Capítulo 13
O Príncipe Adormecido
Taric cruzou os braços, sem surpresa. Conhecia bem a mãe. Sabia que ela era capaz de tudo, afinal, foi ela mesma quem arquitetou uma armadilha para se tornar esposa do Sheik Hassan. Era inteligente. É perigosamente bonita.
— E como pretende fazer isso, mãe?
— Com a ajuda de alguém, um antigo amigo muito importante. — Ela sorriu, com os olhos frios como a madrugada no deserto. — Félix.
— Tudo bem, faça o necessário, mas que não me atinja.
— Claro, querido, você é o futuro Sheik.
Taric queria o poder, mas era muito medroso, e deixaria sua mãe agir.
O nome pairou no ar como uma lembrança proibida. Eles se ajudaram no passado: ela, para se tornar esposa real; ele, para se tornar chefe da guarda.
Minutos depois, Félix entrou nos aposentos dela. Alto, forte, com olhos escuros marcados por batalhas e desilusões, o homem exalava respeito. Sua maior arma, porém, não era a espada. Era sua autoridade inquestionável.
— Me chamou, Senhora Lyaza?
— Sim. Preciso da sua lealdade como nos velhos tempos. — disse ela, oferecendo-lhe chá enquanto uma jovem criada caminhava entre eles, recolhendo bandejas.
Mas, tudo fora planejado para tentar o chefe da guarda.
— Está me oferecendo a moça? — ele perguntou, direto. — Ah, Lyaza, você sabe que já tive mulheres mais belas e poderosas. Além disso, não aceito dinheiro. Já não preciso. Mas se for você, talvez eu possa pensar em algo.
Ela o encarou com firmeza, mas com charme.
— Então ainda pensa em mim, não é?
— Nunca deixei de pensar. Por isso nunca me casei. — ele declarou, com orgulho na voz. — E depois da morte do Sheik Hassan, você será minha. Como sempre deveria ter sido.
— Não farei objeção. Aceito. — disse, com um sorriso enigmático. — Afinal, preciso de um homem como você. Mas antes, quero que você faça a maldita estrangeira brasileira desaparecer, Félix. Faça isso e terá o que sempre quis. O que nunca teve permissão de tocar, mesmo antes de Hassan partir.
Félix se levantou bruscamente e se aproximou. Puxou-a para os braços e a ergueu com facilidade, como se ela fosse feita de pluma. Em seguida, a prendeu contra a pilastra, os olhos queimando de desejo.
— Então me prometa que, se eu for pego, me ajudará a fugir. E depois, virá até mim, onde eu estiver no ocidente. Para me dar seu corpo. Sem restrições.
Ela não recuou. Não protestou. Apenas sorriu, o olhar ardente. E assentiu.
O pacto foi selado não com ouro, mas com desejo e ambição pelo poder.
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Depois de tudo combinado com o Sheik Hassan, Annia foi até Isadora para dar a notícia. A jovem, ao ouvir, levou instintivamente as mãos ao ventre, como se tentasse proteger os filhos que carregava.
— Alteza, por favor, eu não quero me afastar daqui. — suplicou, desesperada. — Princesa, olha será que não tem outra opção? Por favor, eu não quero, não posso deixar de ver o Rafique!
Annia ficou tocada, por Isadora gosta de seu filho, mas precisava ser energética, para um bem maior.
— Você está em perigo, Isadora. — disse Annia com suavidade, mas firmeza. — Depois do que aconteceu, não é mais seguro mantê-la aqui conosco. Você terá que partir ainda hoje, esta noite.
— Meu Deus… tão rápido assim? Mas eu posso vê-lo uma última vez?
Annia assentiu, os olhos marejados. Agora, também ela temia pelo filho.
— Pode. Mas esta será sua última oportunidade antes de ir para seu esconderijo secreto.
— Tudo bem, Alteza.
Naquela noite, Isadora entrou silenciosamente no quarto de Rafique. Simone, sua madrinha, estava com ela, mas agora como enfermeira do príncipe. O coração da jovem disparava, batendo forte, o peito apertado por um pressentimento que não sabia nomear. Ao ver Rafique deitado, imóvel, o rosto sereno demais ela desabou.
— Oi, Rafique... sou eu Isadora de novo. — disse, aproximando-se e segurando a mão dele com carinho. — Estranho, né? Eu vim te ver mais de uma vez ao dia, mas hoje é diferente. Aconteceu algo muito sério e eu vou ter que sair do palácio, por segurança, estou mesmo correndo risco de vida aqui. Ainda não sei pra onde vou, mas sua mãe disse que é um lugar seguro.
Ela respirou fundo, tentando conter o choro, mas falhou.
— Eu não quero ir. Não assim. Por favor, acorde. Acorde e me impeça de ir embora para longe de você...
