Pré-visualização gratuita "O Início Do Meu Inferno"
O verdadeiro inferno de Selene começou no dia em que sua mãe decidiu se casar novamente. Não houve conversa, não houve escolha. Apenas uma ordem gritada do batente da porta: — Arruma tuas coisas, a gente vai morar com ele.
Aquele homem.
Selene tinha 19 anos, mas já entendia o suficiente da vida para saber que nada daquilo seria bom. Sua mãe, uma mulher que sempre usou a beleza como arma, já estava com ele fazia tempo. Ela saía quase todas as noites, voltava de madrugada, com cheiro de álcool, batom borrado e os olhos vermelhos de tanto chorar . Selene fingia dormir. Sempre fingia. Aprendeu desde cedo que esperar amor de quem nunca te amou era perda de tempo.
Ela nunca conheceu o pai. Era ela e a mãe, em um laço mais de sobrevivência do que de carinho. E mesmo assim, havia momentos em que Selene acreditava que tudo aquilo era um esforço da mãe pra dá-la uma vida melhor. Ilusão. Pura ilusão.
Naquele dia, o motorista já esperava na frente de casa. A mãe ria alto, jogava o cabelo loiro pros lados enquanto empurrava as malas. O homem que a esperava devia ter muito dinheiro. Selene percebeu isso nas roupas novas que ganhava sem motivo, nos perfumes caros e no salto da mãe que batia firme no chão.
Selene entrou no carro em silêncio, com um moletom largo escondendo o corpo e os cabelos castanhos caídos no rosto. Sentia vergonha, medo e uma sensação de que a vida, a partir dali, não lhe pertencia mais.
— Pra onde estamos indo? — perguntou, quase num sussurro.
— Pra um palácio, minha filha! Uma casa maravilhosa no centro. Você vai amar. Mamãe pensou em tudo!
Pensou pra ela. Não pra mim, Selene quis dizer, mas permaneceu calada.
A casa era mesmo linda. Enorme, cercada de jardins, portões de ferro, colunas brancas. Mas Selene sentiu uma energia fria, como se aquele lugar a repelisse. Seus olhos azuis doíam sob o sol forte. Queria fugir. Sua mãe gargalhava.
— Mãe... a gente pode ir embora? Não gostei daqui.
— Cala a boca, Selene! Aqui é teu novo lar. Vai tratar aquele homem como um pai. Ouviu bem? Um pai!
Pai?
A mãe já estava louca. Selene sabia disso. O homem que apareceu na porta tinha uns 47 anos, bonito, alto, sério. Ele sorriu ao ver a mãe e ela correu, se jogou nos braços dele, beijou-o como uma adolescente apaixonada. Selene queria sumir.
— Richard, essa é minha filha, Selene.
— Olá, Selene. Espero que se sinta em casa.
— Oi — ela respondeu, quase sem voz. Sua mãe a cutucou com o cotovelo.
— Ela é tímida. Mas vai se soltar.
Richard não pareceu se importar. Mas Selene sim. Sentia-se esmagada pelo olhar dos empregados, pelos rostos que julgavam, que analisavam, que diziam em silêncio: você não pertence a esse lugar.
Enquanto subia para conhecer o novo quarto, algo chamou sua atenção. Uma janela do segundo andar. Um homem. Um olhar. Ele a encarava como se quisesse atravessá-la com os olhos. Tinha olhos cinzentos, cabelos loiros, uma presença sombria que fez Selene estremecer.
No corredor, havia um quadro: uma mulher linda, sorrindo com um menino no colo. Richard notou o interesse de Selene.
— Essa é minha falecida esposa. E esse é nosso filho, Mikael.
Era ele. O da janela. O que a olhou como se ela fosse lixo.
O quarto era espaçoso, quase um mundo inteiro. Selene nunca teve algo assim. A mãe deu um beijo falso na bochecha dela.
— Se comporta. Vou sair com Richard. Aproveita o quarto.
E foi. Sumiu com ele. Selene sentou na cama e respirou fundo. Queria chorar, mas nem isso conseguia. Sentia-se vazia. Perdida. Sozinha. Entrou no chuveiro e deixou a água cair, tentando lavar a alma. Tentando entender como a vida podia ser tão c***l.
Foi quando ouviu um barulho. Não teve tempo de reagir. Ao sair do banheiro, com a toalha no corpo, foi puxada com violência. Caiu na cama. Um corpo forte a prendeu. Mãos seguraram seus braços. Estava tremendo. Paralisada.
Era Mikael.
Ele estava em cima dela. Os olhos azuis, frios como gelo, a encaram de perto. O perfume dele invadiu seus sentidos. Era lindo. Mas era também perigoso. Só de olhar, Selene sabia que ele era diferente.
Ele não disse nada por um momento. Apenas a observava com desprezo, como se ela fosse algo sujo.
Então falou:
— Antes era uma v***a. Agora meu pai traz duas pra casa?
A voz dele foi como uma facada. Cada palavra carregada de veneno.
Selene quis gritar, empurrá-lo, correr. Mas não conseguiu. O medo paralisava. As palavras dele grudaram nela como correntes. Ela soube, naquele exato instante, que aquele lugar não era um lar. Era um cativeiro.
Seu inferno estava apenas começando.