Capítulo 20
O príncipe Adormecido
— Parece que sim. — respondeu ela, encarando o chão. — Mas uma princesa cativa.
Karim sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas seu olhar era intenso.
— Não vou mentir, Isadora. Não está tudo sob controle, mas a gente precisa garantir que nada saia do planejado. O Sheik Hassan pai de Rafique e o Sheik Malik são imprevisíveis, e a mãe do Rafique então... — fez uma careta.
Ela levantou o olhar para ele.
— Rafique disse que vai resolver tudo. Que só precisamos de um pouco de paciência.
Karim concordou.
— Ele é um homem de palavra. Enquanto ele resolve. Vou garantir que você fique segura enquanto isso.
Nesse momento, o celular de Karim tocou. Ele atendeu, ainda sorrindo para Isadora.
— Fala, Rafique! — disse ele, com a voz discreta.
— Como está tudo aí com a Isadora? — perguntou a voz preocupada de Rafique, no telefone.
Karim olhou para Isadora.
— Está bem, e sendo tratada como uma princesa, na minha casa.
Ele passou o telefone para ela.
— Quer falar com ele? — perguntou Karim, com um leve sorriso sedutor.
Isadora pegou o telefone, com o coração batendo mais forte.
— Rafique... — sua voz saiu suave.
— Isadora! — a voz do príncipe soou animada, mas também preocupada. — Estou tendo problemas sérios no palácio, com meu pai e com meu tio Malik. Mas não se preocupe, vou conseguir a aprovação do casamento o quanto antes. Prometo.
Ela sentiu uma mistura de alívio e ansiedade crescer dentro dela.
— Eu confio em você, mas e a minha tia Simone. — respondeu, e perguntou tentando parecer firme.
Rafique respondeu com um riso.
— E eu também confio em você, e sua tia está estável. Agora aguente firme. Logo estaremos juntos.
Ela desligou o telefone, e Karim voltou a olhar para ela, agora com uma expressão ainda mais próxima, quase íntima.
— Viu só? Você não está sozinha.
Isadora desviou o olhar, tentando conter a emoção.
— Obrigada, Senhor Karim. Por tudo.
Ele se levantou, caminhando até a janela, olhando para o horizonte da cidade que brilhava ao entardecer.
— Não há de quê. O que vier, eu posso enfrentar.
Ela o observava, dividida entre a segurança que sentia ao lado dele e a inquietação de estar presa, longe da sua liberdade.
— Você está bem? — Karim perguntou, virando-se para ela.
Ela respirou fundo.
— Sei que Rafique está fazendo o possível... mas isso tudo ainda me assusta.
Karim deu um passo em direção a ela, com um sorriso suave.
— Então deixe que eu te mostre que pode confiar em mim. Aqui, você é protegida. E, quem sabe, até possa encontrar algum conforto se deseja.
Isadora o encarou, sentindo no ar algo estranho. Por um momento, o medo, antes na dúvida, começava a se instalar.
A noite desceu sobre Dubai, e as luzes da cidade brilhavam como estrelas no chão, enquanto Isadora, na cobertura luxuosa, tentava se acostumar à ideia de que, por enquanto, era uma espécie de hóspede tratada como uma princesa, mas sem dúvidas uma princesa prisioneira.
Cinco dias depois, já era quase o final de mais um entardecer, quando ela foi informada que Karim a chamava na sala. Com rapidez ela foi até ele.
Karim mantinha o charme e o sorriso. Vestia-se com elegância, seus olhos cor de mel sempre em movimento. Mas no olhar de Karim, havia também um plano que começava a se desenhar. Uma armadilha silenciosa. E talvez mortal.
E ele não perdeu tempo, seu plano era claro, tinha que acabar com o encanto de Isadora por Rafique, e sim ele a levaria no grande jantar de noivado real.
Que estava acontecendo em um local privado no luxuoso hotel no centro de Dubai. Após o episódio da bomba no palácio, a celebração tinha mudado de endereço, o que facilitaria sua nova jogada.
Veria a princesa da pérsia Kaisle, e poderia exibir à ela, Isadora, ao contrário do que prometeu a Rafique. Faria as duas mulheres odiarem ele, e vir para os seus próprios braços.
— Preciso dizer, Isadora... Você é muito mais bonita do que Rafique me descreveu antes. — sorriu.
Isadora corou. Não respondeu. Realmente ela tinha razão em ter medo, o amigo do Rafique não era confiável.
Karim riu.
— Ah... desculpe. Não quis te deixar desconfortável.
Ela ergueu o queixo.
— Olha, não sei o que você está insinuando. Mas eu só vim para esse apartamento com o senhor porque confio no Rafique. E só.
Ele sorriu de canto, encarando-a por um segundo a mais do que o necessário.
— Entendido. E não se preocupe. Eu não sou seu inimigo. E só queria te levar para jantar, passear um pouco. Estou entediado, e acredito que você também esteja.
Desconfiada mas louca para sair um pouco ela aceitou, em seguida foi para o quarto se arrumar. Um vestido elegante dourado tinha sido colocado na cama, e um véu discreto.
O vento quente da noite de Dubai trazia o perfume adocicado das flores exóticas que adornavam a entrada privativa do Al Mahara, o restaurante submarino do hotel mais luxuoso do mundo, o Burj Al Arab Jumeirah.
Isadora, sem saber exatamente o que a esperava, desceu da limusine guiada por um motorista impecavelmente trajado, ao lado de Karim, que, como sempre, exalava um charme leve e despretensioso.
Ela alisou o vestido dourado, de seda cintilante, que Karim havia lhe presenteado, um corte elegante, com f***a lateral e bordados quase imperceptíveis que captavam a luz como se cada fio tivesse sido mergulhado em ouro líquido. Sobre o vestido, um véu de tule leve caía-lhe até o queixo, prendendo-se atrás das orelhas com grampos discretos. Karim havia dito que era apenas um jantar formal e que o véu seria por respeito à ocasião, nada demais.
— Está deslumbrante, Isadora. — Karim comentou enquanto entregava o convite a um segurança alto, de olhar severo.
— É mesmo só um jantar? — ela perguntou, ainda desconfiada pela quantidade de guardas armados e pela aura quase cerimonial no ar.
— Um jantar muito importante. — ele sorriu, mas desviou o olhar.
O corredor de acesso ao restaurante estava decorado como um conto das Mil e Uma Noites: tapetes persas, arcos entalhados, luminárias de vidro colorido pendendo do teto e o som suave de um violino sendo tocado ao vivo. Perfumes de cedro e jasmim se misturavam, e havia uma presença silenciosa, quase sagrada, no ar.
Ao entrarem, Isadora se deparou com um salão imenso, circular, as paredes de vidro revelando a visão hipnótica do oceano azul profundo, com cardumes passando preguiçosamente. No centro, um pódio elevado, coberto por um tapete bordado à mão, exibia duas cadeiras trono douradas. Acima delas, bandeiras uma com o brasão da família do Sheik Hassan Al-Nahyan, pai de Rafique, e outra com o símbolo dourado da Casa Real Persa.
Autora: Graciliane Guimarães