🥀Capítulo 4.🥀

1305 Palavras
Melina Sullivan - Quando foi que fez essas? - A voz de Daniel ecoa pelo cômodo, misturada ao som do alho estalando na frigideira. Ele usa um avental com os dizeres "Melhor Mestre de Poções de Hogwarts", e eu juro que seria impossível levar aquele homem a sério com aquilo - se ele não fosse meu irmão. Fãs de Harry Potter desde sempre, nós dois sabemos que, se o mundo fosse minimamente justo, Daniel estaria em Grifinória e eu... bom, eu provavelmente seria expulsa de Hogwarts na primeira semana. O relógio marca 15h30. O sol brilha invadindo a cozinha ao entrar pelas janelas abertas, tingindo a cozinha com tons dourados. O ar fresco da tarde entra devagar, trazendo o cheiro das flores do jardim e as vozes distantes da vizinhança. A casa de Daniel fica localizada em uma area costeira, a alguns quarteirões da praia em um bairro movimentado, cercado por vizinhos na nossa faixa de idade. Como eu sei disso ? Simples. Só nas ultimas semanas eu ja vi a policia ser chamada umas três ou quatro vezes, por conta de uma denuncia de som alto. Nada mais que uma festa em uma das cadas. Já faz alguns dias desde que cheguei aqui. Ainda não entrei em ritmo, ainda tropeço dentro da minha própria rotina. Tirei o gesso na semana passada - adeus à minha perna de ferro - e estou reaprendendo a andar sem sentir que o chão é um campo minado. Daniel tem estado ocupado como sempre, soterrado em processos e planilhas. E eu... bem, eu tenho estado mergulhada em um tédio que beira o existencial. Passo boa parte do dia entre esboços inacabados, latas de tinta abertas e ideias para meu novo espaço - que eu se quer sei onde vai ser - . Ainda sim, eu preciso colocar a vida de volta nos trilhos. E pretendo começar o mais rapido possive. O que me impedia era o gesso. E o que me mantém parada agora talvez seja só o medo do que vem depois. Daniel aponta para o meu braço direito, onde as linhas pretas de uma tatuagem se entrelaçam pela pele: um ramo de hera, flores de tamanhos diferentes, tudo subindo em espiral até se perder na curva do ombro. - p******o espiritual, crescimento pessoal e conexão com a natureza. - explico, com a calma preguiçosa de quem já decorou a resposta. Tomo um gole da cerveja gelada, observando o olhar dele se estreitar. - Ou algo assim. Eu só fiz o esboço, pedi a um amigo que tatuasse. Já tem... um ano, mais ou menos. - Entendi. - ele diz, com aquele tom que avisa que não entendeu coisa nenhuma. - Você sabe que não deveria beber, né? É ilegal fornecer bebida alcoólica pra menores de vinte e um. - Vai chamar a polícia pra mim, maninho? - pergunto, fingindo inocência, e observo quando ele revira os olhos, como quem pensa seriamente se valeria a pena me entregar para as autoridades por mau comportamento. - É óbvio que não, Mel. - ele suspira. A voz dele sempre carrega cansaço, até quando fala com doçura. - Eu só me preocupo com você. Você não sai dessa casa desde que chegou há três semanas. Quando não tá trancada naquele quarto, tá nos jardins, olhando o tempo passar. Dou um meio sorriso. Ele não entende, mas "ficar naquele quarto" é parte do meu trabalho - mais do que isso, é parte de quem eu sou. - Você sabe que estar naquele quarto faz parte do meu processo, certo? - digo, pousando a garrafa sobre a mesa. - Eu passo boa parte das manhãs desenhando. Quero algo novo pra decoração do estúdio. E falando nisso, amanhã eu vou sair. Quero procurar um novo ponto pra montar o espaço... - Sobre isso... - ele me corta antes que eu termine, secando as mãos num pano de prato. O olhar dele pesa. Eu já reconheço o prelúdio de más notícias. - Eu tava pensando... que tal você se juntar a nós no escritório? Ele hesita, como se pisasse em gelo fino. - É algo fixo, estável. Você teria benefícios, plano de carreira, segurança... Enquanto ele fala, eu pego o celular e desbloqueio a tela. Um toque, dois, e o aplicativo do banco se abre. Mostro pra ele a tela iluminada, com as últimas transações. - Fiz mil e setecentos dólares em sete horas, Dani. - digo com serenidade. O olhar dele percorre os números, e eu percebo o silêncio que se instala. - Fazendo o que eu amo, o que eu sei fazer de melhor. Dou outro gole na cerveja, devagar. - Sinto muito, irmão, mas eu não nasci pra viver atrás de uma mesa. Esse é o teu mundo, não o meu. Por um segundo, o barulho do fogão é o único som entre nós. Daniel desvia o olhar, tenta disfarçar a frustração, mas eu vejo. Ele queria me ver segura, e eu só quero me ver livre. E talvez, no fundo, a gente esteja tentando se proteger do mesmo jeito - cada um à sua maneira. - Tudo bem. - ele diz com aquele tom leve e sereno, o mesmo que usa quando quer encerrar o assunto sem briga. - Desde que você esteja feliz, é o que importa. O sorriso que ele me dá é o de sempre - singelo, protetor, quase paternal. E, mesmo que às vezes ele me irrite com essa mania de querer cuidar de mim como se eu ainda tivesse quinze anos, eu o amo por isso. Daniel sempre foi o tipo de pessoa que carrega o mundo nas costas e ainda acha espaço pra segurar a minha mão. - Então... - ele começa, virando-se para o fogão. - Essa noite vai ser o aniversário de um dos sócios do escritório. Ele fala como quem comenta o tempo - casual, distraído demais pra ser só coincidência. Ergo uma sobrancelha, desconfiada. Ele percebe, dá uma risadinha nervosa e continua: - Achei que talvez você quisesse vir conosco. Eu cruzo os braços, esperando o resto da história. Daniel hesita por um segundo, depois solta o ar e balança a cabeça, já rindo da minha expressão cética. - Achei que você ia gostar, sabe? - ele insiste, com aquele tom que mistura encorajamento e culpa. - Sair um pouco de casa. Adrian tem uma filha mais ou menos da sua idade. Talvez vocês se deem bem, façam amizade, essas coisas... Reviro os olhos, lenta e dramaticamente. A tentativa é quase fofa, mas ainda assim falha. - Você parece a vó Sônia falando. - digo entre risos. - Ela usava as mesmas palavras quando queria me levar pra almoçar com as amigas dela e as netas delas. A lembrança me arranca um riso verdadeiro, desses que aquecem o peito. - Tudo bem, mainho. - digo, erguendo as mãos em rendição, com um sorrisinho travesso. - Eu farei esse sacrifício por você. Mas com uma condição. Ele suspira, já prevendo encrenca. - E qual seria? Dou um passo em direção à porta da cozinha, o sorriso crescendo nos lábios. - Mantenha o seu cão de caça longe de mim. - respondo, entre risadas, deixando a garrafa de cerveja sobre o balcão. - Onde você vai? - ele grita, quando percebe que estou me afastando. - Pro meu quarto! - respondo, parando na porta e virando-me pra ele. - Preciso encontrar algo que diga "sou irmã de um advogado importante", mas sem parecer que quero ser adotada pela elite. Ele revira os olhos, mas não esconde o sorriso. Eu o encaro por um instante - aquele sorriso leve, o som da panela no fogo, o cheiro de alho e alecrim no ar - e então lhe dou as costas e subo para o quarto, para tentar buscar algo que seja no minimo apresentável.
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