As lágrimas vieram, grossas, quentes, molhando a mão dele. Tocando-o como se pudessem despertá-lo.
A voz dela cortou o vazio do coma.
E lá, no mundo de areia e escuridão, Rafique ouviu. O mundo real começava a voltar. O som dos monitores, a respiração dela, o choro dolorido, e de repente ele estava sendo puxado por uma corda invisível. Mas mesmo assim ele agarrou com força, desesperado, tentando alcançar a luz que surgia no fim daquele caminho.
Mas seu corpo ainda era um fardo. As pernas, pesadas. A alma, exausta.
— Não faça isso, Isadora... — disse Simone, puxando-a para um abraço. — Não se desespere, meu amor. O príncipe precisa reagir. Mas não adianta você se acabar assim.
Isadora assentiu, aceitou o abraço, mas em seguida se desvencilhou da tia e sem conseguir se afastar do príncipe, tocou o rosto de Rafique com ternura. Beijou-lhe a testa demoradamente, com carinho sagrado.
A luz dentro de Rafique ficou mais forte. O deserto começou a se desfazer.
Isadora, vencida pelo cansaço, encostou a testa na dele. Chorou mais. As lágrimas escorreram e caíram sobre o rosto do príncipe. Gotas grossas, vivas.
E então...
O monitor oscilou. Sutilmente. Não o suficiente para alertar os sensores, mas perceptível.
No instante seguinte, tudo mergulhou em trevas. Um apagão repentino envolveu o quarto e todo o palácio. Apenas a luz vermelha de emergência iluminava fracamente o ambiente. O silêncio era denso, sufocante.
— Tia...? O que foi isso?
— Deve ter acabado a energia... mas os geradores devem religar logo. Fique calma, Isa.
Mas Isadora sentia. Algo estava errado. Muito errado. E no segundo seguinte.
A porta foi aberta com brutalidade. Dois homens mascarados invadiram o quarto. Armados com facas. Determinados. Haviam sido liberados por Félix, o chefe da guarda.
— É você... — disse um deles, rosnando, a lâmina cintilando. — A vaca grávida brasileira. Eu vou te levar. Quietinha. Sem reações, hein!
Isadora recuou, trêmula, o corpo tomado pelo pânico. Tentou alcançar a mão de Rafique, mas estava longe. E então gritou. Gritou como nunca antes.
— Eu não vou!...SOCORRO RAFIQUE!
Foi esse grito de medo e desespero dela. Que percorreu a escuridão e o puxou imediatamente até à luz.
Rafique despertou.
As mãos dele tremeram. Os olhos se abriram, no escuro. E a primeira palavra foi um sussurro baixo e rouco:
— Isadora...
Com esforço brutal, sentou-se. Mesmo fraco, mesmo preso a fios e tubos, levantou-se. Com uma força impulsionada pela fúria de proteger a mulher que o trouxe de volta para o mundo real.
Sua voz de comando ecoou com a ordem:
— LARGUEM ELA!
Os homens recuaram por um instante, chocados com a aparição impossível do príncipe.
Simone aproveitou a brecha. Se lançou sobre Isadora para protegê-la. Mas um dos invasores reagiu e a golpeou. A faca afundou em seu abdômen.
— TIA! NÃÃÃO! — gritou Isadora desesperada.
Ela imediatamente tenta segurar o corpo da tia ferida. Que começou a sangrar muito e caiu no chão.
O alarme soou como um grito de guerra. Os invasores fugiram antes que os guardas chegassem. Na verdade, eles não foram longe, só tiraram as máscaras, e fingiram como outros que procuravam invasores, afinal os dois eram homens da própria equipe de guardas, que a mando do chefe Félix tentaram fazer o trabalho sujo dele.
A luz voltou.
Rafique, cambaleando, se arrastou até a Isadora. Os fios ainda estavam presos ao corpo dele, mas os olhos vivos.
— Isadora... — sussurrou, com a voz rouca, mas cheia de vida.
Ela chorava, incrédula. Por vê-lo de pé, e pelo choque de ver a tia toda ensanguentada. Tudo foi demais para ela, e então suas vistas escureceu, mas agora era seu corpo que apagaria devido ao estresse.
Rafique, vendo o que sucedia, precisou a segurar antes que ela caísse desmaiada. Suas mãos grandes, mas ainda frágeis, foram decisivas, e a alcançaram evitando a queda brusca, e em seguida ele não resistiu e tocou o rosto dela.
Simone, permaneceu caída, gemia, mas sorria por ver Rafique desperto, ela sempre acreditou que ele voltaria. O sangue dela tingia o chão, mas a esperança renascia. Porque ele o príncipe antes adormecido agora havia voltado à vida.
Autora: Graciliane Guimarães