RAFAEL MORETTI
— Ela não é linda? — minha mãe perguntou pela centésima vez.
Mesmo assim, eu nem me dei ao trabalho de olhar para a tela da TV. Eu tinha coisas muito mais importantes para fazer do que olhar para o rosto de uma mulher na TV para quem eu não dava a mínima. Principalmente essas meninas ricas e mimadas que andam por aí ostentando o dinheiro dos pais, sem nem terem trabalhado para ganhar.
Tudo o que elas sabem fazer é jogar dinheiro para cirurgiões plásticos para alterar seus rostos já horríveis. Que desperdício.
— Filho? Filho?! Você está me ouvindo? — Será que eu conseguiria ter paz sem essa mulher respirando no meu pescoço?
— Mãe, agora não. — Eu sabia o que viria a seguir quando ela começava a me mostrar fotos ou vídeos de uma mulher, e era um sinal para eu fugir.
— Mas eu quero netos. Você quer que eu morra primeiro antes de fazer só essa coisa por mim?
Pronto. Eu sabia.
Em vez de começar uma discussão, simplesmente peguei meu laptop com os documentos que estava revisando e a deixei na sala de estar.
Imagino que parte de “Eu não vou me casar” ela não entendeu. Não havia nada que ela ou meu pai pudessem fazer para me convencer. E se eu finalmente cedesse, transformaria a vida dessa infeliz mulher num inferno, tanto que ela seria forçada a pedir o divórcio.
— Senhor, o que o senhor gostaria de almoçar? — perguntou meu mordomo quando passei por ele.
— Vou deixar isso com você. — respondi enquanto caminhava para meu escritório.
Era como se minha mãe tivesse tudo planejado e ainda estivesse no meu pescoço, mesmo sem estar na sala comigo. A televisão do meu escritório estava ligada e, de alguma forma, meus olhos ficaram presos na tela.
Não consegui evitar um sorriso irônico.
Era ela. Bom, acho que acabei de encontrar minha esposa.
— Estou lhe dizendo, filho, você não pode continuar assim. Lembre-se de que eu dei à luz a você, o que significa que você também deve me dar netos.
Nossa. O que eu fiz para ofender essa mulher, para ela realmente me seguir até aqui para me importunar sobre conseguir uma esposa?
Mas nem mesmo suas reclamações conseguiram conter a felicidade dentro de mim. Finalmente encontrei a oportunidade perfeita para minha vingança.
— Filho...
Não a deixei terminar a declaração.
— Você quer que eu me case, certo? — perguntei a ela, e por um momento pensei que a cabeça da minha mãe ia cair do pescoço com a rapidez com que ela assentiu. — Tudo bem, eu vou. Mas vou me casar só com ela — disse, apontando para a tela no momento em que a moça entrava no carro.
Minha mãe já sabia exatamente a quem eu estava me referindo, porque ela estava grudada naquela tela, tornando minha vida um inferno.
— Rafael Lukas Moretti, isso não é uma das suas piadas, certo?
Sempre que ela me chamava pelo meu nome completo, eu sabia que qualquer traço de brincadeira era jogado fora. Na minha frente estava uma leoa pronta para me atacar se descobrisse que eu estava fazendo papel de bobo.
— Não, não é brincadeira. Ou você não quer que eu me case? Pode falar.
— Você é louco? Eu implorei para você se casar por três anos e agora que você finalmente concordou, acha que eu vou dizer não? Você só pode estar brincando! Seu pai precisa ouvir isso. Vamos conhecer a família dessa garota. — Ela disse alegremente enquanto saía correndo do meu escritório.
Tenho certeza de que ela ia encontrar meu pai para que pudessem discutir o que quisessem. Eu não me importava.
Tudo o que eu sabia era que alguém tinha me ajudado a mätar dois coelhos com uma cajadada só.
Voltei ao trabalho porque minha mãe estava longe de mim, e minha arqui-inimiga logo estaria na palma das minhas mãos.
Nunca consegui esquecer as coisas horríveis que ela me fez. Ela era uma das garotas populares da escola e tornou a minha vida um inferno.
O apelido ainda ressoa em meus ouvidos depois de vários anos.
Garoto aleijado.
Era assim que me chamavam. Sofri um acidente terrível que me deixou incapacitado por alguns anos. Então, na adolescência, me senti muito inseguro. As meninas sempre riam de mim, eu não conseguia jogar futebol com os meninos como antes e, para piorar, tinha um segurança que estava sempre comigo na escola.
Eles zombavam de mim, dizendo que eu tinha uma babá, mesmo na minha idade. Foi um milagre que, depois de anos fazendo terapia, eu finalmente conseguisse andar.
Não se trata de um jogo de vingança infantil. Ela fez coisas terríveis comigo e, até hoje, ainda me sinto enojado de como uma adolescente tão jovem podia ser tão má.
Então, casar com ela não é vingança. Estou apenas retribuindo um favor.
Meu celular vibrou no bolso e eu o peguei para ver se era uma ligação de uma das minhas interesseiras. Eu sabia que nenhuma delas me amava, não que eu me importasse. Elas me davam o que eu queria em troca do que elas queriam. Era uma situação vantajosa para todos.
— April.
— Oi, amor, tenho uma boa notícia para você. — O que ela estava aprontando dessa vez? Eu sabia que ela queria mais dinheiro. Nunca era o suficiente. Por que ela precisava ficar enrolando?
— April, vá direto ao ponto. O que você quer? — Sou um homem ocupado e, mesmo que eu não tenha ido ao escritório hoje, não significa que não esteja trabalhando.
— Não, amor. Por que você não adivinha?
Não consegui evitar revirar os olhos. Elas vão te chamar de qualquer nome carinhoso que puderem quando quiserem dinheiro seu. Querido, meu amor… as mulheres são assim.
— Não estou com vontade... — Eu estava prestes a desligar quando ela alegremente declarou, com uma voz animada, algo que fez meu coração parar.
— Estou grávida.