–– Falei bem o bastante para você entender, certo? –– brinquei. –– Estou tão animada para conhecer a Tailândia... Sempre foi um dos lugares que eu sonhava em ir.
Eu estava num estado de felicidade difícil de ser explicado em palavras com tudo o que estava acontecendo na minha vida nesses últimos dias, que não existia nada no mundo que importasse se não fosse aquele momento. Um estado de consciência plenamente satisfeita.
A minha viagem de núpcias, a minha tão esperada viagem de núpcias.
–– Sua expectativa é visível.
–– Mas... não parece ser muito a sua cara, digo, esse tipo de viagem.
–– Talvez não seja.
–– AH –– Resmunguei. Não queria que ele estivesse insatisfeito. –– Por que o escolheu então?
–– Porque é o SEU –– deu ênfase na palavra. –– tipo de viagem.
Meu coração acelerou após a revelação. Cameron me encarou com ternura, senti o toque de seus dedos se fechando na minha mão. A cintilação das alianças em nossos dedos me fez sorrir, radiante.
––Meu. –– sussurrei, indicando a aliança em seu dedo.
Ele sorriu, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados e alvos.
Quando se tratava de Cameron e de seus sentimentos em relação a mim, eu sempre queria saber mais, muito mais. Naquele momento era possível perceber a satisfação no rosto dele, O que de certa forma evidenciava que o nosso casamento e a nossa viagem, eram pra ele, também algo muito especial.
–– Zara, algum problema?
Ergueu as sobrancelhas.
–– Huh? –– pisquei algumas vezes seguidas.
–– Tem algo comigo?
––Ah –– sorri amarelo. Eu estava o encarando por tempo demais. –– n-não.
Esfreguei a orelha, um comportamento típico que evidenciava minha timidez. Os cantos da sua boca curvaram-se num sorriso. Ele adorava me ver tímida.
Me encostei na poltrona e fechei os olhos. A porta de correr foi aberta, ignorei.
–– Com licença senhor Fanning.
Abri os olhos naturalmente.
–– Sim.
–– Adoraria saber se o senhor deseja algo.
Era uma aeromoça, jovem e alta, cabelos ruivos e olhos cor de mel. Ela moveu os lábios, prendendo-o em seus dentes. Analisei a aeromoça que indiscretamente insinuava para o Cameron na minha cara. Por um momento me senti uma bocó, então percebi que eu realmente estava sendo uma se não fizesse nada.
–– Com licença. –– me encostei nele, pousando meu braço em sua coxa. –– Dessa vez ela me olhou, de forma indiferente. –– Senhora Fanning, para você. Em relação ao desejo dele, eu conheço muito bem, então traga um champagne, meu favorito a propósito. O Dom Pérignon Rosé, iremos brindar nossas núpcias.
Uma linha apareceu entre suas sobrancelhas. Levei minha mão até uma mexa do meu cabelo, colocando-o atrás da orelha, lentamente.
Fiquei satisfeita quando os olhos cor de mel acompanharam meu dedo anelar, rodeado pela aliança.
A cor fugiu-lhe do rosto
–– Sim. –– abaixou os olhos. –– senhora Fanning.
Enfatizou o sobrenome, balancei a cabeça lançando para ela um olhar incitador. Ela saiu.
–– Primeira vez que escuto você ter uma reação assim, –– ele aproximou seus lábios no meu ouvido. Tocou minha coxa e começou a subi-la. –– Senhora Fanning
Sussurrou. Provocando um frio no meu estômago.
–– O Interessante disso tudo, é que acabo de perceber que, você está bem atualizada em relação aos 50 tons de cinza.
Sua mão finalmente chegou no ponto onde meu corpo implorava. Mas do nada ele se distanciou removendo o contato.
Me lançou um sorriso, aquele sorriso, repleto de segundas intenções.