Melina Sullivan.
Seguro minha taça com uma das mãos, e deixo o olhar vagar pelo salão. As pessoas riam, bebiam, trocavam confidências em pequenos grupos, com aquela elegância ensaiada típica de eventos assim. Garçons circulavam com passos precisos, oferecendo taças de champanhe que tilintavam discretamente no ar perfumado.
A música ao vivo embalava o ambiente num ritmo agradável - mais leve que a música clássica, mas ainda assim sofisticado o bastante para não quebrar o encanto do lugar. Num dos cantos do imenso salão, sob o brilho dourado de um lustre imponente e entre janelas de cortinas pesadas, uma mesa farta exibia aperitivos cuidadosamente dispostos. No lado oposto, algumas mesas estavam estrategicamente posicionadas para os que preferiam a comodidade de sentar a ter de socializar em pé.
Ao meu lado, Daniel parecia à vontade - mãos nos bolsos da calça social preta, camisa social branca, colete combinando e os sapatos sempre impecáveis.
Eu, por outro lado, havia optado pelo simples. Um vestido preto de alças finas que se ajustava ao corpo e descia até os joelhos, com uma f***a lateral discreta. Os cabelos, meio presos, deixavam os cachos das pontas caírem de leve sobre os ombros. Um conjunto singelo de gargantilha e brincos de prata completava o visual. Nos pés, um salto baixo - o suficiente para manter a postura sem o desejo constante de arrancá-los no meio da noite.
Eu detesto saltos. Ainda mais agora, com a perna que passou meses engessada e teima em reclamar de vez em quando.
- Aquele ali é o juiz Thompson - a voz de Daniel me puxa de volta. - A mulher ao lado dele é Katherine, promotora da vara da família.
- Interessante - comento, observando o casal ao longe.
- Estão em processo de divórcio. Assim como o Henry, nenhum dos dois parece disposto a ceder um milímetro. - Ele balança a cabeça, num gesto de reprovação. - Mesmo assim, continuam aparecendo juntos, mantendo as aparências...
- Espera aí, O'Connor, um divórcio? - arqueio a sobrancelha, surpresa. - Quanto tempo eu dormi, exatamente?
Não que eu esteja preocupada com ele - por mim, que se exploda; eu seria a responsável por soltar os fogos no dia do funeral. É só que é difícil imaginar alguém daquele calibre casado, e mais ainda à beira de um divórcio.
- Deixa isso pra lá, Mel. - Ele fala, um pouco sem jeito. - Nem devia ter tocado no assunto.
- Se você insiste. - Dou de omros, desinteressada.
A festa segue mansa, até demais pro meu gosto: casais dançam, outros riem, e o tédio já foi coroado rei da noite há muito tempo. Em certo ponto eu aderi à regra dos pinguins de Madagascar - apenas sorria e acene.
- Daniel, meu rapaz, que bom que você pôde vir. - A voz masculina, carregada de anos, me arranca do piloto automático.
- Adrian, feliz aniversário, velho amigo. - Daniel responde leve. - Jamais perderia a comemoração de uma data dessas.
- Procuramos por você a noite toda. Vejo que está acompanhado. Qual o nome da bela dama?
O homem à nossa frente parece ter uns cinquenta anos: cabelos grisalhos, terno bem cortado e um ar despretensioso, o rosto aberto quando fala.
- Esta é Melina, minha irmã - diz Daniel, apontando para mim.
- Olá, senhor Miller. Feliz aniversário - digo, polida. Estendo a mão; ele, à maneira de um cavaleiro antigo, deposita um beijo no dorso dela.
- Daniel falou muito bem de você, garota. - Sua voz tem sinceridade, e por um instante quase viro o rosto pra encarar o irmão. - Ele disse que você é artista... mas parece bem mais jovem que ele. Diga-me: qual é sua idade?
- Faço vinte e quatro em alguns meses, senhor. - Respondo, honesta, e o sorriso dele se alarga em seguida.
.- Muito bom, muito bom. - ele diz, sorrindo satisfeito, com aquele tom caloroso de quem realmente gosta de estar cercado de gente. - Isis, querida, poderia vir aqui um momento?
A voz dele ecoa com leve entusiasmo, chamando por alguém em meio ao burburinho do salão. Meus olhos seguem a direção do seu olhar, e então a vejo - no centro de um pequeno grupo de mulheres mais velhas, está uma jovem de cabelos loiros e ondulados que refletem o brilho das luzes como fios de ouro polido. O vestido verde-esmeralda, ajustado ao corpo e fluido nas extremidades, a envolve com elegância quase cinematográfica. Ela se vira, e por um instante o mundo parece pausar - eu reconheceria aquele semblante curioso em qualquer lugar.
Um sorriso involuntário se desenha em meus lábios, acompanhado pela sensação agridoce das ironias que o destino adora me servir.
Seus olhos encontram os meus. Há um lampejo de reconhecimento, rápido mas inconfundível, e logo o sorriso dela se alarga - quente, genuíno, cheio de vida. Ela murmura algo às mulheres que a cercam e, sem hesitar, começa a caminhar em nossa direção. Há uma naturalidade felina em seus passos, uma confiança que parece dizer que o mundo inteiro é palco, e ela, o espetáculo principal.
Antes que o pai tenha tempo de dizer qualquer coisa, Isis já me envolve num abraço apertado - e eu retribuo sem pensar, ignorando por completo o olhar atônito dos dois homens ao nosso lado.
- Mel... que saudades, garota. - ela ri, ainda me apertando forte.
- Digo o mesmo, Izzi. - respondo, rindo também. - Quanto tempo faz? Três anos?
- Um ano e meio, garota! - ela corrige, divertida, afastando-se só o suficiente para me encarar. - E eu amei seu cabelo! O vermelho combina com você e...
- Sem querer ser intrometido, meninas, mas... de onde vocês se conhecem? - a voz de Daniel corta o ar, carregada daquela desconfiança fraternal típica dele.
- Pai - diz Isis, girando o rosto para o senhor Miller, completamente alheia à tensão súbita - essa é a Mel. A Melina. Aquela amiga que eu fiz na aula de artes em Boston, quando estive lá da última vez.
O senhor Miller ri, encantado com a coincidência, e começa a fazer perguntas sobre a suposta aula. Enquanto isso, Daniel me lança olhares semicerrados entre uma resposta e outra de Isis, como se tentasse decifrar cada detalhe da história.
Tecnicamente, ela não mentiu. Era uma "aula de artes", sim - só não mencionou que a arte em questão envolvia carros turbinados, motores roncando e adrenalina correndo solta nas veias. O evento era um dos maiores do país, um paraíso para amantes da velocidade e, claro, para quem gostava de sentir o asfalto vibrar sob as rodas.
Quem olha pra aquele rostinho angelical, com os olhos azuis reluzindo como um dia de verão, jamais imaginaria que ela é um monstro nas pistas.
Corremos juntas em alguns rachas memoráveis antes de ela voltar pra Los Angeles - e agora, ao que tudo indica, o universo decidiu brincar de novo com as probabilidades. A filha do sócio do meu irmão. Claro que sim.
Pelo jeito, Daniel não está mais tão entusiasmado com a ideia de eu fazer novas amizades essa noite. Mesmo depois que Isis me puxa pela mão e nos afastamos em meio à multidão, ainda sinto o olhar dele queimando em nossas costas, enquanto o senhor Miller tenta distraí-lo com uma conversa animada.
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