Malu.
Respirei fundo em frente ao espelho.
- por nós Mariana... Vou conhecer a nossa mãe por mim e por você. - sorri pra mim mesma.
Sei que faço parte de um trio, um trio de meninas idênticas. Mas não me acho parecida com minhas irmãs, porém tenho algumas feições e sempre que lembro da Mari, a vejo em meu rosto.
É uma sensação boa.
- oi meu amor. - era meu pai, na porta.
Me virei pra ele e sorri.
- está linda. - veio até mim e o abracei.
Eu usava um vestido, não era justo, só na parte de cima. Usava também sapatos adequados e meu pai estava com blusa social e bermuda social também.
- e se... - comecei a ficar desesperada.
- ei... Fique calma. - respirei fundo.
- será que ela vai gostar de mim? - concordou na hora.
- é claro, sua mãe quis esse momento desde o dia em que te colocou no mundo. - sorri animada e o abracei outra vez.
Quando descemos, eu estava eufórica.
É... O episódio de ontem foi muito conturbado pra mim, meus braços estão roxos mas a enfermeira disse que era por causa dos medicamentos.
Fora que voltei a tomar remédio pra dormir, para ficar calma e ansiedade e é doloroso.
Não que o processo doa, eu engulo os remédios... Mais... Você sabe o motivo dos remédios e automaticamente lembra por que está tomando eles.
É h******l, ontem mesmo tive que tomar eles ao lado do meu pai, por que não conseguia fazer isso sozinha e provavelmente será assim todas as manhãs e noites.
- a senhora colocou as bebidas na geladeira? - perguntei a moça que meu pai contratou para fazer comida.
Essa era diferente de uma que costumava vim... E eu gostava daquela, ela e meu pai faziam um bom par.
Mas agora... Quero o meu pai com a minha mãe.
- sim senhora, está na geladeira. - sorri e agradeci.
- pai você acha que a mamãe é vegetariana? E se ela não comer carne? - ele riu.
- carne? Não iremos comer carne. - refleti.
Maria Luísa para! É só um café da tarde.
- tudo bem. - apertei o dedo e meu pai me deu carinho. - ah! E se ela tiver alergia a gatos?! Luigi, pro meu quarto já..
- filha... Não há com oque se preocupar, mantenha a calma. - respirei fundo. - sua mãe disse que vinha, partiu dela, ela não irá se aborrecer com nada... Aliás. - olhou para trás, em direção a cozinha. - não acho que vocês iram querer comer com tanta saudade pra matar... - agora quem pareceu nervoso era o meu pai.
- oque foi? - olhei pra ele.
- sua mãe está vindo... - ficou sério e pensativo. - uau ela está vindo...
- pai, mantenha a calma, será normal. - digo tentando o acalmar e ele logo começa rir.
- estou tentando te fazer entender isso a duas horas. - rimos, mas paramos quando a campainha tocou.
- é ela... Pai minha mãe! - nos encaramos sérios e a moça foi lá abrir a porta. - não tô pronta.
- nem eu. - nos encaramos.
- Malu. - meu pai e eu olhamos pra porta após ouvir a voz de Henrique... Ele sorriu, dando espaço na porta e olhando pro lado de fora.
Em três segundos alguém entrou...
Cabelos castanhos... Olhos azuis... Altura mediana... Aquele sorriso... Vestido...
Senti o seu perfume daqui.
Era tudo oque eu queria desde o dia em que vi pela primeira vez Gilmore Girls... Desde o dia em que a cozinheira costumava dizer que comida de mãe é a melhor que existe...
Não era uma miragem, eu tinha alguém pra chamar de mãe, quando alguém me perguntasse quem iria na reunião de pais, eu irei poder dizer que meu pai e minha mãe irão ir...
Seu olhar estava ao meu e comecei a chorar chocada ainda com tudo aquilo.
- meu deus... - a sua voz! - minha filha! - eu corri até ela sem hesitar, não pensei em nada, era tudo que queria... Ela!
Quando meu corpo tocou o dela, parecia magia, senti uma conexão tão grande... Isso só pode ser um sonho!
Ou um pesadelo...
- oh meu deus.. - ela começou a chorar e a me abraçar de todos os jeitos como se eu fosse sumir a qualquer momento.
E aproveitei o momento ao máximo, seu cheiro era maravilhoso... Cabelos lisos que iam ondulando... Tinham um ótimo cheiro.
Ela chorava de mais e isso estava me machucando, choro de dor... O choro que Maria tentou me explicar, que acontecia quando a pessoa sentia tristeza ou estava triste, desesperada ou magoada com algo.
Minha mãe estava triste, poderia estar com medo.
- mãe.. - digo e ela olha pra mim tentando parar, mas logo volta a chorar e a me dar carinho.
- é... É você... É linda... É perfeita... É igualzinha ao bebê que estava no meio de duas irmãs... - sorri. - é minha filha... - ela me abraçou outra vez, dessa vez forte mas com um suspiro de alívio.
