Capítulo 6

1886 Palavras
— Se for para começar hoje, tudo bem, queridinha. Senão pode esquecer. Temos pressa! — assinalou a gerente com uma voz arrastada e cara de zebra infeliz. — Sem problema. Posso começar agora mesmo! — concordei satisfeita. Liguei para Stela e disse que chegaria um pouco mais tarde porque sairia com algumas amigas. De início ela não gostou da ideia, mas como era sábado e ela estava trabalhando, um sentimento de culpa deve ter batido em sua consciência. Só comentaria sobre o emprego com minha mãe caso fosse contratada. Como ela chegava do trabalho por volta das 20h, inventaria uma série de falsos grupos de estudo para colocar em dia a matéria que havia perdido. Antes das dez já estaria em casa, e com isto Stela de nada desconfiaria. Domingo, no meu segundo dia de experiência, as coisas na loja não iam como eu imaginava. O trabalho era maçante e, pelo que ficara óbvio, as vendedoras estavam muito insatisfeitas. Era só a gerente virar as costas que elas logo começavam a reclamar de tudo, em especial do barulho e da queda vertiginosa das vendas que ocorreu assim que o pessoal da firma de limpeza de fachadas instalou o andaime para a lavagem das pastilhas do prédio. Queixavam-se da gerente exigente demais, das clientes metidas e insuportáveis, assim como da baixa remuneração já que haviam reduzido a porcentagem de cada venda. Aliás, este era um ponto importante para mim. Percebi naquela hora que eu não teria porcentagem alguma. Minha função era coadjuvante ao trabalho daquelas vendedoras infelizes. Em que furada eu havia me metido! Gemia absorta em meus pensamentos quando uma voz aguda abriu a porta da loja com um grande: “Oiiiiii, Nina!” — Melly, o que você está fazendo aqui?! Como eu estava feliz por ela me tirar alguns minutos daquele ambiente enfadonho! — Vim fazer umas comprinhas! — Pra variar, ela exibia um sorrisinho travesso. Num ataque inesperado, uma das vendedoras já estava entre nós duas, como um urubu pousando avidamente em sua carniça. — Posso ajudá-la? — perguntou meio em dúvida. — Não. Quero dizer… é brincadeira. Eu só vim dar um alô a minha amiga — Melly respondeu meio sem graça. — Seja breve. Você sabe que a gerente não permite visitas durante o expediente — ordenou-me a vendedora com rispidez. Seu olhar de reprovação chegava a queimar. — Ok. — Sua mãe sabe que você está trabalhando aqui? Aiii, o que foi?! — o gritinho de Melly saiu fino quando belisquei o seu braço disfarçadamente mas com vontade. — Com licença, é só um minuto — aproveitando-me do fato da gerente ter saído e antes de que qualquer vendedora pudesse abrir a boca para me impedir, eu já estava do lado de fora da loja trazendo Melly pelo braço. — Melly, você está maluca? Elas acham que eu já tenho dezoito anos! Se descobrirem sobre a minha verdadeira idade, serei despedida na mesma hora! — Grande coisa! Vi sua cara de total desânimo lá dentro. — É verdade — soltei —, mas vou esperar pelo menos um mês para ver se as coisas melhoram e para ganhar um pouco de experiência — argumentei sem qualquer convicção. Acho que nem Melly consegui enganar. — Sei. — E o que você veio fazer aqui afinal? — Bem, é que eu gostaria de saber o que você acha de eu fazer clareamento nos meus dentes. — E, sem rodeios, exibiu um amplo e artificial sorriso. — Ãh?! — Não acreditei que ela tinha se dado ao trabalho de vir até aqui só para me fazer esta ridícula pergunta. Identifiquei uma característica em Melly inicialmente bem disfarçada em sua fisionomia displicente. Melly era ansiosa, e muito. A ponto de não aguentar esperar um único dia sequer para fazer a tal “importantíssima” indagação. — Meus pais acham desnecessário, mas eu estava lendo aquela revista de “Saúde e Estética” e… Enquanto Melly falava sobre seus planos de estética, algo inusitado começou a acontecer. Já não conseguia ouvir um som sequer: um silêncio aterrador preenchido por um ruído de fundo. A claridade havia desaparecido. — Melly, eu preciso me sentar! — minha voz saiu fraca. — Que foi, Nina? Você está pálida e… suando frio? — Eu estou um pouco tonta — sibilei. Já sentia o calafrio se espalhando pelo meu corpo como sugadoras ondas eletromagnéticas. — Venha, vamos sair daqui. Vou te levar para dentro da loja — disse Melly apressada. — Não consigo, está tudo escuro e minhas pernas estão bambas… — E, antes que eu acabasse de falar, caí sobre a calçada. Meu tombo aconteceu sincronizado com um estrondo. — Nãããooo!!! Horrorizada, Melly deu um salto para trás. Seu berro estridente paralisou olhos e pernas das pessoas que passavam. Zonza, ainda tive forças para olhar para cima e ver o que o destino me reservava: um gigantesco andaime vinha despencando e cairia acelerado diretamente em cima de mim. Eu seria esmagada! Tentei esboçar algum movimento, mas nada. Nem um músculo se moveu. Tentei novamente. Em vão. Nada respondia. Braços e pernas inertes. Todo o meu corpo formigando. Fechei os olhos, cerrei os punhos e, com muita dificuldade, obriguei-me a tragar oxigênio. Bloqueada. A passagem de ar para os meus pulmões estava totalmente vetada. Eu estava me asfixiando. Ar. Eu precisava respirar. Quase perdendo a consciência, concentrei todas as minhas forças para um último e decisivo impulso. Um, dois, três… — Ah!! Senti um forte puxão pela cintura, como se eu fosse abruptamente lançada em outra direção. Novamente, foi tudo num piscar de olhos. Quando