Capítulo 2 – O Acidente Que Mudou Tudo

1402 Palavras
O vento frio da madrugada cortava a estrada deserta enquanto Eduardo dirigia, uma mão firme no volante e a outra entrelaçada à de Beatriz. O calor da pele dela aquecia seus dedos, e ele não conseguia parar de lançar olhares apaixonados para a mulher ao seu lado. — Você precisa olhar para a estrada, doutor Montenegro. — Beatriz brincou, sorrindo. Eduardo riu, mas manteve os olhos nela por mais alguns segundos. — Não consigo evitar. Você está linda demais. Beatriz revirou os olhos, mas o sorriso permaneceu. A noite perfeita que haviam vivido na cabana ainda queimava em sua memória. O pedido de casamento, as pulseiras simbolizando o amor eterno, a entrega completa. Tudo parecia um sonho. Mas sonhos podem se tornar pesadelos em questão de segundos. De repente, os faróis de um caminhão surgiram no horizonte, cegando Eduardo por um instante. O veículo avançava rápido, invadindo a pista contrária. — Eduardo! — Beatriz gritou, apertando o braço dele. O coração de Eduardo disparou. Ele tentou desviar, girando o volante bruscamente. Os pneus cantaram no asfalto molhado, e o carro derrapou. O impacto veio como um golpe brutal. O carro girou várias vezes antes de sair da estrada e despencar ribanceira abaixo. O som de metal se retorcendo e vidro estilhaçando ecoou pela noite, seguido por um silêncio sepulcral. Eduardo sentiu um gosto metálico na boca. Sua cabeça latejava, e a dor aguda em sua perna esquerda fez um gemido escapar de seus lábios. Mas seu primeiro pensamento foi Beatriz. Com dificuldade, ele virou o rosto e seu coração quase parou ao vê-la. Beatriz estava imóvel, seu corpo parcialmente preso entre os destroços. O sangue escorria por sua testa e manchava a pulseira que haviam trocado horas antes. Seu rosto, antes tão perfeito e amado por ele, agora estava coberto de cortes profundos. O desespero tomou conta de Eduardo. — Beatriz! Fala comigo, amor! — Sua voz saiu rouca, quebrada pela dor e pelo medo. Nenhuma resposta. O pavor o atingiu com força. Lutando contra a dor em sua perna, ele tentou se mover, mas estava preso. Seu peito subia e descia rapidamente enquanto ele buscava forças para alcançá-la. Lá no alto, as luzes do caminhão ainda piscavam. O motorista não parou. Na escuridão, Eduardo sentiu a vida que havia prometido a Beatriz escorrer por entre seus dedos. E então, antes que pudesse fazer mais alguma coisa, a inconsciência o puxou para um vazio absoluto. O som insistente de sirenes cortava a noite, aproximando-se cada vez mais. Eduardo sentiu uma pressão latejante na cabeça antes de abrir os olhos, piscando contra a claridade vermelha e azul que piscava ao redor. O cheiro de gasolina e sangue impregnava o ar, misturado ao chiado de metal retorcido. Por um instante, ele não soube onde estava. Seu corpo doía, mas a dor maior vinha de dentro, um aperto sufocante no peito. Foi então que a lembrança o atingiu como um golpe: Beatriz. — Beatriz! — Sua voz saiu rouca e fraca, mas carregada de desespero. Ele tentou se mover, mas um paramédico segurou seu ombro, forçando-o a permanecer imóvel. — Calma, senhor. O senhor sofreu um acidente. Não tente se mexer ainda. Eduardo ignorou o aviso e virou a cabeça, seu olhar febril varrendo o local em busca dela. Então viu. Beatriz estava sendo cuidadosamente retirada dos destroços por dois socorristas. Seu corpo inerte foi colocado em uma maca, e Eduardo sentiu o coração parar por um segundo. O rosto dela… Meu Deus. O sangue cobria grande parte de sua face, e os cortes profundos expunham feridas assustadoras. Um dos paramédicos pressionava um pano sobre a lateral do rosto dela, tentando estancar o sangramento intenso. O peito dela subia e descia lentamente, mas Eduardo percebeu que sua respiração era fraca e instável. — Ela está viva? Ela vai ficar bem? — A voz dele quebrou no final. O paramédico ao seu lado hesitou por um segundo antes de responder: — Ela está em estado crítico. Vamos levá-la ao hospital agora. O medo tomou conta de Eduardo, um nó se formando em sua garganta. Ele quis gritar, arrancar os tubos, correr até Beatriz e segurá-la. Mas seu corpo não obedecia. Seus olhos se fixaram na pulseira fina