Alguns dias se passaram desde a reunião com os professores. Agnes e eu conversávamos cada vez mais, principalmente durante os intervalos e na saída do trabalho. Quando eu estava com ela, sentia como se estivesse conversando com alguém muito próximo, como uma irmã. Ela gostava de contar histórias e sempre parecia empolgada quando eu comentava sobre algum livro. Conhecê-la tinha tornado meus dias na escola menos solitários.
A última vez que eu tinha visto Vincent, foi quando ele me perguntou sobre a aula de reforço. Nos primeiros dias, pensei que ele apareceria, mas à medida que as semanas passaram, me esqueci completamente dele, até aquele dia.
Embora eu estivesse fazendo estágio, em alguns dias eu precisava sair mais cedo para participar de reuniões na faculdade ou entregar documentos. Nesse horário, os alunos estavam em aulas comuns ou de reforço, por isso raramente eu encontrava alguém conhecido na escola ou fora dela.
Porém, uma tarde, após receber uma mensagem da minha orientadora pedindo para encontrá-la na universidade, reencontrei Vincent. De longe, vi que ele estava sentado em uma praça próxima a escola. Vê-lo ali, naquela hora, me deixou preocupado, já que ele parecia sempre assistir às aulas normalmente.
Pensei se deveria ir até ele, afinal, além de estar com o horário corrido para encontrar minha professora, eu acreditava que fora da escola do ensino médio, alunos e professores deveriam manter a distância. Acabei decidindo que iria até o ponto de ônibus e ignoraria Vincent, mas ao olhar para o lado na direção dele uma última vez, notei que ele parecia triste, preocupado. Enquanto falava no celular, ele colocava a mão no rosto, como se tentasse controlar as suas emoções. Aquele comportamento se mostrava atípico, principalmente porque Vincent sempre pareceu alegre nas vezes anteriores que o encontrei.
Mudei de ideia e pensei que deveria falar com ele, não como um conhecido, mas como um professor que se preocupava com o bem-estar dos alunos. Me aproximei dele e sentei ao seu lado.
Ainda envolvido pela ligação, Vincent não olhou para mim. Ele não tinha percebido que eu estava próximo.
"Que merda!" - Vincent disse desligando o celular e tampando o rosto com as duas mãos.
"Oi Vincent…"
"O quê?" - ele olhou para mim surpreso e assustado, tentando esconder as lágrimas que começavam a escorrer em suas bochechas rosadas.
"Desculpe incomodar. Te vi de longe e queria saber se está tudo bem."
"Que vergonha você me ver assim, com essa cara de derrotado…"- ele respondeu desviando o olhar.
"Não se preocupe. Se chorar é coisa de derrotado, então acho que eu fui derrotado muitas vezes. Não seja tão duro com você mesmo."
Vincent ficou calado por alguns minutos (percebi que ele estava tentando se acalmar). Eu não queria incomodá-lo perguntando o que estava acontecendo, não só porque eu não queria me envolver, mas também porque eu sabia que assuntos pessoais eram delicados. A minha vida inteira eu tentei evitar falar dos meus problemas com as pessoas porque eu sentia que deveria enfrentá-los sozinho, assim como minha mãe fazia desde que eu nasci. Eu queria ser forte como ela, mas acabei me tornando alguém que não conseguia desabafar.
"Obrigado pelas palavras...mas no fim das contas, para os meus pais eu continuo sendo um derrotado. "
"Vou parecer um cara chato agora, mas eu sei como você se sente. Esse sentimento de se achar insuficiente tem me acompanhado a minha vida inteira, e é justamente por isso que diariamente eu tento combater isso com o meu esforço. Tinha dias que eu não queria estudar e nem ir pra faculdade, principalmente quando eu tinha problemas com algum colega ou professor. Mas percebi algo importante depois de passar por isso várias vezes: não importa o que falam sobre a gente, só nós sabemos o que somos capazes de fazer. Se alguém disser que você é derrotado, isso não significa nada. O seu esforço é o que realmente dirá quem você é."
