Selene se sentia pequena. Aterrorizada. Aquele homem conseguira deixá-la sem resposta. Viu nos olhos azuis dele um ódio profundo, um rancor inexplicável. Ela não sabia o porquê, mas ali... ela não tinha direito de querer nada diferente. Ele continuava em cima dela, com o corpo pesado, invasivo. Mas ela não aceitaria, não de bom grado, aquele tratamento.
— Saia de cima de mim! — gritou.
Ele parecia não se importar com o que ela desejava.
— Sabe... quando te vi chegar com aquela vagabunda da sua mãe, eu pensei: como pode uma mulher ser assim?
Selene tentou retrucar, mas ele colocou a mão em sua boca.
— Então... você será meu brinquedinho nessa casa. A partir de hoje, você vai me obedecer.
Ela começou a se debater embaixo dele.
— Você é louco! Eu não sou minha mãe! E também, por que eu deveria te obedecer, seu bastardo? Porque minha mãe é uma v***a, como você diz? Seu pai foi um trouxa de cair nos encantos dela!
Ela percebeu o olhar de Mikael se estreitar, afiado como uma lâmina.
— Sua vagabundinha... pelo que percebo, você é como ela. Mas não na aparência.
Ele tocou sua cintura. Selene congelou.
— Olha aqui... tão reta.
Colocou a mão sobre a toalha que a cobria, indo em direção aos s***s.
— Sim... você é diferente dela. Não tem nada de atrativo. Apenas uma garotinha...
Selene sentiu a vergonha rasgar seu peito. Medo. Como ele podia tratá-la assim? Lágrimas escorriam pelo seu rosto.
— Está chorando, coelhinha? — ele riu. — Não se preocupe. Mesmo você não tendo nada que me chame atenção... ainda pode aquecer minha cama sem problemas.
Ela começou a se debater com mais força. Em um movimento desesperado, conseguiu se soltar debaixo dele e correu até a porta. Mas ele foi mais rápido. Segurou sua cintura e a puxou de volta para a cama. Selene caiu sobre o colo dele. Ele a segurou forte.
— Você é bem leve — disse com os lábios colados ao seu pescoço.
Selene sentia seu sangue ferver. Mas não era hora para isso.
— Me solta! — exigiu.
Ele continuava abraçado a ela. Seu coração batia alto, e ela não sabia dizer se era o dela ou o dele. De repente, ouviu passos na escada. Seu corpo inteiro ficou em alerta.
— Fique quieta — ele sussurrou. — Não quer que alguém te veja assim comigo... ou quer?
Ela ficou em silêncio, tensa. Pelo barulho, era uma empregada. Mas então uma voz feminina ecoou alta:
— Mikael! Cadê você?
Ele riu. Havia percebido seus pensamentos. A largou e, antes de sair pela porta, olhou para ela com desprezo.
— Até logo, minha coelhinha.
Selene respirou aliviada. Aquilo era pior do que ela poderia imaginar. Aquele homem a odiava. Ela sabia que sua mãe era m*l vista, mas nunca pensou que o filho de Richard a odiasse tão profundamente. Precisava entender o porquê.
Foi até a mala em cima da cama. Procurou uma roupa qualquer. Deixou a toalha cair e viu seu corpo no espelho. Magra. Alta. Nunca se sentiu tão feia. Mas o que ele disse... aquilo a fez pensar. Sua mãe era belíssima, todos diziam isso. Vestiu um moletom e uma calça.
— Minha mãe tem razão... só tenho isso na mala — resmungou.
Saiu do quarto para procurar a mãe. A casa era enorme. Foi ao jardim, nada. Na piscina, ninguém. Escutou risadas se aproximando e tentou se esconder, mas não deu tempo. Era Mikael. E estava acompanhado de uma mulher. Ela era belíssima, com longos cabelos cacheados que iam até a cintura e um corpo de fazer qualquer uma se sentir uma pata feia.
A mulher a encarou.
— Mikael, essa é sua nova irmãzinha?
Mikael a olhou como se ela fosse um pedaço de lixo.
— Ela é filha da v***a do meu pai.
A mulher riu.
— Amor, não fale assim.
Ela se aproximou de Selene.
— Oi, sou Thamiris Chavier. Namorada do Mikael.
O rosto de Selene queimou. Aquele bastardo tinha namorada... e se esgueirava no seu quarto? Mikael pareceu notar o que ela pensava.
— Thami, esquece essa garota. Vamos nadar.
Ele correu e pulou na piscina. Thamiris tirou o vestido. Era perfeita. Selene ficou sem graça.
— Você não está com calor com esse moletom? — ela perguntou.
Selene, sem jeito, respondeu que não. Entraram na piscina, rindo. Selene saiu correndo daquele inferno e entrou na casa. Até as empregadas a olhavam com desdém.
Foi para um canto chorar. Sua mãe a encontrou.
— Filha, pare com isso. Você não é criança pra ficar chorando por aí.
