O príncipe Adormecido voltou a vida

1449 Palavras
Capítulo 13 O Príncipe Adormecido Taric cruzou os braços, sem surpresa. Conhecia bem a mãe. Sabia que ela era capaz de tudo, afinal, foi ela mesma quem arquitetou uma armadilha para se tornar esposa do Sheik Hassan. Era inteligente. É perigosamente bonita. — E como pretende fazer isso, mãe? — Com a ajuda de alguém, um antigo amigo muito importante. — Ela sorriu, com os olhos frios como a madrugada no deserto. — Félix. — Tudo bem, faça o necessário, mas que não me atinja. — Claro, querido, você é o futuro Sheik. Taric queria o poder, mas era muito medroso, e deixaria sua mãe agir. O nome pairou no ar como uma lembrança proibida. Eles se ajudaram no passado: ela, para se tornar esposa real; ele, para se tornar chefe da guarda. Minutos depois, Félix entrou nos aposentos dela. Alto, forte, com olhos escuros marcados por batalhas e desilusões, o homem exalava respeito. Sua maior arma, porém, não era a espada. Era sua autoridade inquestionável. — Me chamou, Senhora Lyaza? — Sim. Preciso da sua lealdade como nos velhos tempos. — disse ela, oferecendo-lhe chá enquanto uma jovem criada caminhava entre eles, recolhendo bandejas. Mas, tudo fora planejado para tentar o chefe da guarda. — Está me oferecendo a moça? — ele perguntou, direto. — Ah, Lyaza, você sabe que já tive mulheres mais belas e poderosas. Além disso, não aceito dinheiro. Já não preciso. Mas se for você, talvez eu possa pensar em algo. Ela o encarou com firmeza, mas com charme. — Então ainda pensa em mim, não é? — Nunca deixei de pensar. Por isso nunca me casei. — ele declarou, com orgulho na voz. — E depois da morte do Sheik Hassan, você será minha. Como sempre deveria ter sido. — Não farei objeção. Aceito. — disse, com um sorriso enigmático. — Afinal, preciso de um homem como você. Mas antes, quero que você faça a maldita estrangeira brasileira desaparecer, Félix. Faça isso e terá o que sempre quis. O que nunca teve permissão de tocar, mesmo antes de Hassan partir. Félix se levantou bruscamente e se aproximou. Puxou-a para os braços e a ergueu com facilidade, como se ela fosse feita de pluma. Em seguida, a prendeu contra a pilastra, os olhos queimando de desejo. — Então me prometa que, se eu for pego, me ajudará a fugir. E depois, virá até mim, onde eu estiver no ocidente. Para me dar seu corpo. Sem restrições. Ela não recuou. Não protestou. Apenas sorriu, o olhar ardente. E assentiu. O pacto foi selado não com ouro, mas com desejo e ambição pelo poder. ******************* Depois de tudo combinado com o Sheik Hassan, Annia foi até Isadora para dar a notícia. A jovem, ao ouvir, levou instintivamente as mãos ao ventre, como se tentasse proteger os filhos que carregava. — Alteza, por favor, eu não quero me afastar daqui. — suplicou, desesperada. — Princesa, olha será que não tem outra opção? Por favor, eu não quero, não posso deixar de ver o Rafique! Annia ficou tocada, por Isadora gosta de seu filho, mas precisava ser energética, para um bem maior. — Você está em perigo, Isadora. — disse Annia com suavidade, mas firmeza. — Depois do que aconteceu, não é mais seguro mantê-la aqui conosco. Você terá que partir ainda hoje, esta noite. — Meu Deus… tão rápido assim? Mas eu posso vê-lo uma última vez? Annia assentiu, os olhos marejados. Agora, também ela temia pelo filho. — Pode. Mas esta será sua última oportunidade antes de ir para seu esconderijo secreto. — Tudo bem, Alteza. Naquela noite, Isadora entrou silenciosamente no quarto de Rafique. Simone, sua madrinha, estava com ela, mas agora como enfermeira do príncipe. O coração da jovem disparava, batendo forte, o peito apertado por um pressentimento que não sabia nomear. Ao ver Rafique deitado, imóvel, o rosto sereno demais ela desabou. — Oi, Rafique... sou eu Isadora de novo. — disse, aproximando-se e segurando a mão dele com carinho. — Estranho, né? Eu vim te ver mais de uma vez ao dia, mas hoje é diferente. Aconteceu algo muito sério e eu vou ter que sair do palácio, por segurança, estou mesmo correndo risco de vida aqui. Ainda não sei pra onde vou, mas sua mãe disse que é um lugar seguro. Ela respirou fundo, tentando conter o choro, mas falhou. — Eu não quero ir. Não assim. Por favor, acorde. Acorde e me