"Queria que as coisas fossem assim, como você diz. Só que na realidad é bem diferente. Tenho me esforçado muito, todos os dias eu estudo, escrevo um capítulo do meu livro e procuro referências para os meus personagens...mas tem horas que eu penso que nada disso vale a pena. Como vou conseguir ser um escritor famoso se ao invés de escrever, eles querem que eu me prepare para um curso que ‘vai me dar dinheiro de verdade’? Para você ter ideia, eu me inscrevi em um concurso literário que vai cobrir todos os custos de edição e distribuição do autor que ganhar em primeiro lugar. Você é a primeira pessoa para quem eu conto isso, e sabe por quê? Eu queria vencer esse concurso e provar pra eles que eu tenho capacidade de me destacar, mas não posso continuar com os capítulos se eu não tiver tempo. É até por isso que eu estava discutindo no celular. Meu pai me mandou uma mensagem dizendo que depois da escola eu iria para uma aula de reforço com um professor particular. Eu liguei pra dizer que eu não iria, que as aulas na escola eram suficientes. Mas ele não consegue ouvir um não. Começou a me ameaçar, dizendo que se eu não aceitasse as aulas, ele iria tirar o meu notebook e qualquer meio que eu pudesse usar para escrever, você acredita nisso? Mas eu não me importo, eu não preciso de um computador para escrever. Posso usar caderno, papel higiênico, qualquer coisa para registrar o que eu imagino."
Ouvi atentamente enquanto Vincent desabafava. Ele parecia mais calmo do que no momento em que eu o encontrei, e à medida que falava, voltava a expressar aquela confiança e personalidade que eu conhecia. Mas enquanto eu estava sentado com ele conversando, me esqueci da minha reunião. Lembrei só quando recebi uma mensagem da minha professora perguntando se eu já tinha chegado.
"Desculpe Vincent, preciso responder uma mensagem, só um minuto."
Me desculpei com a minha professora e pedi para remarcar a reunião para o dia seguinte. Embora eu não tivesse planejado passar a tarde conversando com Vincent, permaneci com ele até o início da noite. Não vi o tempo passar.
"Está ficando tarde, talvez seja melhor você voltar para casa agora."
"Eu não quero voltar para casa, pra ser bem honesto. Não tenho ideia do que vou fazer, mas não quero perder a oportunidade de participar desse concurso. Se eu não puder ser escritor, eu não vou querer fazer mais nada da minha vida."
Eu podia reconhecer parte de mim em Vincent. Assim como ele, eu sofri com a repressão do meu pai. Quando eu disse que estudaria literatura, ele disse que eu era um inútil que viveria para sempre às custas dele. Ver minha mãe me apoiando e confrontado meu pai para defender o meu sonho foi o que permitiu que eu me tornasse professor temporário. Se não fosse por ela, eu teria desistido da ideia e com certeza estaria me sentindo perdido, sem planos para o futuro.
Ao ouvir os desabafos de Vincent, percebi que ninguém o apoiava. Seus pais, amigos, professores...ninguém parecia acreditar que ele seria um bom escritor. Ver a tristeza em seu olhar e ao mesmo tempo a paixão pela escrita me fizeram tomar uma atitude que eu não imaginei que faria.
"Talvez haja uma saída." - respondi, ainda pensando se fazer aquela proposta era uma boa ideia.
"Qual? Eu aceito qualquer opção que não seja apenas obedecer os meus pais."
"E se você contar para os seus pais que está escrevendo o livro para a competição? Talvez eles te deem uma chance de seguir com o que você quer."
"Se eles souberem, é capaz de falarem para eu cancelar a minha inscrição porque fiz sem a autorização deles."
"Você pode tentar negociar, prometer que se não conseguir o primeiro lugar no concurso, vai aceitar fazer as aulas de reforço que eles querem."
O que eu estava fazendo? Estava dentro da minha responsabilidade fazer aquele tipo de sugestão para resolver o problema pessoal do Vincent? Eu estava começando a me sentir tão errado, que por um momento tive a ideia de pedir para que ele esquecesse o que eu estava propondo.
