Capítulo 3 – A Proposta

2657 Palavras
A sala de espera do hospital estava silenciosa, o ar denso, quase insuportável. Eduardo estava se recuperando da cirurgia na perna, mas sua mente não conseguia se afastar de Beatriz. Ele ainda não tinha a visto desde o acidente, e a ansiedade corroía-o a cada segundo. Ele sabia que algo estava errado, e a cada momento que passava sem notícias, o medo só crescia. Foi então que a porta do seu quarto se abriu e Gustavo Montenegro, seu pai, entrou com passos firmes. O olhar de Gustavo estava impassível, como sempre, mas havia algo nele que Eduardo não conseguia decifrar. Uma expressão fria, quase calculista. — Como ela está? — Eduardo perguntou, com a voz tensa, mas firme. Gustavo hesitou por um instante, o que fez o coração de Eduardo acelerar. Ele sabia que seu pai não se importava verdadeiramente com Beatriz, mas nunca imaginou que ele fosse ser tão impiedoso em um momento tão crítico. — Ela está na UTI, em estado grave. O rosto... os danos são severos. Mas os médicos estão fazendo o que podem. — Gustavo respondeu, como se falasse de algo sem importância. Eduardo respirou fundo, tentando se acalmar, mas a angústia em seu peito não ia embora. Ele sabia que, embora a cirurgia fosse essencial para salvar a vida de Beatriz, a recuperação poderia ser longa e cheia de desafios. — E quanto tempo até que eu possa vê-la? — perguntou, ansioso. O pai olhou-o com um ar de desprezo, como se Eduardo estivesse fazendo uma pergunta ridícula. Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando suas palavras. — Isso não importa, Eduardo. O que importa é o que vamos fazer com essa situação. — A voz de Gustavo soou baixa e ameaçadora. Eduardo franziu o cenho, desconfiado. Algo estava errado, ele podia perceber. Ele olhou para o pai, suas palavras pesando no ar. — O que você está dizendo? Gustavo se aproximou da cama de Eduardo e se inclinou ligeiramente, os olhos fixos nos dele. Sua voz soou calma, quase glacial. — O que estou dizendo é que essa tragédia pode ser a nossa chance, Eduardo. A chance de afastar essa garota de sua vida de uma vez por todas. Eduardo sentiu o estômago revirar. Ele queria gritar, afastar seu pai, mas a dor física em sua perna o impediu de fazer qualquer movimento abrupto. Ele balançou a cabeça, não acreditando no que estava ouvindo. — Você... você está maluco? — Ele se forçou a perguntar, sua voz agora mais arrastada pela incredulidade. Gustavo deu um passo para trás e começou a andar pela sala, como se estivesse ponderando um plano. Quando ele se virou novamente, seus olhos estavam vazios, como se já tivesse decidido tudo. — Eu oferecerei a Beatriz todo o tratamento médico necessário. Pagarei por suas cirurgias plásticas, por sua reabilitação, por tudo. Mas, em troca, ela terá que desaparecer da sua vida para sempre. Ela precisa se afastar e nunca mais voltar. Eduardo se sentiu como se fosse atingido por um raio. Ele ficou em silêncio, o coração batendo descompassado. Não conseguia entender a crueldade que emanava das palavras do pai. — Isso é um absurdo! — Ele gritou, tentando se levantar da cama, mas a dor na perna o fez cair de volta, ofegante. Gustavo não parecia se abalar com a raiva de Eduardo. Ele simplesmente o observava com um olhar desinteressado. — Não é um absurdo, Eduardo. É uma solução prática. — Ele pausou, como se estivesse explicando uma estratégia empresarial. — Essa garota não pertence ao seu mundo, ela é uma órfã sem nome, sem riquezas, sem futuro. E eu não vou permitir que ela destrua o legado da nossa família. Eduardo, atordoado, sentiu o sangue ferver. As palavras de seu pai pareciam uma sentença de morte para o que ele mais amava. O desprezo pela origem de Beatriz, a falta de consideração pelo amor deles, tudo aquilo o deixava sem palavras. — Ela tem o direito de