O vento frio da manhã de outono cortava a pele de Beatriz enquanto ela olhava pela janela do quarto do hospital. O mundo lá fora parecia continuar, indiferente à dor que ela sentia dentro de si. Seus olhos estavam inchados, vermelhos de tanto chorar, e seu coração parecia um peso insuportável, esmagando seu peito. Ela sabia que o momento de partir estava chegando, e a decisão tomada, embora dolorosa, era a única opção que ela tinha.
Beatriz não queria ser uma carga para Eduardo. Não queria ser o fardo que ele teria que carregar enquanto tentava reconstruir sua vida. O acidente havia tirado mais do que sua aparência física — ele também havia levado uma parte de sua alma. Ela sabia que sua imagem, distorcida pela cicatriz que tomava seu rosto, era irreconhecível.
O medo de ser rejeitada por ele a corroía. Eduardo sempre a amara por quem ela era, mas ele jamais a vira como estava agora. O reflexo no espelho, o olhar estranho e distante de uma mulher que m*l conseguia reconhecer, a fazia temer o pior. Ela não sabia se ele conseguiria amá-la depois de tudo aquilo. Não sabia se ele a aceitaria de volta.
Beatriz passou a mão suavemente sobre o rosto, os dedos tocando as cicatrizes que começavam a tomar forma. O que mais a machucava não era apenas o físico, mas o peso de saber que ele, o homem que ela amava, jamais a olharia da mesma maneira. E ela não queria ser um peso para ele. Eduardo merecia alguém que não fosse marcada pelo sofrimento. Ele merecia alguém que pudesse acompanhá-lo sem a sombra da tragédia que a seguiria para sempre.
O momento mais difícil da decisão estava agora. Ela precisaria partir sem fazer despedidas. Sem que ele soubesse o motivo. Sem que ele visse como ela estava, o que ela havia se tornado.
Gustavo Montenegro, mais uma vez, foi o homem que ditou o rumo. Ele contratara uma clínica especializada, um lugar isolado para a recuperação de Beatriz, longe de qualquer contato com o mundo. Lá, ela se recuperaria, sem que ninguém soubesse da sua existência, sem que ela fosse uma lembrança viva para Eduardo. Tudo o que ela precisava fazer era desaparecer.
A porta do quarto se abriu, e a enfermeira entrou com um semblante calmo, mas Beatriz podia perceber a expressão de preocupação em seus olhos.
— Beatriz, você está pronta para sair? — A enfermeira perguntou, embora soubesse que a jovem não estava nada preparada para a despedida.
Beatriz levantou os olhos e, por um instante, a realidade se desfez. Ela queria dizer algo, queria pedir para ficar mais um pouco, para buscar uma forma de reverter tudo aquilo. Mas as palavras não vinham, e o peso de sua decisão a sufocava.
— Sim. Estou pronta. — Sua voz estava baixa, quase um sussurro. Ela havia se resignado à dor, mas sua alma ainda lutava contra a ideia de abandonar o amor de sua vida.
A enfermeira fez um gesto, indicando a saída. Beatriz se levantou com dificuldade, as pernas fracas ainda sentindo o impacto do acidente, mas ela seguiu em frente, como uma sombra de si mesma.
O transporte estava pronto para levá-la. Ela não sabia para onde estava indo, mas sabia que o que importava era desaparecer da vida de Eduardo, por mais que isso a matasse por dentro. No fundo, ela ainda temia que ele, se soubesse o que estava acontecendo, jamais a aceitasse. Ela se perguntava se ele perceberia o quanto ela ainda o amava, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Mas ela não podia arriscar.
Enquanto entrava no carro, um pensamento a assombrava: talvez ele nunca a procurasse. Talvez o amor deles fosse tão frágil que se quebraria ao mínimo toque. E tudo o que ela podia fazer era se afastar, deixando que ele seguisse sua vida, sem ela.
Beatriz olhou para a janela do carro enquanto a cidade ficava para trás. O vento batia no vidro, fazendo-a se sentir mais distante do que nunca. Ela estava indo para um lugar onde poderia se esconder, onde ninguém saberia quem ela era, mas, no fundo, sabia que nada poderia apagar o que havia vivido com Eduardo. O voto de amor que eles fizeram, a promessa silenciosa de estarem juntos para sempre, ecoava em sua mente, como um lembrete de que, por mais que ela tentasse fugir, ele sempre estaria lá, em seu coração.