dei por mim, estava com o corpo todo retorcido a alguma distância das vigas metálicas e dos enormes pedaços de madeira espatifados. Miraculosamente, havia saído ilesa daquela situação aterradora. O andaime fez curva ao cair ou eu tinha conseguido reunir forças de algum lugar dentro de mim? Meu estado de torpor só conseguiu captar as expressões de pânico e incompreensão das pessoas próximas a mim. Melly estava boquiaberta, em estado de choque, atrás de um grupo de pedestres também apavorados. Ainda caída e atordoada, investiguei ao meu redor algo que pudesse me dar alguma explicação. Nada. Nem uma pista. Mas o calafrio continuava. Então me forcei a encontrar o que nem eu sabia que deveria procurar. Em um rápido passar de olhos, vasculhei cada canto, cada movimento, cada pessoa, o que já havia ficado muito difícil, pois uma aglomeração de curiosos se formara ao meu redor. Nada de novo. Então instintivamente passei minha atenção para os semblantes dos transeuntes. Foi quando me deparei com um par de olhos absurdamente azuis por baixo de grossas e negras sobrancelhas que me fariam perder o chão, se eu já não estivesse deitada sobre ele. Era de um azul-turquesa vivo incomum, muito brilhante e tão penetrante quanto um tiro de fuzil em um coração sem um colete de p******o. Seus olhos, no meio de tantos outros, fulguravam para os meus. Sob tensão e constrangimento, desviei meu olhar com rapidez, e quando resolvi encará-los novamente eles já não estavam mais lá. — Nina! Nina! Você está bem? — descontrolada, Melly corria ao meu encontro. — Sim, estou bem — respondi irritada, levantando-me do chão aos tropeços. — Você está chateada? Você deveria estar agradecida aos céus! — ela gritava, num de seus raros momentos de aspereza. — Desculpe, Melly. É que estou um pouco tonta, não sei bem… — Eu estava era ficando preocupada. Não poderia ser só azar. Tinha que haver alguma explicação para todos aqueles “quase” acidentes em minha vida. Stela com certeza deveria saber de alguma coisa, mas se eu resolvesse perguntar, obviamente ela perceberia que algo havia acontecido e com incrível rapidez estaríamos mudando para outra cidade ou país. As vendedoras saíram da loja e, em vez de perguntarem sobre o meu estado, me olhavam com expressão raivosa. — Pronto! — resmungava uma delas. — Era só isto que nos faltava para acabar de vez com as vendas do mês! Uma sanguinária manchete de jornal acontecendo bem em frente à nossa loja! Indignada com a reação delas, sacudi a sujeira em minhas roupas, ergui a cabeça e respondi quase rosnando: — Falem m*l, mas falem de mim! Com o meu espetáculo, quem sabe agora as suas péssimas vendas não aumentam, hein? De qualquer forma, não estarei aqui para ver. — Você não pode sair assim! — berrou outra delas. — Não posso? Então observe! — E fui embora com Melly, sem olhar para trás e com a sensação de alívio me enchendo o peito. O celular começou a tocar e com ele minha intuição. Sem olhar o visor, fiz um pedido imediato à Melly: — Melly, posso te pedir um favor muito importante? — Claro. O que foi? Você ainda está tonta? Quer que eu atenda o celular para você? — perguntou preocupada. — Não! — rugi sob tensão. — Desculpe. Eu estou bem… Mas, por favor, não conta nada do que aconteceu para a minha mãe, ok? O aparelho berrava nas minhas costas. — Mas por quê? — Ela olhava desconfiada para a minha mochila. — Melly, ela só tem a mim e é uma pessoa muito nervosa e preocupada — tentei explicar enquanto pegava o impaciente objeto. — Se eu contar tudo o que acontece comigo, ela vai pirar, arrumar as nossas malas e novamente iremos nos mudar. Você me compreende? Atônita, Melly não me respondeu. — O que foi, mãe?… Sim, está tudo bem, por que não estaria?…Tá bom. Tá bom, eu ligo. Já estou indo. Eu também te amo. Beijo. Melly me observava assombrada. — Caramba! É por isto então que vocês se mudam tanto? — Infelizmente, sim. Quer dizer, também por conta deste trabalho louco dela, mas eu tenho certeza que o principal motivo sou eu. Ela tem obsessão pela minha segurança e, pra variar, eu sou muito azarada, como você acabou de perceber. Ela pira! Sabe como é, né? Nós não temos família. Não temos mais ninguém… — Puxa! — suspirou ela. — Mas, peraí, como ela ficou sabendo? Quero dizer… como ela soube que você acabou de passar por uma situação de perigo? — questionou desconfiada. — Nós somos muito ligadas… eu acho. — Você quer dizer que vocês conseguem pressentir que uma ou outra se encontra em perigo? — Eu não. Só Stela consegue. — Uau! — Pois é. Um silêncio. — Tudo bem, Nina. Eu não vou contar nada para a Dona Stela. — E nem para ninguém, tá? Vai que cai nos ouvidos dela por meio de outra pessoa e… — Ok. Já entendi. Bico calado — completou Melly dando um selinho em seus dedos cruzados. Caminhei para casa brigando com meus neurônios para entender como eu poderia ser tão desafortunada. Entristecida com o ridículo fracasso do meu primeiro emprego e da minha constante má sorte, acabei esquecendo completamente da data especial. Era aniversário de Stela. — Esqueceu da sua mãezinha predileta? — ela me recebeu com um largo sorriso amarelo no rosto. — Puxa, mãe. Desculpa. Parabéns! — Tudo bem. — É bolo de morango com chocolate? — tentei disfarçar. — Claro. O nosso preferido! — disse satisfeita. Na verdade era o meu sabor predileto, e não o dela.
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