"A Ferida Que Se Abre"

1584 Palavras
Selene se sentia pequena. Aterrorizada. Aquele homem conseguira deixá-la sem resposta. Viu nos olhos azuis dele um ódio profundo, um rancor inexplicável. Ela não sabia o porquê, mas ali... ela não tinha direito de querer nada diferente. Ele continuava em cima dela, com o corpo pesado, invasivo. Mas ela não aceitaria, não de bom grado, aquele tratamento. — Saia de cima de mim! — gritou. Ele parecia não se importar com o que ela desejava. — Sabe... quando te vi chegar com aquela vagabunda da sua mãe, eu pensei: como pode uma mulher ser assim? Selene tentou retrucar, mas ele colocou a mão em sua boca. — Então... você será meu brinquedinho nessa casa. A partir de hoje, você vai me obedecer. Ela começou a se debater embaixo dele. — Você é louco! Eu não sou minha mãe! E também, por que eu deveria te obedecer, seu bastardo? Porque minha mãe é uma v***a, como você diz? Seu pai foi um trouxa de cair nos encantos dela! Ela percebeu o olhar de Mikael se estreitar, afiado como uma lâmina. — Sua vagabundinha... pelo que percebo, você é como ela. Mas não na aparência. Ele tocou sua cintura. Selene congelou. — Olha aqui... tão reta. Colocou a mão sobre a toalha que a cobria, indo em direção aos s***s. — Sim... você é diferente dela. Não tem nada de atrativo. Apenas uma garotinha... Selene sentiu a vergonha rasgar seu peito. Medo. Como ele podia tratá-la assim? Lágrimas escorriam pelo seu rosto. — Está chorando, coelhinha? — ele riu. — Não se preocupe. Mesmo você não tendo nada que me chame atenção... ainda pode aquecer minha cama sem problemas. Ela começou a se debater com mais força. Em um movimento desesperado, conseguiu se soltar debaixo dele e correu até a porta. Mas ele foi mais rápido. Segurou sua cintura e a puxou de volta para a cama. Selene caiu sobre o colo dele. Ele a segurou forte. — Você é bem leve — disse com os lábios colados ao seu pescoço. Selene sentia seu sangue ferver. Mas não era hora para isso. — Me solta! — exigiu. Ele continuava abraçado a ela. Seu coração batia alto, e ela não sabia dizer se era o dela ou o dele. De repente, ouviu passos na escada. Seu corpo inteiro ficou em alerta. — Fique quieta — ele sussurrou. — Não quer que alguém te veja assim comigo... ou quer? Ela ficou em silêncio, tensa. Pelo barulho, era uma empregada. Mas então uma voz feminina ecoou alta: — Mikael! Cadê você? Ele riu. Havia percebido seus pensamentos. A largou e, antes de sair pela porta, olhou para ela com desprezo. — Até logo, minha coelhinha. Selene respirou aliviada. Aquilo era pior do que ela poderia imaginar. Aquele homem a odiava. Ela sabia que sua mãe era m*l vista, mas nunca pensou que o filho de Richard a odiasse tão profundamente. Precisava entender o porquê. Foi até a mala em cima da cama. Procurou uma roupa qualquer. Deixou a toalha cair e viu seu corpo no espelho. Magra. Alta. Nunca se sentiu tão feia. Mas o que ele disse... aquilo a fez pensar. Sua mãe era belíssima, todos diziam isso. Vestiu um moletom e uma calça. — Minha mãe tem razão... só tenho isso na mala — resmungou. Saiu do quarto para procurar a mãe. A casa era enorme. Foi ao jardim, nada. Na piscina, ninguém. Escutou risadas se aproximando e tentou se esconder, mas não deu tempo. Era Mikael. E estava acompanhado de uma mulher. Ela era belíssima, com longos cabelos cacheados que iam até a cintura e um corpo de fazer qualquer uma se sentir uma pata feia. A mulher a encarou. — Mikael, essa é sua nova irmãzinha? Mikael a olhou como se ela fosse um pedaço de lixo. — Ela é filha da v***a do meu pai. A mulher riu. — Amor, não fale assim. Ela se aproximou de Selene. — Oi, sou Thamiris Chavier. Namorada do Mikael. O rosto de Selene queimou. Aquele bastardo tinha namorada... e se esgueirava no seu quarto? Mikael pareceu notar o que ela pensava. — Thami, esquece essa garota. Vamos nadar. Ele correu e pulou na piscina. Thamiris tirou o vestido. Era perfeita. Selene ficou sem graça. — Você não está com calor com esse moletom? — ela perguntou. Selene, sem jeito, respondeu que não. Entraram na piscina, rindo. Selene saiu correndo daquele inferno e entrou na casa. Até as empregadas a olhavam com desdém. Foi para um canto chorar. Sua mãe a encontrou. — Filha, pare com isso. Você não é criança pra ficar chorando por aí. Selene sabia que sua mãe não se importava, mas