Mas agora, ela precisava seguir em frente, sozinha, sem a luz que ele representava em sua vida. O peso da partida era insuportável, e, por um momento, Beatriz se perguntou se algum dia conseguiria se perdoar por ter feito essa escolha.
O carro seguiu, e a distância entre ela e Eduardo foi se alargando, cada quilômetro afastando-a mais do que ela jamais imaginou que pudesse ser.
O caminho até o local onde Beatriz se estabeleceria era longo e silencioso. O carro, com seus pneus deslizando suavemente sobre a estrada deserta, parecia refletir a solidão que ela sentia dentro de si. Ela olhava pela janela, mas seus olhos não conseguiam distinguir as paisagens que passavam. O vento, agora mais forte, balançava os cabelos escuros de Beatriz, mas ela nem se dava conta. Sua mente estava longe, perdida em pensamentos e memórias.
Eduardo. Ele ainda pairava em sua mente, como uma presença constante que ela não podia afastar, não importava o quanto tentasse. As últimas palavras que ele lhe disse ecoavam em sua cabeça, e a lembrança do toque suave dele em sua pele, das promessas que trocaram, era um fio invisível que a ligava a ele, mesmo que ela estivesse partindo.
“Nós sempre seremos um, Beatriz. Nada pode nos separar.” Essas palavras ainda soavam tão reais, como se ele estivesse ali, ao lado dela, dizendo-as novamente. Mas a realidade era c***l. Ele não poderia mais ser parte de sua vida. O que restava era uma cicatriz, uma dor que a consumia por dentro.
Ela fechou os olhos e respirou profundamente, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam cair. No fundo, sabia que o que estava fazendo era necessário. Para o bem dele. Para que ele não a visse daquela forma. Para que ele pudesse seguir em frente e encontrar a felicidade que ela acreditava que ele merecia. Eduardo era o tipo de homem que não poderia se prender a alguém como ela, alguém que a vida havia marcado de forma tão profunda.
O pensamento de que ele nunca saberia a verdadeira razão pela qual ela partiu a dilacerava. Ela não teria a chance de explicar, de pedir perdão, de dizer o quanto o amava. Tudo o que ela poderia fazer agora era desaparecer, e essa ideia a fazia se sentir ainda mais invisível, como se ela nunca tivesse existido para ele.
O carro parou abruptamente, fazendo Beatriz sair de seus pensamentos. Ela olhou para o motorista, um homem sério, que a olhava com uma expressão desconfortável, como se sentisse o peso do momento.
— Estamos chegando, senhorita Beatriz. — Ele disse, quebrando o silêncio.
Beatriz assentiu e pegou sua pequena bolsa, um único bem que restava de sua vida anterior. Tudo o mais tinha sido deixado para trás, jogado no abismo do passado, como se nunca tivesse existido. Ao sair do carro, ela sentiu o ar gelado da manhã batendo contra seu rosto, mas não havia nada que ela pudesse fazer para mudar sua decisão.
Ela olhou para o grande portão de ferro à sua frente, a entrada de um lugar onde ninguém sabia quem ela era. Um lugar onde ela poderia desaparecer e viver a vida que agora lhe era imposta. Ela havia sido forçada a aceitar o contrato de seu desaparecimento, mas não conseguia deixar de sentir a dor de não ser capaz de se despedir de Eduardo. Ele nunca entenderia. Ele nunca saberia o que ela sacrificou por ele.
— Bem-vinda à sua nova vida. — O motorista disse com um tom quase gentil, mas que soava como uma sentença de morte para o que restava de Beatriz.
Ela caminhou em direção à entrada, suas mãos tremendo levemente. Quando passou pelo portão, olhou uma última vez para trás, como se, de alguma forma, pudesse ver Eduardo ali, esperando por ela, chamando-a para voltar. Mas a única coisa que encontrou foi o vazio. E então, ela se virou, aceitando seu destino com um pesar que jamais seria curado.
O portão se fechou atrás dela, selando-a em uma prisão invisível, sem retorno. Ela sabia que nunca mais poderia voltar para a vida que tinha, para o amor que compartilhava com Eduardo. Mas, ao mesmo tempo, sentia que, talvez, fosse isso o que ele precisava. Ela deveria se afastar, mesmo que isso significasse morrer um pouco a cada dia.
Dentro de si, um suspiro de resignação escapou, e Beatriz, agora Helena, entrou na escuridão de uma nova vida, carregando consigo o fardo de um amor que nunca mais poderia ser.