Quando ela me soltou, ainda me dando carinho e me olhando, fui pro lado e ela foi obrigada a notar o meu pai.
- Álvaro. - meu pai estava com lágrimas nos olhos e tentou ser forte.
- Melissa. - minha mãe tinha receio, mas soltou a minha mão e andou aos poucos na sua direção.
Quando se encontraram, cinco segundos depois se abraçaram rápido um ao outro e sorri de alegria, ganhando carinho na cabeça vindo de Henrique.
Meus pais..
- eu tenho mãe e pai. - digo feliz.
- é, sempre teve. - olhei pra ele e ele sorriu pra mim.
Duas figuras que atuam como mãe e pai... Como posso chama-los mais?
Heróis, pai e mãe, meu mundo, minha vida, minha maior inspiração, minha maior paixão... São meus pais!
Tenho que dividi-los com Maria mas oque importa? Maria, eu e Mariana temos pais!
Você ouviu Mari? A gente tem pais! Mari temos pais!
Sei que você está aqui, sentindo tudo isso comigo.
Sempre foi só nós duas, agora temos uma mãe e um pai e mais a Maria!
A gente tem tudo aquilo que desejamos!
Temos uma família!
Mariana a gente tem um lar!
[...]
- isso não é um adeus, não faça parecer que é pai. - digo segurando o choro.
- eu sei que não é...
- então não chora. - sequei suas lágrimas. - celular lembra? Você sabe usar o celular. - ele riu e me encarou. - eu te amo pai.
- eu também te amo. - nos abraçamos forte, tão forte que eu pensei que quebrariamos.
- eu juro que vou cuida-la Álvaro. - ganhei carinho da minha mãe e vi o olhar deles.
Tá que meu pai é velho e tem 54 anos enquanto a minha mãe tem 33 e tudo bem que ela tenha engravidado do meu pai com 17 e enquanto o meu pai tinha 38 anos...
Eles ainda são perfeitos um pro outro.
Mas não me esqueci de tudo que meu pai me contou sobre a sua carreira inteira ao lado da minha mãe, sobre as agressões até mesmo quando a minha mãe estava grávida.
E sei que posso ser uma pessoa h******l dizendo isso... Mais o meu pai mudou.
Ele largou tudo oque fazia... Ele me dá atenção!
Meu pai é o melhor pai do mundo e há uma diferença enorme de pai para marido.
Talvez ele seja um excelente pai, mas um péssimo marido/namorado.
Mas lá no fundo eu prefiro acreditar que o meu pai é o melhor homem do mundo, por que pra mim ele é... O meu herói que chamo de pai.
- cuida dela... Ela gosta de torrada pela manhã... Com geleia de morango... Ah, e ela estuda, está levando o seu notebook, seu tablet? Seus cadernos de estudos? Eu vou pegar.
- pai.. - ele voltou. - já vimos isso dez vezes. - sorri.
- só... Continue estudando.
- e elas vão, a partir da semana que vem. - meu pai concordou pra minha mãe.
Uau, minha mãe.
Aaaaa.
- toma os remédios tá? - concordei. - e cuida bem do Luigi. - sorri com o mesmo já no colo e na coleira.
- eu prometo. - ele sorriu.
- então... Tchau Álvaro, foi bom te ver. - sorri sem mostrar os dentes tentando não sorrir.
Eles se abraçaram por longos segundos.
- estou feliz que tenha voltado, me perdoe por tudo que te fiz. - sorri fraquinho ouvindo aquilo.
- te perdoei desde o dia em que soube que estava cuidando das minhas filhas. - eles saíram do abraço e sorriram.
- mantenham contato.
- prometemos. - digo. - vou sentir sua falta pai, deixe o celular carregando, peça pra nova empregada fazer isso, é o único trabalho dela de todos os dias, é o mais importante... Diz que você vai dar mais mil reais pra ela se ela fizer isso. - ele riu.
- fique tranquila, nos falaremos todos os dias. - sorri.
- então... Vamos? - concordei olhando pra ela... Seus olhos eram lindos iguais aos meus e das minhas irmãs.
Fomos pro carro, onde Henrique estava no porta malas ajeitando as minhas.
- tem algumas coisas no bando de trás que não coube aqui, mais da pra ti e o Luigi irem lá. - concordei. - tá feliz? - sorri.
- muito! Você promete cuidar do meu pai? - ele sorriu.
- pode deixar comigo. - fiquei animada.
Quando entramos no carro que era do Henrique, dei tchau pro meu pai já sentindo saudades, e não vou ficar um só dia sem falar com ele.
- pai! Ainda vamos fazer o lanche da madrugada pela chamada tá?! - digo de dentro do carro com ele já ligado.
- vou esperar por você! - sorri animada e Henrique deu partida.
Eu estava no banco atrás do Henrique e minha mãe ficava me olhando o tempo todo, sorrindo e me esticando a mão pra eu apertar e era tão bom.
Já Luigi, ele não gosta de ir no colo mas a sua casinha de viagem não coube aqui.