Capítulo 5

1275 Palavras
Peter, Frederic e Will. Animados ois e olás foram emitidos em poucos segundos, o mesmo tempo que gastei para fazer o check-list dos garotos. Phillip era magro, de estatura mediana, cabelos escuros enrolados e muito sorridente. Peter era bem pequenino e tímido. m*l conseguiu olhar para mim. Frederic era gordinho e meio bobalhão. Por fim havia o Will. Ele era moreno claro, olhos escuros e brilhantes. Parecia o cérebro do grupo. Compenetrado, falava pouco e ouvia toda a conversa com muita atenção. Gostei dele. O professor de História entrou bufando pela sala e bateu a porta por trás de si. Parecia muito m*l-humorado e não era um gato como Melly havia descrito. Pelo contrário, tinha uma enorme cara de buldogue. Já sabia que não poderia confiar muito nos gostos de minha nova colega. O professor Clooney Stamford, apesar de sua aparência nada simpática, tinha uma dinâmica incrível e, pelo que se podia notar, era bastante intolerante com qualquer um que atrapalhasse seu método de ensino. Em outras palavras, ninguém podia abrir o bico. Ao término da aula o sinal tocou e novamente senti novo cutucar em meu ombro esquerdo. — Nina, você vai ficar na nossa turma? — Phillip parecia bem animado. Animado até demais. — Acho que sim. Depende do emprego de minha mãe — hesitei. Apesar de acostumada a ficar só, estava começando a gostar do fato de colegas quererem a minha presença. — Tomara que sim! — Ele tinha um olhar vibrante. — A gente se vê! — Ok! — Parece que o Phillip gostou de você, Nina! — Melly soltou um longo suspiro assim que ele saiu. — Não é nada disso! — Hum… — ela retrucou com um sorrisinho malicioso. Lógico que eu havia percebido o olhar interessado de Phillip, mas tentei disfarçar. Poderia ser uma excelente aluna, mas no quesito garotos e flertes meu histórico era uma negação. — Tomara que apareçam mais gatos por aí… Os garotos daqui são tão pouco interessantes! — Como assim? Não está todo mundo aí? — rebati. — Pensei que tinha sido a última a me apresentar. — Negativo. Dois deles chegaram na segunda-feira, mas ainda faltam outros dois — completou Melly. O dia seguinte foi bem mais tranquilo. Minha ansiedade havia desaparecido completamente só em saber que eu não seria a única aluna nova. Que coincidência ter mais quatro alunos novos começando o ano escolar na mesma semana que eu! Ao chegar cedo para a aula de Matemática II, encontrei Melly conversando com algumas garotas. — Nina, essas são Susana e Clarice. — Melly assumira um cômico ar formal. — Olá, tudo bem? — Oi, Nina. Como consegue estar adiantada se viaja tanto? — perguntou-me a tal Clarice com um misto de curiosidade e inveja indisfarçável. Era uma garota magra, muito pálida, de pescoço comprido e cabelos finos e ralos. Nem vinte e quatro horas se passaram e todo mundo já sabia da minha ridícula vida. Que grande fofoqueira resolvi ter como amiga! — Minha mãe me matriculou cedo e, por sorte, sempre consegui acompanhar e… — Foi o que eu disse para elas! — interrompendo-me, Melly apressou-se em se explicar, ao ver que eu não havia gostado nadinha da fofoca. — E que você é muito inteligente também! — terminou quase em um murmúrio ao constatar que meu olhar a fuzilava de maneira impiedosa. — Estávamos aqui confabulando se os novos alunos serão bonitos. — Susana mudou de assunto, comentando com um risinho maroto. Ela era o exato oposto de Clarice: corpulenta, exibia volumosos cabelos louros sobre um rosto e uma língua igualmente rechonchudos. — O garoto sardento tem até um bom porte, mas não é interessante… — Ah! Eu gostei — intrometeu-se Melly, toda animada. — Já a aluna nova… — ficou evidente que não era a mim que ela se referia — é muito bonita — concluiu Clarice. — Bonita é Nina. — Bom, pelo menos não passei despercebida. — A loura é exótica, ou, no mínimo, oferecida — alfinetou Susana, a líder da dupla. — Susana — sondei tentando ser simpática —, quem são os alunos novos que chegaram? — Melly não te mostrou? — Havia reprovação em sua voz. — Não. — Bem, é que eles são um pouco estranhos… Tsc! — e estalou a língua com desdém. — Estranhos? — É que parece que eles se conhecem, mas que não gostam um do outro. Parece que evitam até mesmo se olhar e, quando isto acontece, eles desviam o rosto um do outro. Normalmente é o contrário, né? Os alunos novos costumam se unir, como se fosse uma defesa contra toda a turma nova… sei lá! — Por detrás da malícia, Susana foi muito arguta em sua observação. — Mas tem mais — Clarice atropelou a conversa. — Mais como? — interroguei desconfiada. — Eles também não são novos como nós, quero dizer, eles parecem ter uns vinte anos de idade, e não entre dezessete e dezoito como a maior parte da turma. Concordando com o comentário da colega e elevando com animosidade seu nariz, Susana me apontou os novos alunos com um revirar de olhos. Parei então para observá-los: a garota estava sentada mais à frente, era loura, de cabelos curtos, lisos e espetados. Não parecia ser alta e usava roupas muito justas que acabavam evidenciando um corpo muito bem feito. Já o garoto não era realmente bonito, mas também não era f**o como o haviam tachado. Lotado de sardas no rosto, que me fizeram lembrar Melly de imediato, ele era ruivo e de porte atlético. Parecia ser bem reservado, bem na dele. Enquanto eu o observava, tive a impressão de que, por um breve instante, a garota loura me fuzilou com um olhar furioso. Intimamente concordei com o que foi bem observado por Susana. Todo novato, por se sentir um peixe fora d’água, costuma se aproximar de outro aluno novo e, desta forma, ele não se sente tão deslocado. Disto eu entendia muito bem. Mas, para contradizer as regras, eles estavam bem distantes entre si. — E também não são nada sociáveis. Will tentou puxar conversa com eles, mas não deu em nada. São calados como túmulos! — acrescentou Clarice. Pelo pouco que pude observar, se houve uma pessoa com uma conversa que parecia ser interessante até aquele momento, esta pessoa era Will. — Como se chamam? — continuei o interrogatório. — O ruivo chama-se John Bentley e a loura Samantha Wonders. — Os meninos estão em polvorosa! — grunhiu Susana para mim. — Também, com este tipo de roupa… Está quase tudo de fora! — disse fazendo uma careta e apontando para o corpete superjusto e decotado que a loura vestia. — Hum — suspirei, em parte feliz por não ser mais o centro das atenções, e em parte infeliz, por me achar f**a diante daquela garota tão hipnotizante. O final de semana chegou e com ele um vazio se fez presente dentro de mim. Queria conhecer pessoas novas e, principalmente, estava desesperada para ter os finais de semana preenchidos com outras coisas que não apenas ficar em casa estudando ou conversando com Stela. Em outras palavras: queria ter mais liberdade! Aproveitando-me do fato de que Stela estaria trabalhando naquele sábado, e sem que ela soubesse, comecei a procurar por empregos de expediente reduzido, de preferência noturno. Assim eu poderia ir à escola de manhã, fazer meus deveres e estudar à tarde e trabalhar à noite. Para minha surpresa, consegui de imediato um emprego provisório em uma boutique bem chique de roupas femininas na quinta avenida. Como tudo que vem muito fácil…
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