Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – A gaiola dourada
LAVÍNIA NARRANDO
Semana passada completei dezoito anos.
A data que, durante tanto tempo, imaginei que marcaria o início da minha liberdade acabou sendo apenas mais um dia comum.
Meus pais compraram um bolo pequeno de chocolate, o meu favorito. Minha mãe preparou um jantar simples, mas feito com todo carinho do mundo, enquanto meu pai voltou mais cedo do trabalho para que pudéssemos comemorar juntos.
Cantamos parabéns.
Só nós três.
Como em todos os aniversários da minha vida.
Sorri durante as fotos, agradeci pelos presentes e abracei os dois com todo amor que existia dentro de mim. Eu realmente os amava. Nunca tive dúvidas disso.
Meu pai era um homem honesto, trabalhador e fazia de tudo para que nada faltasse dentro de casa. Passava o dia inteiro dirigindo como motorista para sustentar nossa família.
Minha mãe era o retrato da delicadeza. Nunca levantava a voz, nunca reclamava da vida e sempre encontrava um jeito de fazer nossa casa parecer um lar.
Eu tinha tudo…
Menos liberdade.
Enquanto outras garotas da minha idade já trabalhavam, faziam faculdade, saíam com amigos e viviam suas próprias histórias, eu ainda precisava pedir autorização para absolutamente tudo.
Nunca fui ao cinema com amigas.
Nunca dormi na casa de ninguém.
Nunca fui a uma festa.
Nunca viajei sem meus pais.
E o baile da comunidade…
Ah…
O famoso baile do morro.
Desde pequena eu observava as meninas comentando sobre as músicas, as roupas, as luzes e toda aquela animação.
Eu sempre quis conhecer.
Nem que fosse por apenas uma noite.
Mas meu pai nunca permitiu.
— Enquanto você morar debaixo do meu teto, baile é lugar que você nunca vai pisar.
Essa frase ficou gravada na minha cabeça.
Assim como outra.
— Lugar de mulher de família é dentro de casa.
Toda vez que ele dizia isso, eu sentia vontade de responder.
Perguntar em que século ele vivia.
Mas engolia as palavras.
Porque discutir nunca adiantava.
Minha mãe apenas abaixava a cabeça e concordava.
Sempre.
Ela nunca enfrentava meu pai.
Nunca.
Às vezes eu me perguntava se ela realmente concordava com ele ou se apenas tinha aprendido que era mais fácil permanecer em silêncio.
Eu a entendia.
Ela viveu assim durante anos.
Mas eu…
Eu não queria aquele destino para mim.
Completei dezoito anos.
Agora sou maior de idade.
Posso tomar minhas próprias decisões.
Ou pelo menos deveria poder.
Chega de viver presa.
Chega de depender deles para tudo.
Quero trabalhar.
Quero conhecer pessoas.
Quero fazer amigos.
Quero descobrir quem eu sou além da filha perfeita.
Quero viver.
Mesmo que meu pai não aceite.
Mesmo que ele fique bravo.
Mesmo que nossa relação mude.
Porque, se eu continuar aceitando todas as regras sem questionar…
Vou envelhecer dentro dessa casa sem nunca saber como é o mundo lá fora.
Foi pensando nisso que adormeci naquela noite.
Mas meus pensamentos foram interrompidos cedo demais.
— Lavínia!
A voz da minha mãe ecoou pelo corredor.
Virei para o outro lado da cama, abraçando o travesseiro.
Ainda estava escuro.
— Filha… já são seis horas.
Resmunguei alguma coisa incompreensível.
— Levanta, menina.
Silêncio.
Dois segundos depois senti uma sequência de cócegas no pé.
— Mãããe!
Puxei a perna rapidamente enquanto ria.
— Para!
Ela gargalhou.
— Bora, preguiçosa. Você vai se atrasar.
Abri os olhos ainda sonolenta.
Minha mãe continuava exatamente como sempre.
Com aquele avental florido, os cabelos presos em um coque e um sorriso que parecia iluminar qualquer ambiente.
— Café já está na mesa.
— Bom dia para a senhora também…
Falei fingindo indignação.
Ela deu um beijo na minha testa.
— Bom dia, minha princesa.
Sorri automaticamente.
Era impossível ficar brava com ela.
Levantei da cama, caminhei até o banheiro e liguei o chuveiro.
A água morna escorria pelo meu corpo enquanto eu encarava o reflexo no espelho embaçado.
Dezoito anos.
Será que agora minha vida realmente iria mudar?
Ou eu continuaria vivendo como uma passarinha presa dentro de uma gaiola?
Depois do banho, coloquei o uniforme da escola.
Camisa branca.
Calça jeans azul-marinho.
Tênis branco já um pouco gasto pelo tempo.
Prendi meus longos cabelos castanhos em um r**o de cavalo e passei apenas um hidratante labial.
Nunca fui muito fã de maquiagem.
Desci as escadas atraída pelo cheiro de café fresco.
Minha mãe já havia colocado tudo sobre a mesa.
Pão francês quentinho.
Ovos mexidos.
Café com leite.
E um pedaço do bolo que sobrou do meu aniversário.
Meu pai já estava sentado.
Lendo as notícias no celular enquanto tomava café.
— Bom dia.
— Bom dia.
Respondi.
Ele apenas levantou os olhos por alguns segundos.
— Hoje eu vou te buscar na saída da escola.
Revirei os olhos discretamente.
— Pai… eu consigo voltar sozinha.
— Não.
Foi uma resposta seca.
Sem espaço para discussão.
Respirei fundo.
Ainda não era o momento.
Mas seria.
Logo seria.
Terminei meu café, peguei minha mochila e dei um beijo na minha mãe.
— Tchau.
— Deus te acompanhe, filha.
Meu pai pegou a chave do carro.
— Vamos.
Suspirei.
Até para ir à escola eu precisava de escolta.
Enquanto o carro descia as ruas estreitas do morro, observei pela janela a comunidade despertando.
As crianças corriam pelas vielas com mochilas nas costas.
Os comerciantes levantavam as portas de aço de seus estabelecimentos.
O cheiro de pão assado se misturava ao som distante do funk que ainda tocava em alguma casa.
As meninas da minha idade caminhavam em grupos, rindo alto, conversando sobre namoros, festas e planos para o fim de semana.
Eu apenas assistia.
Como alguém olhando a vida acontecer através de um vidro.
Talvez…
Depois dos meus dezoito anos…
Isso finalmente estivesse prestes a mudar.