Às cinco em ponto toca o alarme e m*al consegui pregar os olhos, levanto-me da cama com relutância, coloco roupa desportiva no corpo e saio de casa.
O ar fresco da manhã bate no meu rosto enquanto corro, o som rítmico dos meus pés contra o pavimento é a única coisa que consegue acalmar a confusão de pensamentos na minha cabeça. Sempre foi assim. O exercício me ajuda a clarear as coisas, a organizar o caos que às vezes se instala na minha mente. Hoje, no entanto, por mais que eu me esforce, não consigo me livrar da sensação de desconforto que a noite anterior me deixou.
Não consigo tirá-la da cabeça. Toda vez que interagimos, algo em mim se agita, algo que não sei como lidar. Por isso corro mais rápido, como se pudesse deixar para trás essas emoções que não entendo.
Na volta, passo em frente a uma cafeteria e, por alguma razão, os meus passos param. Não estou com fome, mas algo me impulsiona a entrar. O cheiro de café fresco e pão recém-assado enche o ar, e antes que eu perceba, estou comprando dois cafés da manhã. Um para mim, sem açúcar, e outro para a Maggie. Por quê? Não sei. Só... faço.
M*aldito seja.
Com as sacolas na mão, volto para o prédio. Subo as escadas lentamente, os meus pensamentos cada vez mais pesados, mais desordenados. Ao chegar à porta de Maggie, paro. Não sei por que faço isso, só fico ali, parado, olhando para a porta dela como se esperasse que ela me desse uma resposta para algo que nem sei como formular.
O tempo passa, talvez minutos, talvez segundos. Não importa. Finalmente, bato na porta e quando ela a abre, entrego-lhe o café da manhã de forma brusca, sem olhar nos olhos dela.
— Obrigado pela sobremesa de ontem à noite. Solto de repente, as palavras saem mais rápido do que eu tinha planejado.
Antes que ele tenha a chance de responder, viro-me sobre os calcanhares e abro a porta do meu apartamento. Entro e fecho a porta com força, sentindo uma pressão no peito que não estava ali antes. Não sei por que fiz isso, não sei por que lhe trouxe o café da manhã. Não sei nada.
Apoio as costas na porta fechada e grunho, frustrado. O meu peito se sente apertado, como se algo estivesse errado, algo fora do lugar, toco com a mão como se isso pudesse ajudar a me aliviar. O peso na minha mente é insuportável, como se cada coisa que eu fizesse com a Maggie complicasse ainda mais as coisas.
O pior é que não quero que isso pare, por mais complexo que seja, quero que ela continue entrando na minha vida, arruinando-a com a sua presença carinhosa. Um choque com ela e eu fiquei tentado, mas tudo piorou ao provar as suas preparações, anos sem saber o que era comer algo doce sem sentir que estava morrendo, e ela chegou com a sua sobremesa estúp*ida e me ferrou. E é aí que percebo que a quero, caramba, desejo que ela continue a despedaçar a minha rotina, tudo o que sou e achava que sabia.
Não entendo. Não a entendo, e não me entendo a mim mesmo. A única coisa que tenho certeza é que isso não vai acabar bem.
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"A crescente dependência emocional que sinto por Conrad é um veneno do qual não consigo me livrar."
Basileia, Suíça
Margareth
Depois da mensagem que recebi de Nathan, m*al consegui dormir. Assim que o sol nasce, saio de casa em direção à minha antiga casa. Percorro as ruas solitárias de Basileia com o coração batendo forte e o sentimento de culpa mais vivo do que nunca. Meu pai e meu irmão mais velho trabalham duro, e cuidar da mamãe não é uma tarefa fácil. Por esse motivo, decidi ir para casa ajudar todas as manhãs antes de ir para o meu trabalho. Será exaustivo, mas não tanto quanto o que eles fazem.
Depois do dano que causei, isso é o mínimo que posso fazer.
Paro em frente à porta da casa onde costumava ser feliz. Respiro fundo antes de tocar. Minutos depois, ouço os passos pesados do meu irmão, uma caminhada que reconheço por todo o tempo que vivemos juntos.
— O que você está fazendo aqui? Pergunta ao me ver.
— Vim ajudar. Murmurei.
— Ajudar? Nossa, que generosa você é, irmãzinha. Ele solta uma risada sarcástica. — Não somos parte de uma obra de caridade, somos sua família. Estar aqui é um dever, Maggie. Prometemos ficar! Eles precisam disso! Ele berra.
— Você sabe muito bem que eu não podia ficar. Estava fazendo m*al a ela, estava me fazendo m*al. Nathan, eu não podia... Repito.
— Deixei o amor da minha vida ir para ficar em casa! Renunciei a muitas coisas para ficar aqui! Você não importa! Ele grita.
As suas palavras colidem contra mim como se fossem um trem. O impacto é tão grande que recuo alguns passos. O que aconteceu conosco? O que aconteceu com aquela irmandade que nos caracterizava? Não sobrou nada do que costumávamos ser, e eu sou a responsável por isso.
— Maggie... Ele diz, o arrependimento enchendo os seus olhos.
— Não, não diga nada. Engulo o nó na garganta e luto contra o choro que quer sair. — Posso vir dar uma mão de manhã, preparar o café da manhã, limpar um pouco e deixar o almoço pronto.
— Obrigado.
Ele se afasta, permitindo a minha entrada. O lugar está uma bagunça. Há pratos por todo lado, e parece que não varreram ou esfregaram o chão há um tempo. Penduro as minhas coisas no cabideiro, procuro os utensílios de limpeza e coloco a mão na massa. Começo pelo andar de cima e vou descendo. Recolho roupa, copos, pratos e mais. Quando termino, estou suada e os meus braços tremem.
No entanto, o que foi visto acima não se compara ao desastre que é a cozinha. Tudo está pegajoso, sujo, nojento e o que mais vier. Verifico o relógio: me resta uma hora. Com as luvas postas, lavo e esfregão tudo o que me aparece pela frente. Quarenta minutos depois, tudo está tão brilhante que quase consigo ver o meu reflexo.
— Filha… Ouço a voz do papai atrás de mim. — Você voltou?
Contenho a respiração ofegante que busca escapar quando o vejo. Perdeu peso e parece cansado, demacrado. Mais velho.
— Vim dar uma mão com as coisas da casa. Evitou usar a palavra "ajuda", já que Nathan deixou claro o que pensa desse termo.
— Você é tão boa, minha menina. Muito obrigado.
— Havia muito para fazer, não tenho tempo de preparar comida para vocês.
— Não se preocupe, já fez muito. Lamento que você tenha encontrado a casa assim. Seu irmão está voltando mais tarde do que o normal, e eu não quero perder a sua mãe de vista.
— Vou vir todos os dias, não se preocupe com isso.
Verifico a hora novamente. Se não sair agora, chegarei atrasada.
— Não vou te atrasar mais, vai trabalhar.
— Até amanhã, pai. Dou-lhe um aperto no ombro, pego as minhas coisas e saio daquele lugar.