viver, de ter uma vida digna! — Eduardo gritou, com a voz mais firme agora, lutando contra a crescente sensação de impotência. Gustavo, mais calmo que nunca, olhou-o com um sorriso c***l. — E ela terá. Se ela aceitar o meu acordo. O resto é sua decisão. Ou você a vê desaparecer para sempre, ou perde a chance de vê-la novamente, com vida. Eduardo sentiu uma raiva tão profunda, que o fez tremer. Ele olhou para o pai com ódio, mas sabia que, neste momento, nada poderia impedir o que ele estava prestes a fazer. Gustavo virou-se para a porta, já dando o assunto como encerrado, deixando Eduardo completamente perdido em suas próprias emoções. — Tenho a esperança de que você fará a escolha certa. — disse Gustavo, antes de sair, deixando a porta se fechar com um estrondo silencioso. Agora, Eduardo estava sozinho em seu quarto, a dor física de sua perna misturando-se com o desgosto e o ódio que sentia por seu pai. Ele sabia o que precisava fazer, mas a ideia de perder Beatriz, ainda que por uma "chance" de salvá-la, era insuportável. Mas a pergunta que ecoava em sua mente era: Até onde ele seria capaz de ir para salvar o amor da sua vida? Eduardo estava sozinho no quarto, a mente em um turbilhão. As palavras de seu pai, como lâminas afiadas, ainda estavam cravadas em seu coração. Ele não conseguia entender como Gustavo Montenegro poderia ser tão frio, tão calculista. O homem que ele sempre admirou e respeitou, agora parecia um estranho. Uma versão c***l e insensível, disposta a destruir qualquer coisa que se opusesse aos seus interesses. Ele se levantou da cama com dificuldades, sentindo a dor pulsando na perna, mas sua mente estava mais forte que o corpo. Precisava encontrar uma maneira de resolver isso, de salvar Beatriz. Não importava o que seu pai dizia, não importava o quanto ele tentasse afastá-los. Beatriz era tudo para ele. A princípio, pensou em confrontar seu pai imediatamente, mas sabia que isso não adiantaria. Gustavo não era um homem que se dobrava facilmente. Eduardo precisaria de um plano mais cuidadoso, algo que fosse inteligente o suficiente para derrotar o pai sem se destruir no processo. Enquanto tentava organizar seus pensamentos, a porta do quarto se abriu novamente. Dessa vez, não era Gustavo. Era o médico que o acompanhava, o Dr. Carvalho, um homem mais velho e experiente, conhecido por sua dedicação e discrição. — Como você está, Eduardo? — perguntou o médico, com um sorriso gentil, tentando suavizar o ambiente pesado. Eduardo tentou esboçar um sorriso, mas sua expressão estava tensa demais. — Estou bem, Dr. Carvalho, mas a minha cabeça não para. Preciso saber de uma coisa. — Sua voz soou firme, mas a ansiedade era palpável. — E Beatriz? Como ela está? Já tem algum diagnóstico mais preciso sobre os danos? O médico suspirou, e a expressão em seu rosto mudou. Ele não queria dar más notícias, mas sabia que a situação era grave. — Ela sofreu muitos danos, Eduardo. O rosto foi o mais afetado. As cirurgias são complexas e delicadas. Além disso, há a questão psicológica. O trauma que ela está vivendo vai ser tão doloroso quanto os danos físicos. Ela precisará de muito mais do que um simples tratamento médico para se recuperar por completo. Eduardo fechou os olhos por um momento, tentando processar as palavras do médico. Ele sabia que Beatriz era forte, mas não sabia até onde ela conseguiria ir. Ele sabia o que significava perder sua identidade, e isso o aterrorizava. O medo de que ela fosse se afastar dele não por escolha, mas por necessidade, fez seu estômago revirar. — Ela vai conseguir, Dr. Carvalho? — perguntou, a voz embargada. — Ela vai ser capaz de voltar a ser quem era? O médico fez uma pausa antes de responder. Olhou para Eduardo com compaixão, mas sua resposta foi pragmática. — Não posso garantir nada, Eduardo. Mas, com