impeça de ir embora para longe de você... As lágrimas vieram, grossas, quentes, molhando a mão dele. Tocando-o como se pudessem despertá-lo. A voz dela cortou o vazio do coma. E lá, no mundo de areia e escuridão, Rafique ouviu. O mundo real começava a voltar. O som dos monitores, a respiração dela, o choro dolorido, e de repente ele estava sendo puxado por uma corda invisível. Mas mesmo assim ele agarrou com força, desesperado, tentando alcançar a luz que surgia no fim daquele caminho. Mas seu corpo ainda era um fardo. As pernas, pesadas. A alma, exausta. — Não faça isso, Isadora... — disse Simone, puxando-a para um abraço. — Não se desespere, meu amor. O príncipe precisa reagir. Mas não adianta você se acabar assim. Isadora assentiu, aceitou o abraço, mas em seguida se desvencilhou da tia e sem conseguir se afastar do príncipe, tocou o rosto de Rafique com ternura. Beijou-lhe a testa demoradamente, com carinho sagrado. A luz dentro de Rafique ficou mais forte. O deserto começou a se desfazer. Isadora, vencida pelo cansaço, encostou a testa na dele. Chorou mais. As lágrimas escorreram e caíram sobre o rosto do príncipe. Gotas grossas, vivas. E então... O monitor oscilou. Sutilmente. Não o suficiente para alertar os sensores, mas perceptível. No instante seguinte, tudo mergulhou em trevas. Um apagão repentino envolveu o quarto e todo o palácio. Apenas a luz vermelha de emergência iluminava fracamente o ambiente. O silêncio era denso, sufocante. — Tia...? O que foi isso? — Deve ter acabado a energia... mas os geradores devem religar logo. Fique calma, Isa. Mas Isadora sentia. Algo estava errado. Muito errado. E no segundo seguinte. A porta foi aberta com brutalidade. Dois homens mascarados invadiram o quarto. Armados com facas. Determinados. Haviam sido liberados por Félix, o chefe da guarda. — É você... — disse um deles, rosnando, a lâmina cintilando. — A vaca grávida brasileira. Eu vou te levar. Quietinha. Sem reações, hein! Isadora recuou, trêmula, o corpo tomado pelo pânico. Tentou alcançar a mão de Rafique, mas estava longe. E então gritou. Gritou como nunca antes. — Eu não vou!...SOCORRO RAFIQUE! Foi esse grito de medo e desespero dela. Que percorreu a escuridão e o puxou imediatamente até à luz. Rafique despertou. As mãos dele tremeram. Os olhos se abriram, no escuro. E a primeira palavra foi um sussurro baixo e rouco: — Isadora... Com esforço brutal, sentou-se. Mesmo fraco, mesmo preso a fios e tubos, levantou-se. Com uma força impulsionada pela fúria de proteger a mulher que o trouxe de volta para o mundo real. Sua voz de comando ecoou com a ordem: — LARGUEM ELA! Os homens recuaram por um instante, chocados com a aparição impossível do príncipe. Simone aproveitou a brecha. Se lançou sobre Isadora para protegê-la. Mas um dos invasores reagiu e a golpeou. A faca afundou em seu abdômen. — TIA! NÃÃÃO! — gritou Isadora desesperada. Ela imediatamente tenta segurar o corpo da tia ferida. Que começou a sangrar muito e caiu no chão. O alarme soou como um grito de guerra. Os invasores fugiram antes que os guardas chegassem. Na verdade, eles não foram longe, só tiraram as máscaras, e fingiram como outros que procuravam invasores, afinal os dois eram homens da própria equipe de guardas, que a mando do chefe Félix tentaram fazer o trabalho sujo dele. A luz voltou. Rafique, cambaleando, se arrastou até a Isadora. Os fios ainda estavam presos ao corpo dele, mas os olhos vivos. — Isadora... — sussurrou, com a voz rouca, mas cheia de vida. Ela chorava, incrédula. Por vê-lo de pé, e pelo choque de ver a tia toda ensanguentada. Tudo foi demais para ela, e então suas vistas escureceu, mas agora era seu corpo que apagaria devido ao estresse. Rafique, vendo o que sucedia, precisou a segurar antes que ela caísse desmaiada. Suas mãos grandes, mas ainda frágeis, foram decisivas, e a alcançaram evitando a queda brusca, e em seguida ele não resistiu e tocou o rosto dela. Simone, permaneceu caída, gemia, mas sorria por ver Rafique desperto, ela sempre acreditou que ele voltaria. O sangue dela tingia o chão, mas a esperança renascia. Porque ele o príncipe antes adormecido agora havia voltado à vida. Autora: Graciliane Guimarães
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