doía ouvir isso. — Mãe, por que eles te odeiam? A mulher pareceu surpresa. — Quem me odeia? Esses empregados, quem se importa com essa gentinha? — Estou falando do filho do Richard. O Mikael. — Ah... está falando daquele moleque? Filha, você se importa demais com aquele bastardo. Ele só tem raiva porque ocupei o lugar da mamãezinha dele. — Mãe... o que aconteceu de verdade? — Não tenho por que te responder. Vou conversar com Richard. Ele precisa dar um jeito nesse maldito filho dele. Como pode um homem de 23 anos atormentar uma moça ? — Mãe, não fale nada! — Por quê? Você vive dizendo que não te amo! Estou tentando te ajudar! — Mãe... deixa pra lá. Onde você estava? — Richard me chamou para conhecer os negócios dele. — você sabe quem é Richard filha?? Selene não sabia. Sua mãe trocava de homem como quem troca de roupa. Ela nunca decorava os nomes. — Filha... ele é Richard Hamthiford! Ela falou como se aquele sobrenome fosse ser importante para Selene. — Ele é um dos maiores empresários dos EUA. Tem um aglomerado de negócios... podre de rico. Eu só consolei um viúvo num momento difícil. — Mãe... pare com isso. Você acha bonito ser assim? Todos pensam que sou como você! Que vivo atrás de homem rico e vida fácil! Sua mãe lhe deu um tapa no rosto. — Nunca mais fale assim comigo! Você não sabe o que passei pra te criar. Você nunca teve pai! — Eu não tive pai porque você se n**a a me contar quem ele é! Você me n**a amor, me n**a até o sobrenome dele! Você é vazia, mãe! Por isso vive dormindo com qualquer um que aparece! Sua mãe tentou bater de novo, mas Selene foi mais rápida e correu. Sabia que ela não ousaria fazer escândalo na frente do novo amante. O resto do dia passou trancada no quarto. Não quis comer. Já era noite quando bateram na porta. — Não quero falar com você, mãe! — gritou. — Selene, sou eu. Richard. Vim te chamar para comer. A voz era gentil. Ela saiu e o acompanhou até a mesa. Sua mãe estava com cara de poucos amigos. Mikael, como sempre, sorria com a namorada. Sentou-se o mais longe possível. — Por que não tirou esse maldito moletom, Selene? — a mãe perguntou. Ela ficou vermelha, mas não respondeu. — Sua filha parece com você, Beatriz — disse Mikael. — Você acha? — Selene parece com o pai — disse a mãe. Selene nunca tinha ouvido isso antes. A olhou, surpresa. Mikael provocou: — Achei que você nem soubesse quem era o pai dessa criança. Silêncio. Richard bateu forte na mesa. — Mikael, não admito que fale assim com sua madrasta! — Você não tem direito de me dizer nada, pai. E eu menti? Todos sabem o tipo de mulher com quem você se casou. A namorada dele o cutucou. Selene percebeu que pai e filho não se davam bem. Ela entendia Mikael. Sentia o mesmo pela própria mãe. O jantar continuou tenso. — Selene, seu nome é muito bonito — disse Richard. — Obrigada. — O nome da minha filha tem origem grega — se intrometeu a mãe. — Na mitologia, Selene era a deusa da lua. — Quem deu esse nome pra ela? — perguntou Richard. — O pai dela. Selene teve um sobressalto,ela sentiu que deveria perguntar, sabia que esse era o momento. — Mãe... ele era grego? A mulher hesitou, mas respondeu: — Sim, era. A empregada trouxe a sobremesa, encerrando a conversa. Selene tentou falar com a mãe depois, mas ela se trancou com Richard. Selene subiu para dormir. Quando estava na escada, Mikael voltava. Havia deixado Thamiris em casa. — Coelhinha... contou pra sua mamãezinha nossa conversa? — Eu não disse nada! Mas ela devia saber que você é um grande bastardo! Ele riu e a puxou. — Sério? Você pensa isso de mim? — Você não é normal! Me deixa em paz! Não tenho culpa das escolhas do seu pai! Ele apertou o braço dela com força. — Por causa da prostituta da sua mãe... vi a minha morrer de dor! — Ai! — Selene gritou. — E se for preciso, vou fazer vocês duas pagarem! Um grito ecoou. Richard. — Solte ela, Mikael! — Se eu não soltar, vai fazer o quê, senhor Richard? O homem desceu a escada e deu um tapa no filho. — Você não tem direito de machucar essa criança! Mikael levantou a mão para revidar, mas Selene entrou na frente. O tapa acertou seu rosto. Ela gritou de dor. Mikael congelou. Selene levou a mão ao rosto e subiu correndo, deixando para trás dois homens em guerra. Naquele instante, ela soube: tudo estava apenas começando.
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