Mais um mês se passou e a feira estava prestes a acontecer. Filippo estava ansioso por ver sua amada. Anita sentia a mesma ansiedade pelo encontro.
Na feira, foi difícil Filippo encontrar tempo para ver Anita. Dessa vez, o horário de almoço dos dois não coincidiu.
Eles se falaram rapidamente. Anita disse que já havia almoçado. Filippo disse que andaria um pouco e retornaria.
Caminhando pela feira, observou as mercadorias vendidas ali. Um anúncio lhe chamou a atenção. Não era mercadoria, mas imigração.
— Andiamo, andiamo! Vamos todos para América do Sul!
Ele aproximou-se mais do senhor de barba comprida e grisalha, camisa verde musgo desbotada, calça social preta e sapato de couro marrom desgastado. Ouviu o homem falando mais.
— Para Argentina e Brasil!
"Brasile?", se perguntou Filippo. Era a primeira vez que ele ouvia falar nesse país. "Que lugar é esse? Não conheço". Resolveu ir até o senhor e perguntar sobre Brasil.
— Com licença, caro mio. Que lugar é este que anuncias? Brasile?
— Sì, Brasile. È un paese della America, prossimo ad Argentina.
— Uau! Estupendo! Como faço para conhecê-lo?
— Bene. Conhecê-lo e permanecer nele. Tu puoi comprar os bilhetes e agendar tua viagem para o prossimo mese. Che cosa dire?
— Próximo mês?
— Sim.
— E quanto custa?
— 5 mil por pessoa.
— Cinque mile?! — Era toda a economia de Filippo. Ele sabia que para fazer uma proposta a Anita precisaria de ter o valor da sua passagem somado ao da dela.
— Cos'è, ragazzo.
— Está bem. Volto depois se eu decidir comprar.
Filippo foi até a barraca de Anita e lhe disse sobre a viagem.
— Como vamos para lá? Um país desconhecido.
— Eu sei, eu sei. Questa è la prima volta que escuto falar desse país. Mas, é algo promissor. Pensa...
— Promissor? Entrar num navio e partir assim sem rumo.
— Rumo al Brasile.
— Nem tu conheces bem essa terra.
— Teremos um pedaço de chão para plantar, criar nossas coisas. Que pensas disso?
— Veramente não posso te dar resposta.
— Está bem. — Filippo ficou cabisbaixo e um tanto chateado com Anita.
— Oh, meu anjo. Não fiques assim.
— Tenho que ir.
Rapidamente, para não serem vistos pelos pais dela, se beijaram. Filippo voltou pensativo para sua barraca.
Lá, ele nada falou sobre a viagem que tanto sonhava.
Em casa, contou suas economias e viu que tinha mais do que pensava ter. Estava com oito mil. "Bene, já é um bom dinheiro".
Escondeu rapidamente seu dinheiro da vista de seu irmão. O guardava num pequeno cofre de madeira na cor preta, embaixo de sua cama e trancado com cadeado.
— Fala, piccolo. Que fazes aí?
— Na...nada. Apenas pensando na vida.
— Pensando na vida? Que hilário.
— Puoi darmi la tua opinião sobre uma coisa?
— Sim. O quê?
— Que achas de tomar um navio e ir para outro continente?
— Caro, tu sei engraçado demais! Questo bambino è un scherzo!
— Não sou uma piada!
Por sorte, ninguém ali acreditava no sonho dele. Assim, não precisava temer por algum impedimento. Só poderia esperar a oportunità para ir até Anita e convencê-la a fugir com ele para o Brasil.
O mês passou e se viram mais uma vez na feira. Ela parecia não estar muito bem. Semblante triste, cabisbaixa.
— Ei.
— Está tudo bem contigo?
— Não sei.
— Amore mio, por que estás assim?
— Não quero falar sobre isso agora.
— Assim fico chateado.
— Vem. — Anita o pegou pela mão e o puxou depressa, olhando para ver se seus pais não a viam — Vamos conversar um pouco.
— O que está acontecendo?
— Meus pais... Eles brigaram comigo.
— Quê? Por quê?
— Há dois dias, um irmão meu tentou me abusar sexualmente. Enquanto eu estava na cama, tentando dormir, ele passou a mão em mim e tentou tirar minha roupa. Eu gritei. Meua pais acordaram. Mas, não acreditaram em mim. Acreditaram nas mentiras do meu irmão, que disse que eu o seduzi.
— Que horror! E o que fizeram sobre isso?
— Nada. Simplesmente brigaram comigo. Eu nem viria aqui, pois não quiseram mais a minha ajuda. Insisti para vir, pois queria e precisava muito te ver.
— Oh, meu amor. — Ela apoiou suas mãos sobre o ombro dele, passando-as por trás do pescoço, se beijaram. — Tenho uma solução.
— Quale?
— Tenho aqui comigo oito mil. A passagem custa cinco mil por pessoa. O que tens para somar e irmos para o Brasil?
— Eu andei pensando no que falaste a mim. Nem sabia quanto custava a passagem. Mas, todas as minhas economias me renderam quinze mil.
— Uau! Isso é mais do que o suficiente.
— Sim. Também trouxe algumas roupas na bolsa. Meus pais não sabem.
— Eu também trouxe roupas na bolsa. Bem, vamos ao vendedor para conseguir nossas passagens.
Chegaram ao senhor que vendia as passagens.
— Ciao. Caro, quero duas passagens para o Brasil.
— Davvero?
— Sì.
— Rapaz corajoso. Bem, eu tenho somente para amanhã.
— Como assim? Tens apenas para vender amanhã?
— No, no. Não me entendeste. A viagem é amanhã cedo. As passagens compram hoje. E aproveitem, porque estão acabando.
Filippo olhou para Anita. Ela balançou a cabeça positivamente.
— Sim. Duas, per favore.
Passagens nas mãos, Filippo e Anita foram buscar suas bolsas. Despistados de seus pais, saíram e caminharam juntos pela feira.
— Bene, aqui estamos nós.
— Isso é uma loucura.
— Prometes que não se arrependerás?
— Sim, meu príncipe. Eu prometo.
Pararam num hotel, de onde pegariam uma condução até o Vêneto, no porto de saída para a América do Sul.
O dia seguinte seria de muita emoção para os dois. Precisavam descansar agora. Pouco tempo que se conheciam e já se amavam. Caminharam felizes de mãos dadas. Seus pais nada sabiam deles.
"Foi bem melhor assim", pensou Filippo ao ver os lindos olhos de Anita e o belo sorriso dela que o encantava.
À noite, entregaram-se pela primeira vez a algo inédito até então. Pela primeira vez tocaram-se, sentindo o calor um do outro. Beijos, carícias, abraços, arranhões, mordidas, gemidos. Assim foi a noite dos dois.