que ainda estava no pulso de Beatriz, manchada de sangue, um lembrete c***l da promessa que haviam feito horas antes. "Amor eterno." Um amor que, naquele momento, parecia escorrer por entre seus dedos. Os paramédicos o colocaram em outra maca e o carregaram para a ambulância. Eduardo forçou a vista para enxergar Beatriz, que já estava sendo levada para um segundo veículo. O pânico o consumia ao vê-la imóvel, tão frágil. Antes que as portas da ambulância se fechassem, a última coisa que Eduardo ouviu foi o som acelerado dos monitores cardíacos. Beatriz estava lutando pela vida. E ele sentiu, no fundo da alma, que nada mais seria o mesmo depois daquela noite. O trajeto até o hospital foi um borrão de sons e luzes para Eduardo. O zumbido insistente das sirenes misturava-se ao ritmo acelerado do seu coração. Cada solavanco da ambulância era uma lembrança c***l de que Beatriz estava entre a vida e a morte. Ele tentou se mover, mas a dor em sua perna latejou com força, impedindo-o. Isso pouco importava. O que realmente o atormentava era não saber o estado dela. — Ela está consciente? — Ele perguntou, com a voz rouca. O paramédico olhou para ele, hesitando. — Ainda não. Mas estamos fazendo o possível para estabilizá-la. Aquelas palavras foram como uma lâmina cortando sua pele. Ele queria fazer algo, queria trocar de lugar com ela se pudesse. Quando chegaram ao hospital, as portas da ambulância se abriram rapidamente e, antes mesmo que Eduardo pudesse protestar, ele foi levado para dentro, enquanto Beatriz era conduzida para outra ala, cercada por médicos. — Ei! Espera! Eu preciso ficar com ela! Ninguém o ouviu. Ou, se ouviram, o ignoraram. Ele tentou se erguer, mas uma enfermeira o segurou com firmeza. — Senhor, precisamos avaliar seus ferimentos. Por favor, colabore. Eduardo fechou os olhos com força, frustrado e impotente. Tudo o que queria era estar ao lado de Beatriz. Depois de exames rápidos e radiografias, o médico lhe deu o diagnóstico: fratura leve na perna e alguns cortes superficiais. Nada comparado ao que Beatriz estava enfrentando. — E minha namorada? — Eduardo perguntou, assim que o médico terminou de enfaixar sua perna. O doutor suspirou, escolhendo as palavras com cuidado. — Ela está em cirurgia neste momento. Os ferimentos no rosto são extensos, e a perda de sangue foi considerável. Mas nossa equipe está fazendo o possível. "Ferimentos extensos." "Perda de sangue." As palavras giravam na mente dele, formando um cenário que Eduardo não queria imaginar. — Eu quero vê-la. — Ainda não é possível. Mas assim que ela sair da cirurgia, avisaremos. Agora, tente descansar. Descansar? Como ele poderia descansar quando Beatriz estava lutando para sobreviver? Mas Eduardo não teve tempo para protestar. A porta do quarto se abriu bruscamente, e uma figura imponente entrou. — Que diabos você fez, Eduardo? Seu pai, Gustavo Montenegro, atravessou o espaço com passos firmes. O terno impecável contrastava com a expressão rígida de desdém em seu rosto. Eduardo sentiu o estômago revirar. Ele conhecia bem aquele olhar. — Não me venha com sermões agora, pai. Eu quase perdi Beatriz. — Exatamente. E essa tragédia só prova o que eu sempre disse: essa garota não pertence ao nosso mundo. Eduardo cerrou os punhos, ignorando a dor que irradiava pelo corpo. — Se você veio aqui para falar m*l da mulher que eu amo, pode ir embora. Gustavo o analisou com um olhar frio. — Acorde, Eduardo. Você é um Montenegro. Tem um futuro brilhante pela frente. E não pode jogá-lo fora por uma órfã sem nome e sem dinheiro. A raiva explodiu dentro dele. — Se pensa que vou abandoná-la, está muito enganado. O pai soltou um suspiro exasperado. — Vamos ver se ainda dirá isso quando souber a real situação dela. Antes que Eduardo pudesse perguntar o que aquilo significava, Gustavo saiu do quarto, deixando para trás uma sensação sufocante de que algo estava muito errado. Ele tentou se levantar, mas a dor o prendeu na cama. O que seu pai queria dizer? O que estava acontecendo com Beatriz? E, no fundo, um medo silencioso crescia dentro dele. Algo lhe dizia que aquela noite mudaria sua vida para sempre.
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