o tempo e o tratamento adequado, talvez ela possa encontrar um novo caminho. O que eu posso garantir é que, enquanto ela estiver sob minha responsabilidade, faremos tudo o que for possível para restaurá-la. Eduardo não conseguia mais conter a frustração. Como ele poderia proteger Beatriz, quando seu próprio pai estava determinado a separá-los? Ele não sabia o que fazer, mas uma coisa estava clara: ele não poderia permitir que Gustavo ganhasse essa batalha. Beatriz merecia mais do que ser descartada como um simples objeto em um jogo de poder. O médico percebeu a angústia de Eduardo e tentou suavizar o ambiente. — Eduardo, eu sei que isso é difícil, mas você precisa se concentrar na sua recuperação. Ela vai precisar de você, e quanto mais forte você estiver, mais você poderá ajudá-la. O jovem Montenegro assentiu, mas a sensação de impotência era esmagadora. Como poderia ser forte por ela, quando ele próprio estava quebrado por dentro? Enquanto o médico saia do quarto, Eduardo olhou pela janela. A noite já havia caído, e o céu estava coberto por nuvens escuras. Ele sentiu o peso da responsabilidade se acumulando sobre seus ombros. Ele sabia o que tinha que fazer, sabia que teria que enfrentar o próprio pai. Mas ele não sabia como. A cabeça girava com as possíveis alternativas. E, naquele momento, ele teve uma ideia. Era uma ideia arriscada, quase impossível, mas algo dentro dele disse que era a única chance de manter Beatriz ao seu lado. Ele sabia que precisava fazer algo drástico. Ele não se importava com o custo. Se fosse necessário, enfrentaria até mesmo o próprio destino para que ela ficasse com ele. Com o coração pulsando forte, Eduardo tomou uma decisão. A partir daquele momento, sua vida mudaria para sempre, e ele faria o que fosse preciso para lutar pelo amor de Beatriz. Ele não podia deixar que seu pai destruísse tudo o que ele tinha construído com tanto esforço. A proposta c***l de Gustavo Montenegro estava prestes a ser desafiada de uma maneira que nem mesmo ele poderia prever. E Eduardo sabia que, para isso, ele teria que fazer um voto de amor tão forte quanto o que havia feito naquele esconderijo secreto, com Beatriz. Agora, mais do que nunca, ele precisaria de coragem para cumprir aquele juramento. Beatriz estava deitada na cama do hospital, os raios de sol filtrando pelas cortinas de vidro do quarto. Ela m*l conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ainda sentia o gosto amargo da dor, tanto física quanto emocional. O acidente, a perda da sua antiga identidade, e, agora, o peso do acordo de seu pai. Tudo parecia desmoronar ao seu redor. Enquanto sua mente vagava, ela se lembrou da última vez que tinha visto Eduardo. O olhar perdido dele, a expressão de dor ao acordar, a confusão em seus olhos. Ela sabia que ele não entendia, mas também sabia que ele jamais poderia saber o que ela estava sendo forçada a fazer. O que o destino, com suas c***l ironias, havia decidido para ela. Foi quando a porta do quarto se abriu e Gustavo Montenegro, o homem que tinha causado tudo aquilo, entrou com passos firmes, como se tivesse o direito de tomar decisões sobre sua vida. Beatriz sentiu seu estômago se revirar, mas tentou se manter calma. — Beatriz, — começou ele com um sorriso frio, — Estou aliviado que você tenha acordado. Eu sei que esse é um momento difícil, mas há algumas questões que precisamos resolver. Ele sentou-se ao lado da cama dela, um movimento cuidadosamente calculado, como se estivesse tratando de uma questão de negócios. Beatriz não respondeu de imediato, apenas olhou para ele, tentando controlar o ódio que crescia dentro de si. Gustavo não parecia notar a tensão no ar, ou talvez estivesse fingindo não perceber. — Eu fui informado de que as cirurgias são um sucesso, e isso me deixa bastante aliviado. Mas há algo