Selene sabia que sua mãe não se importava, mas doía ouvir isso.
— Mãe, por que eles te odeiam?
A mulher pareceu surpresa.
— Quem me odeia? Esses empregados, quem se importa com essa gentinha?
— Estou falando do filho do Richard. O Mikael.
— Ah... está falando daquele moleque? Filha, você se importa demais com aquele bastardo. Ele só tem raiva porque ocupei o lugar da mamãezinha dele.
— Mãe... o que aconteceu de verdade?
— Não tenho por que te responder. Vou conversar com Richard. Ele precisa dar um jeito nesse maldito filho dele. Como pode um homem de 23 anos atormentar uma moça ?
— Mãe, não fale nada!
— Por quê? Você vive dizendo que não te amo! Estou tentando te ajudar!
— Mãe... deixa pra lá. Onde você estava?
— Richard me chamou para conhecer os negócios dele.
— você sabe quem é Richard filha??
Selene não sabia. Sua mãe trocava de homem como quem troca de roupa. Ela nunca decorava os nomes.
— Filha... ele é Richard Hamthiford!
Ela falou como se aquele sobrenome fosse ser importante para Selene.
— Ele é um dos maiores empresários dos EUA. Tem um aglomerado de negócios... podre de rico. Eu só consolei um viúvo num momento difícil.
— Mãe... pare com isso. Você acha bonito ser assim? Todos pensam que sou como você! Que vivo atrás de homem rico e vida fácil!
Sua mãe lhe deu um tapa no rosto.
— Nunca mais fale assim comigo! Você não sabe o que passei pra te criar. Você nunca teve pai!
— Eu não tive pai porque você se n**a a me contar quem ele é! Você me n**a amor, me n**a até o sobrenome dele! Você é vazia, mãe! Por isso vive dormindo com qualquer um que aparece!
Sua mãe tentou bater de novo, mas Selene foi mais rápida e correu. Sabia que ela não ousaria fazer escândalo na frente do novo amante.
O resto do dia passou trancada no quarto. Não quis comer. Já era noite quando bateram na porta.
— Não quero falar com você, mãe! — gritou.
— Selene, sou eu. Richard. Vim te chamar para comer.
A voz era gentil. Ela saiu e o acompanhou até a mesa. Sua mãe estava com cara de poucos amigos. Mikael, como sempre, sorria com a namorada. Sentou-se o mais longe possível.
— Por que não tirou esse maldito moletom, Selene? — a mãe perguntou.
Ela ficou vermelha, mas não respondeu.
— Sua filha parece com você, Beatriz — disse Mikael.
— Você acha?
— Selene parece com o pai — disse a mãe.
Selene nunca tinha ouvido isso antes. A olhou, surpresa. Mikael provocou:
— Achei que você nem soubesse quem era o pai dessa criança.
Silêncio. Richard bateu forte na mesa.
— Mikael, não admito que fale assim com sua madrasta!
— Você não tem direito de me dizer nada, pai. E eu menti? Todos sabem o tipo de mulher com quem você se casou.
A namorada dele o cutucou. Selene percebeu que pai e filho não se davam bem. Ela entendia Mikael. Sentia o mesmo pela própria mãe.
O jantar continuou tenso.
— Selene, seu nome é muito bonito — disse Richard.
— Obrigada.
— O nome da minha filha tem origem grega — se intrometeu a mãe. — Na mitologia, Selene era a deusa da lua.
— Quem deu esse nome pra ela? — perguntou Richard.
— O pai dela.
Selene teve um sobressalto,ela sentiu que deveria perguntar, sabia que esse era o momento.
— Mãe... ele era grego?
A mulher hesitou, mas respondeu:
— Sim, era.
A empregada trouxe a sobremesa, encerrando a conversa. Selene tentou falar com a mãe depois, mas ela se trancou com Richard.
Selene subiu para dormir. Quando estava na escada, Mikael voltava. Havia deixado Thamiris em casa.
— Coelhinha... contou pra sua mamãezinha nossa conversa?
— Eu não disse nada! Mas ela devia saber que você é um grande bastardo!
Ele riu e a puxou.
— Sério? Você pensa isso de mim?
— Você não é normal! Me deixa em paz! Não tenho culpa das escolhas do seu pai!
Ele apertou o braço dela com força.
— Por causa da prostituta da sua mãe... vi a minha morrer de dor!
— Ai! — Selene gritou.
— E se for preciso, vou fazer vocês duas pagarem!
Um grito ecoou. Richard.
— Solte ela, Mikael!
— Se eu não soltar, vai fazer o quê, senhor Richard?
O homem desceu a escada e deu um tapa no filho.
— Você não tem direito de machucar essa criança!
Mikael levantou a mão para revidar, mas Selene entrou na frente. O tapa acertou seu rosto.
Ela gritou de dor. Mikael congelou. Selene levou a mão ao rosto e subiu correndo, deixando para trás dois homens em guerra.
Naquele instante, ela soube: tudo estava apenas começando.