Era muito bom vê-la assim tão descontraída, como raras vezes eu a via. Como sempre,
Stela comprava um belo bolo e soprávamos as velinhas. Pelo menos este ano ela estava feliz,
e este, com certeza, seria o presente que eu, no meu mais profundo desejo, gostaria de poder
lhe dar. Na verdade, era um bom presente para mim. Apesar de nunca confirmado, eu sempre
soube do carinho especial que ela nutria por esta cidade. Devia ter boas recordações daqui.
Stela já havia morado em Nova Iorque. Eu era pequena quando estive aqui com mamãe. Tudo
de que me recordo são das nossas brincadeiras no Central Park, de botões de rosas brancas,
de um sorriso feliz estampado em seu rosto constantemente triste. Como este de agora. Se ela
havia decretado uma trégua, eu a aceitaria de bom grado. Estava cansada de brigar.
— Nina, apesar de o aniversário ser meu, tenho um presente para lhe dar — disse com o
olhar brilhando.
— Pode falar. — Stela nunca foi de acertar no quesito “presentes”, portanto, eu não
estava nem um pouco curiosa.
— É uma notícia que você espera já faz algum tempo…
— O que foi?
— Não vamos deixar Nova Iorque. Eu decidi.
Meu peito começou a inflar de euforia, mas segurei a onda.
— Posso participar do baile de formatura? — permanecia incrédula.
— Claro que sim. Por que não?
— Quando acabar o ano posso me candidatar a algumas universidades? — desconfiada,
tornei a indagar.
— Claro, filha!
— E se me aceitarem? Aí não vou poder mais mudar de cidade por um bom tempo,
quanto mais de país, mãe! — As palavras saíram quase como um vômito. Eu estava acelerada.
— É evidente que não! Você terá de concluí-la para que possamos pensar em nos mudar
de novo, não é mesmo? — ela deixou brotar um sorrisinho torto. — Além do mais, é óbvio
que vão te aceitar. Você é uma aluna excelente! Com certeza também será uma excelente
psicóloga.
Alguém tinha de me beliscar. Eu teria uma vida normal?! Poderia fazer planos para o
futuro e não apenas viver o presente? Estava louca de felicidade, de vontade de sair correndo
para a escola e contar para Melly, para o mundo inteiro. Antes que eu saísse da sala dando
cambalhotas de alegria, minha mãe fez uma cara brava:
— Você está esperando alguma correspondência?
— O quê?! — pronto, pensei, estava tudo acabado. Se ela leu alguma correspondência,
estaria uma fera comigo por ter lhe escondido que eu estava procurando emprego.
— Você não tem nada a me dizer? — tornou a indagar com um olhar que eu não
reconhecia.
— Bem, mãe. Quer dizer, é que…
— Estou ouvindo — respondeu firme.
— Eu te escondi uma coisa.
É claro que eu não ia mencionar sobre a queda do andaime.
— O que foi?
— Na sexta-feira eu preenchi alguns formulários de empregos em diversas lojas de
Manhattan. Ontem, quando me apresentei numa loja de roupas, a gerente me contratou de forma
imediata. Mas não deu certo!
— Eu sei.
— Ãh?! Sabe? Como? — Parei um minuto. — Já sei! Foi Melly quem lhe contou.
— Nada disto. Nina, você pode até omitir coisas mais íntimas para mim, mas não se
esqueça de que mente muito m*l. Só sei que desconfiei. Primeiro porque ontem você não
respondeu às minhas perguntas com objetividade, e segundo porque Melly sem querer ligou
para cá procurando por você.
Droga! Tinha que ter contado para Melly logo de cara.
— Desculpa, mãe.
— Tudo bem, filha. — Seu semblante melhorara. — Eu sei que também tenho a minha
parcela de culpa nesta história.
— Eu quero uma vida diferente, mãe. Quero conhecer pessoas novas e não apenas os
colegas do colégio. Acho que nossa vida diferente fez de mim uma garota estranha. Eu sinto
que tem algo errado em mim, mãe.
— São os hormônios, filha. Na sua idade eu também era cheia de dúvidas, também queria
coisas diferentes.
— Não é isto… É que eu me sinto diferente dos meus colegas e…
— Isso passa quando chegar a hora! — interrompeu-me bruscamente. Sua resposta
áspera escondia os olhos inchados, cheios de lágrimas. Ela os secou, com o pretexto de ajeitar
os cabelos, bem rareados com o passar dos anos. — Tome! Esta carta chegou hoje à tarde.
Puxei o envelope, engoli o texto impresso e em questão de segundos já estava com um
sorriso escancarado.
— Eles me aceitaram, mãe!
— Eu já desconfiava, filha. — Stela retrucou orgulhosa. — Mas você não acha que
trabalhar à noite pode prejudicar os seus estudos? Vai acabar ficando muito cansada. Além
disso, você não precisa, Nina.
— Eu sei, mãe. Mas eu quero. Nem que seja por pouco tempo — explicava agitada. —
Trata-se de uma loja de departamentos que recebe montes de clientes estrangeiros. O fato de
eu saber muitas línguas ajudou bastante. Fui escalada para ficar na área dos livros, CDs e
DVDs, que era a que eu mais queria.
— Eu não disse que você acabaria me agradecendo por termos morado em tantos lugares
diferentes? — ela me deu uma piscadela. — Tudo bem. Que assim seja e que Deus te proteja.
— Mãe, eu não estou indo para a forca! Eu só vou trabalhar. Quem sabe o fato de eu lidar
com pessoas de todos os cantos do mundo já não seja um estágio para a minha psicologia?
— É. Pode ser. Vamos ver.