Capítulo 12
O Príncipe Adormecido
Annia se aproximou, tocando com delicadeza o ombro de Isadora. Ouviu o triste relato da jovem e tentou confortá-la, sem imaginar que seu filho, Rafique, lutava contra tudo para voltar ao mundo real.
— Calma, querida... Não fale assim. Isso foi apenas um sonho r**m. Você não está em perigo aqui no palácio. Eu sou a princesa Annia Al Salim. Nada vai acontecer com você, nem com os meus futuros netos.
— Obrigada, Alteza…
Isadora agradeceu, mas, no fundo, não acreditava estar totalmente segura. Algo dentro dela a alertava, de forma silenciosa, mas insistente.
Fitou o rosto sereno de Rafique por mais alguns instantes, como se esperasse uma resposta ou um leve movimento, um suspiro, qualquer sinal. Mas nada veio. O que ela não sabia era que, sim, ele tentava voltar. E que odesespero dela o impulsionava para mais perto do despertar.
Inocente da dura batalha que se travava dentro dele, Isadora assentiu com a cabeça e deixou um beijo na testa de Rafique. Em seguida, aceitou o convite de Annia para sair. Era hora do banho do príncipe. Ela então foi conduzida de volta ao quarto.
Ao chegar, encontrou sua madrinha Simone à espera do lado de fora. As duas entraram juntas, e a princesa se despediu, tranquila por saber que Isadora estava sob os cuidados de alguém de confiança.
No interior do aposento, uma mesa cuidadosamente posta exibia frutas frescas, pães e chás aromáticos. Mas antes que Isadora pudesse tocar em qualquer coisa, Simone franziu o cenho. Um cheiro estranho se misturava ao doce perfume do chá.
Seu instinto de enfermeira acendeu o alerta. Ela se aproximou, farejando o ar. Aquilo não era aroma de especiarias... havia algo além. Algo químico. Algo errado.
Isadora, embora sem fome, por educação e para não preocupar a tia, já se dirigia para a mesa.
— Pare, Isa! — disse Simone, de forma abrupta, quase em tom de ordem.
— Dinda...? — murmurou Isadora, confusa e um pouco assustada.
Simone não respondeu de imediato. Aproximou-se da mesa, pegou uma colher de prata, mergulhou em uma das geleias, aproximou do nariz e inalou profundamente. Seus olhos escureceram, sérios.
— A comida está contaminada. — disse, firme. — Alguém tentou envenenar você. Eu tenho quase certeza.
Sem perder tempo, ela chamou uma das servas à porta.
— Traga agora a responsável pela cozinha da Isadora. E mande chamar a princesa Annia. Imediatamente!
Isadora empalideceu. Suas mãos tremiam. A respiração acelerou. O medo que sentia antes agora ganhava forma, rosto e cheiro.
Quando Annia chegou, Simone a recebeu com firmeza e franqueza:
— Há veneno na comida. E não é um erro. É algo planejado. Alteza, posso garantir. Conheço o cheiro. É de um fármaco específico. Posso identificar no laboratório, se precisar.
— Não precisa dizer mais nada, Simone. — respondeu Annia, séria. — Eu acredito em você.
A mente da princesa voou para a lembrança dos filhos de Hassan. Lembrou-se dos olhares ardilosos e da inquietação na sala do Sheik, quando ele revelou que Rafique já tinha herdeiros. Mas ela tentou desmentir, porém pelo visto não havia funcionando.
Seus olhos se estreitaram. Voltou-se para Isadora.
— Você não tocou em nada?
— Não... não tive tempo, Alteza...
— Graças a Alá... — suspirou Annia, aliviada, levando uma das mãos ao peito.
Agora, sua preocupação era visível. Não apenas pela jovem que carregava os netos. Mas pelo herdeiro adormecido. Pelo futuro do trono. Pelo sangue puro real.
Imediatamente, mandou recolher toda a comida e a enviou para análise. Depois, conduziu Isadora e Simone até seus próprios aposentos, onde uma nova refeição foi servida, somente após Simone testar e aprovar os alimentos.
Isadora comeu um pouco, porém m*l conseguiu se alimentar enquanto contava à madrinha o pesadelo que tivera.
Enquanto isso, a princesa Annia foi até os aposentos do sheik Hassan. Ele lia um antigo pergaminho, mas ao vê-la entrar, guardou o documento e levantou-se.
— O que foi agora, Annia?
— A comida de Isadora foi envenenada. Simone identificou.
Hassan franziu a testa, desconfiado. Achava que Annia podia estar exagerando ou que, talvez, a comida só estivesse um pouco passada.
— Quem faria isso?
— Você sabe quem. — respondeu ela, sem rodeios. — Taric e Jafer. Seus filhos das outras esposas. Eles sabem que Isadora carrega os herdeiros diretos. Sabem que Rafique vai acordar. E querem impedir que isso aconteça.
O sheik suspirou, cansado. Sentou-se novamente.
— Eles não vão fazer nada, Annia. Acalme-se. Acabei de redigir um decreto pós-morte declarando que a sucessão pertence a Rafique e seus descendentes. Eles saberão disso em breve. E não seriam loucos de desobedecer uma ordem minha.
— Você os subestima, Hassan. Eles já tentaram. Por Alá, Simone impediu! Você não ouviu?
Ele a fitou longamente. Depois, baixou o olhar.
— Ouvi, sim, Annia... mas não levei tão a sério. Pensando melhor, talvez você esteja certa. A história da comida envenenada pode mesmo ser real. Você mandou examinar?
— Sim. Está sendo analisada. Mas não podemos mais esperar. Precisamos tirar Isadora daqui.
— Para onde?
— Para a casa do meu irmão. O sheik Malik de Al Salim. Ele sempre foi leal a mim. Ela estará segura lá. Ele tem poder, respeito e manterá nosso segredo.
— E Isadora vai aceitar?
— Vai. Ela não tem escolha. Estamos protegendo a vida dela, a dos filhos e o futuro do reino. É a única solução.
Hassan assentiu, devagar.
— Prepararei tudo. Ligarei para Malik. Ao anoitecer, ela parte.
E assim, a jovem estrangeira brasileira, grávida do príncipe adormecido, seria levada em segredo para um novo esconderijo. Mas os inimigos estavam mais próximos do que todos imaginavam. E a guerra silenciosa já havia começado.
Na ala Leste privativa de Lyaza, a segunda esposa do sheik Hassan, a notícia chegou rápido. A comida envenenada havia falhado. E o decreto que beneficia Rafique e seus descendentes foi assinado.
Lyaza andava de um lado para o outro, os olhos flamejando. Taric, seu filho, a observava com inquietação.
Pouco depois, uma serva de Annia, cúmplice de Lyaza avisou do segredo, que Isadora sairia naquela noite do palácio.
Ao saber, Lyaza declarou, com frieza:
— Está decidido. — murmurou. — Aquela maldita estrangeira precisa desaparecer, ainda hoje, antes que o velho Hassan anuncie o maldito decreto.
Autora: Graciliane Guimarães