Lia hesitou, olhando para as sombras dançantes nas paredes. "Eu aprendi sozinha. Quando o mundo caiu, eu era só uma criança. Não havia ninguém para me ensinar."
Dante ouviu com atenção, os olhos fixos nela. Ele podia ver que cada palavra vinha carregada de memórias dolorosas, mesmo que ela tentasse mascarar.
"Deve ter sido difícil," disse ele, suavemente.
Ela ergueu o olhar para ele, como se estivesse surpresa pela empatia em sua voz. "Foi. Mas não sou a única. Todos que ainda estão vivos passaram por algo. Você também, pelo visto."
Dante ficou em silêncio por um momento, antes de falar: "Sim. Perdi minha família. Minha irmã era a última que eu tinha. Nós... estávamos fugindo quando ela foi pega por um grupo de saqueadores. Eu tentei salvá-la, mas..." Ele engoliu em seco, desviando o olhar.
Lia não respondeu imediatamente. Havia algo na história dele que a atingiu profundamente, uma dor que ela reconhecia.
"Você não tem culpa pelo que aconteceu," disse ela, finalmente.
Dante soltou um suspiro, esfregando a mão no rosto. "Às vezes, parece que tudo o que faço é falhar."
"Você ainda está aqui," Lia retrucou. "Isso já é mais do que muitos podem dizer."
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**Um Compromisso Silencioso**
A conversa morreu ali, mas o silêncio que se seguiu não era desconfortável. Havia algo diferente entre eles agora, algo que não precisavam expressar em palavras.
Enquanto Dante ajeitava seu canto para dormir, Lia ficou olhando para ele por alguns instantes. Por mais que não quisesse admitir, havia algo nele que a fazia sentir menos... só.
"Durma um pouco," disse ela, enquanto guardava sua faca próxima. "Eu faço a primeira vigília."
Ele hesitou. "Tem certeza?"
"Tenho. Confie em mim."
Dante assentiu, deitando-se sobre os panos improvisados. "Obrigado, Lia. Por tudo."
Ela não respondeu, mas suas mãos relaxaram levemente ao ouvir isso. O mundo continuava c***l e imprevisível, mas, pelo menos por uma noite, ela sabia que não estava completamente sozinha.
Sob a Pele do Medo
A noite avançava lentamente, envolta em um silêncio pesado. O único som era o ocasional assobio do vento que se infiltrava pelas rachaduras nas paredes do armazém. Lia permanecia sentada, com a faca em mãos, os olhos alternando entre a porta e Dante, que dormia profundamente.
Apesar de sua vigilância constante, havia algo em sua mente que a distraía. O que Dante havia contado sobre sua irmã mexera com ela de um jeito que não esperava. A dor em sua voz, a culpa que carregava, parecia ecoar algo dentro dela. Mas ela afastou o pensamento, forçando-se a se concentrar no presente.
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**Uma Presença Estranha**
Por volta da metade da noite, Lia ouviu um som distante. Era fraco, quase indistinguível do vento, mas ela sabia diferenciar. Ergueu-se lentamente, cada músculo do corpo em alerta, e caminhou até uma das janelas quebradas, mantendo-se na sombra.
Do lado de fora, a escuridão era quase absoluta, mas algo se movia. Figuras indistintas, talvez duas ou três, caminhavam pelo que restava da rua.
"Malditos saqueadores," sussurrou para si mesma, os dentes cerrados.
Ela voltou para onde Dante estava, abaixando-se ao lado dele e sacudindo seu ombro com cuidado.
"Dante," chamou, sua voz baixa mas urgente.
Ele acordou imediatamente, os olhos arregalados enquanto tentava entender o que estava acontecendo.
"Temos companhia lá fora," disse Lia, apontando para a janela.
Dante sentou-se rapidamente, pegando sua faca e a lanterna enferrujada. "Quantos?"
"Dois ou três. Estão patrulhando. Não acho que nos viram, mas precisamos ficar quietos."
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**Preparação para o Confronto**
Dante assentiu, engolindo em seco. Ele sabia o que isso significava — se fossem descobertos, teriam que lutar. E ele não estava certo de que sobreviveriam.
"Tem certeza de que não podemos escapar?" perguntou ele.
Lia balançou a cabeça. "A porta principal faz muito barulho, e as janelas são apertadas. Se tentarmos fugir, eles vão nos ouvir."
Os dois ficaram em silêncio, ouvindo os passos cada vez mais próximos. Lia se posicionou ao lado da porta, a faca firme em sua mão. Dante a seguiu, ajustando sua postura para imitar a dela.
"Se eles entrarem, atacamos rápido," sussurrou Lia. "Sem hesitação."
Ele assentiu, mas o suor em sua testa mostrava o nervosismo.
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**A Descoberta**
Os passos pararam bem em frente à porta do armazém. Uma voz masculina, rouca, quebrou o silêncio: "Você viu isso? Parece que alguém passou por aqui."
"Talvez sejam apenas ratos," respondeu outra voz.
"Ou talvez algo mais interessante," disse a primeira, com uma risada baixa.
Lia sentiu o coração acelerar. Os saqueadores estavam perto demais. Ela olhou para Dante, que estava pálido, mas determinado.
A maçaneta da porta rangeu levemente. Eles estavam testando-a. Lia segurou a respiração, pronta para agir.
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**O Confronto**
A porta se abriu lentamente, revelando a silhueta de um homem robusto, com uma arma improvisada na mão. Ele deu um passo para dentro, seguido por outro homem mais magro.
"Eu disse que era algo," murmurou o mais magro, olhando ao redor.
Antes que pudessem avançar, Lia atacou. Sua faca encontrou o braço do primeiro homem, que soltou um grito de dor. Dante, embora hesitante, seguiu o exemplo, empurrando o homem mais magro contra a parede com um movimento desajeitado, mas eficaz.
O armazém se encheu de ruídos — gritos, o som de corpos se chocando, e o eco dos passos apressados de mais alguém do lado de fora.
"Tem outro!" Lia gritou, ao ouvir mais passos se aproximando.
O terceiro saqueador entrou, armado com uma barra de ferro. Ele avançou na direção de Dante, que tentou se esquivar, mas caiu no chão. Lia não hesitou. Ela correu em sua direção, bloqueando o ataque com a faca.
"Levanta, Dante!" gritou ela, enquanto segurava a arma improvisada do homem.
Dante se levantou, pegando uma das caixas de madeira e acertando o saqueador com força suficiente para derrubá-lo.
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**A Retirada**
Com dois dos homens inconscientes e o terceiro gemendo no chão, Lia olhou ao redor, avaliando a situação. "Precisamos sair daqui antes que mais deles apareçam."
Dante, ofegante, assentiu. "E para onde vamos?"
"Qualquer lugar que não seja aqui," respondeu ela, pegando sua mochila.
Os dois saíram pela janela lateral, deixando para trás o caos que haviam enfrentado. Enquanto corriam pelas ruínas, Dante olhou para Lia, uma nova admiração surgindo em seus olhos.
"Você salvou minha vida," disse ele, enquanto recuperavam o fôlego em um canto seguro.
"Não foi nada," respondeu Lia, evitando seu olhar.
"Foi tudo," insistiu ele. "Eu não teria conseguido sem você."
Ela não respondeu, mas havia algo em sua expressão que indicava que as palavras dele a tocaram mais do que ela admitiria.