que precisamos discutir, algo que vai impactar a sua recuperação. — Ele fez uma pausa, como se estivesse esperando que ela dissesse algo, mas Beatriz não se mexeu. — Eu sei que não deve ser fácil para você, mas o fato é que a sua presença na vida de Eduardo não é algo que eu consiga aceitar. Ele está em recuperação, e não pode ser distraído por… complicações emocionais. Beatriz sentiu o sangue ferver em suas veias. Como ele se atrevia a falar assim? Como ele podia tratar o amor deles, a dor dela, como se fosse uma simples questão de conveniência? Gustavo continuou, sem perceber a luta interna dela. — Eu te ofereço um acordo, Beatriz. Eu pagarei por todas as suas cirurgias, o seu tratamento completo. Você terá tudo o que precisa para se recuperar, mas com uma condição. Você vai desaparecer da vida do meu filho. Você nunca mais o verá, nunca mais o tocará. Eu vou garantir sua recuperação física, mas a sua recuperação emocional só será possível se você sair de cena. Ele falava com tanta frieza, como se estivesse fazendo uma proposta de negócios, sem qualquer empatia. Beatriz olhou para ele, tentando processar suas palavras. O acordo era c***l, mas ele estava ali, sendo oferecido com uma calma desconcertante. Ele queria que ela fosse embora, que deixasse Eduardo para trás. O silêncio entre eles se estendeu, e, por um momento, Beatriz pensou que poderia simplesmente se levantar, fugir daquele quarto e de tudo o que ele representava. Mas ela sabia que, se fizesse isso, estaria se destruindo ainda mais. Ela já havia perdido tanto, mas não queria perder Eduardo. Não assim. Ela finalmente falou, sua voz baixa, mas cheia de amargor. — Você acha que pode simplesmente me mandar embora da vida dele? Você acha que seu dinheiro e seu poder vão mudar o que sentimos um pelo outro? — Sua voz tremia, mas ela se manteve firme. — Eu não sou uma peça de xadrez no seu jogo, Gustavo. Eu não vou sair da vida de Eduardo. Gustavo sorriu, mas o sorriso não chegava aos seus olhos. — Você não tem escolha, Beatriz. Eu estou oferecendo a única forma de você se recuperar. Se você sair da vida dele, tudo vai ser mais fácil para você. Eu estou sendo generoso. As palavras dele caíram como veneno em seu coração. Beatriz se sentiu pequena, fraca, e, ao mesmo tempo, cheia de raiva. Como ele poderia ser tão egoísta? Como ele não via a verdade? Não era apenas a aparência que importava, não era só o dinheiro e o poder. Era o amor deles, algo que não se comprava. Ela fechou os olhos por um momento, tentando encontrar alguma força dentro de si. Sabia que aquela era a decisão mais difícil de sua vida, mas sabia também que, mesmo que fosse obrigada a se afastar de Eduardo fisicamente, ela jamais o abandonaria de verdade. O amor deles era maior do que tudo, maior até do que o poder de seu pai. Com a voz mais firme, ela olhou diretamente nos olhos de Gustavo. — Eu não vou desaparecer, Gustavo. Não importa o que você faça. Eduardo é o homem que eu amo, e nada nem ninguém vai mudar isso. Gustavo a observou por um longo tempo, e então se levantou, seus olhos frios e calculistas fixados nela. — Você vai ver, Beatriz. Eu sempre consigo o que quero. — Ele se virou para a porta, dando-lhe as costas. — E se você continuar a se opor a mim, você vai se arrepender. Ele saiu, deixando Beatriz sozinha com seus pensamentos tumultuados e uma sensação de desespero crescente. O acordo c***l de seu pai tinha sido feito, mas ela não sabia como conseguiria sobreviver sem Eduardo em sua vida. O destino, mais uma vez, parecia ter se virado contra ela, e a batalha que ela enfrentaria agora seria maior do que qualquer dor física que ela já tenha conhecido. Mas, no fundo, ela sabia que não podia abandonar Eduardo, nem que isso significasse lutar até o fim.
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