fragmentos de confiança

1102 Palavras
"Pode ser um rato," respondeu a segunda voz, com desdém. Os passos diminuíram, mas Lia não ousou se mover. Seu corpo estava tensionado, seus ouvidos atentos a cada som. Ela sentia a respiração de Dante perto de seu ombro, rápida e entrecortada. "Vamos, não temos tempo para perder aqui," disse a primeira voz novamente. Os passos começaram a se afastar, o som das botas diminuindo até desaparecerem na distância. Lia não se mexeu imediatamente; sabia que o silêncio poderia ser enganoso. Após alguns minutos que pareceram uma eternidade, ela finalmente soltou um suspiro controlado. "Você quase nos entregou," sussurrou, a voz afiada como a lâmina de sua faca. "Eu sei," Dante respondeu, baixinho, a vergonha evidente em seu tom. "Desculpe." Lia não respondeu de imediato. Ela empurrou a a******a do buraco com cuidado e espiou para fora. O corredor estava vazio. Os saqueadores haviam seguido em frente. "Está claro," disse ela, rastejando para fora. Dante a seguiu, tentando não parecer tão desajeitado quanto se sentia. --- **O Alívio Temporário** Eles emergiram em uma área mais ampla, cheia de restos de veículos enferrujados e pilhas de escombros. Lia se abaixou atrás de um carro destroçado e gesticulou para que Dante fizesse o mesmo. "Por que você me puxou?" ele perguntou, após alguns segundos de silêncio. Ela o encarou, surpresa pela pergunta. "O que você quer dizer com isso?" "Você poderia ter me deixado para trás. Teria sido mais seguro para você," explicou Dante, os olhos fixos nela. Lia desviou o olhar, passando os dedos pela lâmina de sua faca como se buscasse distração. "Talvez," respondeu, finalmente. "Mas não fiz. Agora, pode parar de fazer perguntas estúpidas e se concentrar em não fazer barulho." Apesar do tom ríspido, Dante percebeu algo nas palavras dela — uma faísca de humanidade que parecia lutar contra as paredes que ela havia construído ao longo dos anos. "Eu vou melhorar," disse ele, com sinceridade. "Prometo." Lia bufou, mas não respondeu. Por mais que quisesse ignorar, havia algo no tom dele que parecia genuíno. --- **Uma Breve Conexão** Enquanto esperavam, os dois começaram a ouvir o som do vento assobiando pelas estruturas ao redor. Lia finalmente quebrou o silêncio. "Por que você está sozinho, Dante? De verdade?" Ele hesitou, a pergunta claramente o incomodando. "Porque as pessoas que estavam comigo... se foram. Não fui rápido o bastante para salvá-las." Ela o encarou, sua expressão endurecida suavizando por um instante. "Isso acontece. Não é sua culpa." Dante balançou a cabeça, um sorriso amargo surgindo em seus lábios. "Você diz isso porque não viu o que eu vi. Eu poderia ter feito algo. Mas não fiz." Lia não sabia o que responder. Ela entendia a dor dele, mas não tinha as palavras certas — ou talvez apenas não tivesse coragem de usá-las. "Você está vivo," disse ela, finalmente. "É o que importa agora. Não importa o que aconteceu antes." Dante a olhou, surpreso pela firmeza nas palavras dela. Ele assentiu devagar, como se tentasse absorver o que Lia havia dito. --- **Um Novo Plano** O silêncio foi interrompido quando Lia se levantou, ajeitando a mochila nos ombros. "Temos que continuar. Se ficarmos aqui, eles podem voltar." Dante seguiu seu exemplo, pegando sua mochila e a lâmina que guardava no cinto. "Para onde vamos?" "Há um lugar a alguns quilômetros daqui. Um prédio abandonado que usei como abrigo uma vez. É seguro o suficiente, pelo menos por enquanto." "Você tem certeza de que quer dividir isso comigo?" ele perguntou, com um sorriso fraco. "Não me faça mudar de ideia," respondeu Lia, começando a caminhar. Dante sorriu, ajustando o passo para acompanhar a mulher que, contra todas as probabilidades, havia escolhido deixá-lo ficar. Por mais que o mundo fosse sombrio, naquele momento, ele sentiu uma fagulha de algo diferente — talvez fosse esperança. O caminho era silencioso, exceto pelo som de passos cautelosos e o assobio distante do vento. Lia liderava com passos rápidos, seus olhos atentos escaneando o horizonte enquanto Dante a seguia de perto. O prédio que ela mencionara era um pequeno armazém industrial, meio escondido entre os escombros de construções maiores. "Está logo ali," disse Lia, apontando para uma estrutura desbotada com janelas quebradas e grafites desbotados nas paredes. Dante olhou ao redor, sentindo a tensão no ar. "Você já esteve aqui antes. O que faz pensar que ainda é seguro?" "Porque ninguém sabe sobre este lugar, exceto eu," respondeu Lia, sem olhar para ele. Ela empurrou uma porta de metal enferrujada, que se abriu com um rangido baixo. Lá dentro, o ar estava frio e parado. Restos de caixas de madeira e pedaços de plástico estavam espalhados pelo chão, mas não havia sinais recentes de ocupação. Lia sinalizou para que Dante entrasse, fechando a porta atrás deles. "Vamos verificar o lugar antes de nos acomodarmos," ela disse, caminhando com cuidado. --- **Explorando o Armazém** Os dois se dividiram para inspecionar o espaço. Lia verificou as janelas e portas, garantindo que estavam trancadas ou bloqueadas, enquanto Dante vasculhava as caixas velhas, em busca de algo útil. "Encontrei isso," ele chamou, segurando uma lanterna enferrujada. Lia deu uma olhada e balançou a cabeça. "Talvez funcione se conseguirmos pilhas, mas duvido que dure." "É melhor do que nada," disse ele, colocando a lanterna na mochila. Depois de alguns minutos, Lia voltou para o centro do armazém. "Está limpo. Vamos montar algo para passar a noite." Dante assentiu, pegando pedaços de tecido e caixas para improvisar camas. Lia o observou por um momento, surpresa pela maneira como ele parecia disposto a ajudar sem reclamar. "Você já se escondeu em lugares assim antes?" perguntou ela, enquanto organizava sua mochila ao lado de onde planejava dormir. "Vários," respondeu Dante, com um sorriso cansado. "Mas nenhum tão... confortável quanto este." Lia soltou uma risada curta e inesperada. "Confortável? Você tem padrões baixos." "Você não?" Ele arqueou uma sobrancelha. Ela deu de ombros, mas um pequeno sorriso permaneceu em seus lábios. --- **Uma Conversa ao Anoitecer** Mais tarde, quando a escuridão tomou conta do lugar, os dois se sentaram próximos, compartilhando o calor de uma pequena lanterna que Dante havia encontrado. Lia mordiscava o que restava de seu pão seco, enquanto Dante abria uma lata de feijão que tinha guardado. "Então, Lia," ele começou, tentando soar casual, "você sempre foi assim tão... determinada a sobreviver sozinha?" Ela lançou um olhar em sua direção, mas não parecia irritada. "É o que o mundo exige. Se você não aprende rápido, não sobrevive." "É, eu percebi," disse ele, com um tom mais sombrio. "Mas você deve ter aprendido isso em algum lugar. Ninguém nasce sabendo como navegar por esse caos."
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