São Paulo, 1900.
O governo paulista materializa seu projeto de modernidade através de marcantes reformulações na infra-estrutura, nos transportes e na urbanização de novas áreas. Era fundamental para a classe dominante eliminar as marcas da cidade provinciana de antes, identificadas com o atraso e apresentá-la com uma nova feição, européia. Essa é a ideologia que permeia as imagens de Gaensly. Tal conjunto iconográfico seria reproduzido intensamente nas primeiras revistas ilustradas e nos cartões postais, em plena voga nas duas primeiras décadas do século XX.
Antigas chácaras ao redor do núcleo histórico da cidade eram loteadas e a área urbana se expandia continuamente. Ferrovias faziam a ligação com o interior, onde se produzia o café, e com o porto de Santos, por onde ele era exportado. São Paulo se firmava como o mais dinâmico centro comercial e financeiro da Província.
A ferrovia Santos-Jundiaí foi inaugurada em 1867, operada pela The São Paulo Railway Company Ltd., mas as instalações da grande estação de passageiros no bairro da Luz entraram em uso apenas em 1901.
Após a década de 1880, o café teve nova valorização internacional. Os fazendeiros paulistas, entretanto, tinham de lidar com o problema da escassez de trabalhadores. Após a promulgação da Lei Eusébio de Queirós e a consequente abolição do tráfico negreiro, ocorrida em 1850, os escravos negros tornaram-se escassos e cada vez mais caros. Para substituí-los, começaram a chegar os imigrantes, sobretudo italianos. Um número significativo desses imigrantes fixou-se na própria capital, empregando-se nas primeiras indústrias que se instalavam nos bairros do Brás e da Mooca, a partir de investimentos provenientes dos lucros obtidos pelos empresários do setor cafeicultor. Em 1882, é fundada a Hospedaria dos Imigrantes, a princípio no Bom Retiro (1882) e posteriormente na Mooca (1885).
São Paulo destacou-se no cenário nacional. A expansão da cultura do café exigiu a multiplicação das estradas de ferro. Foi um período de grandes transformações, marcado pela crise do sistema escravocrata, que levaria à Abolição em 1888 e que daria lugar, entre outros fatos, à chegada em massa de imigrantes, principal solução para a mão-de-obra na lavoura.
O Estado prosperou e a capital da província passou por uma revolução urbanística e cultural. A chegada de milhares de imigrantes permitiu a ocupação do interior. Criaram-se as condições para pequenas fábricas darem início à industrialização, com o interior integrado ao crescimento da província. Novas estradas foram construídas e a prosperidade foi sacramentada com a República.
O fim do Império estava selado com a Abolição da e********o em 1888 e Dom Pedro II foi deposto no ano seguinte. O primeiro período republicano no Brasil, até 1930, foi controlado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A importância econômica do café de São Paulo e do gado de Minas Gerais sustentou a “política do café-com-leite”, com paulistas e mineiros se alternando na presidência da República. A ferrovia puxou a expansão da cafeicultura, atraiu imigrantes e permitiu a colonização de novas áreas.
A industrialização avançava, criava novos contornos urbanos e abria espaço para novas classes sociais, o operariado e a classe média. Mais próspero do que nunca, e agora como Estado dentro da Federação, São Paulo via surgir a cada dia uma novidade diferente: a eletricidade, os primeiros carros; o crescimento das linhas de bondes elétricos e de grandes obras urbanas. Tudo se multiplicava e diversas vilas passaram a conviver com o apito das fábricas e com uma nova classe operária.
A industrialização revelou o problema da geração de energia, solucionado em 1900 com a inauguração da Light.
As preocupações com a questão sanitária surgiram em função de epidemias, como o surto de febre amarela, entre 1873 e 1903, nas cidades de Santos, Campinas e São Paulo. Os cortiços passaram, então, a ser vistoriados e cadastrados, em São Paulo, com o intuito de solicitar reformas nos habitáculos para adequá-los aos parâmetros de higiene da época.
A área considerada no Relatório de 1893 abrange, como foi visto, o perímetro definido pelas ruas: Florêncio de Abreu, Rua da Estação (atual Rua Mauá), Alameda do Triumpho, Alameda Glette e Rua São João (atual Avenida São João). Os pontos em vermelho, no mapa a seguir, indicam os cortiços identificados na época.
Em 1900, surgiram os primeiros bondes elétricos. Desde então, a famosa “Light” – São Paulo Tramway, Light & Power Company – foi a responsável por esse meio de transporte, até 1947. Em 7 de maio de 1900, deu-se a primeira viagem de bonde elétrico.