"É, acho que não tenho mais nada a perder. Na pior das hipóteses, eu fujo de casa ou dou um jeito de perseguir o meu sonho custe o que custar."
"É perigoso pensar assim, você não precisa chegar até as últimas consequências para conseguir o que quer. Tente negociar, você nunca sabe quando as coisas podem dar certo."
"Tudo bem...eu vou fazer o que você sugeriu. Talvez ainda haja esperança."
"Não desista, tenho certeza de que as coisas vão dar certo. Boa sorte com a conversa, e quando precisar, sabe onde me encontrar."
"Obrigado professor Dimitri. Se não fosse por você e por essa conversa, eu realmente não sei o que eu seria capaz de fazer.
Me despedi com um aceno de mão e me virei de costas para Vincent (naquele dia eu voltaria a pé para casa). Após dar alguns passos, olhei para trás, e qual foi a minha surpresa ao ver que Vincent também estava olhando para mim. Senti um frio na barriga.
Acenei a cabeça novamente e acelerei os passos, olhando para o chão durante todo o trajeto. Algo me dizia que aquela conversa inesperada geraria consequências que nenhum de nós seria capaz de prever.
Alguém bateu na porta da sala no dia seguinte. Levantei a cabeça e vi que era Vincent.
"Posso conversar com você um pouco?"
"Claro, sente-se."
Era difícil identificar o que a expressão de Vincent queria dizer. Ele parecia menos triste do que no dia anterior, mas não aparentava felicidade. Fiquei curioso para saber o que ele queria me contar.
"Eu fiz como você falou...contei sobre o concurso e tentei negociar."
"E como foi?"
"Eu diria que melhor do que eu esperava...mas acabei tendo que aceitar condições que eu não queria. Apostei tudo o que eu podia para eles me darem uma chance."
"O que você prometeu exatamente?"
"Eles disseram que só me deixariam terminar de escrever o livro com uma condição: se eu não ganhar o primeiro lugar, além de ter que fazer as aulas de reforço, vou ter que cursar o que eles quiserem até o final. Eu sei que eles querem que eu faça medicina ou direito, e honestamente eu duvido que eu conseguiria passar em algum desses. Mas eles falaram que eu teria que tentar até conseguir."
"Mas isso não é justo…" - eu não sabia o que era mais absurdo: os pais proporem aquela condição ou Vincent aceitar. Ele estava mesmo disposto a qualquer coisa para seguir o seu sonho, o que incluía seguir uma carreira profissional que ele não queria.
"Não se preocupe, agora que eu tenho tempo e a aprovação deles para escrever, estou confiante de que posso conseguir."
"Eu sei que você consegue. "- respondi com um sorriso. Vincent parecia inabalável.
De certa forma eu me sentia feliz por ele ter conseguido a chance que ele queria para investir no seu sonho, mas ao mesmo tempo eu me preocupava com as consequências daquele acordo. Eu não conhecia os pais de Vincent, mas o pouco que eu tinha visto sobre eles tinha sido suficiente para perceber que eles estavam falando sério. O melhor que eu podia fazer era torcer para que Vincent conseguisse o primeiro lugar.
Naquela conversa, Vincent disse que ao invés de ir para as aulas de reforço, ele iria usar o tempo livre para escrever o livro, já que ainda naquela semana ele precisaria enviar cinco capítulos para o revisor da primeira etapa. Desejei sorte e disse que estava torcendo por ele. Vincent foi embora animado, me fazendo ficar um pouco mais tranquilo sobre o concurso.
Porém tudo mudou na semana seguinte, quando ele me procurou na aula de reforço.
"Professor Dimitri...eu preciso da sua ajuda."
Vincent apareceu na sala sem bater na porta, ao contrário do que ele geralmente fazia. Ele parecia triste e preocupado, o que me fez pensar em várias hipóteses sobre o que tinha acontecido.
"Como posso ajudar?"
"Lembra que na última vez que nos vimos eu falei que enviaria os primeiros capítulos para o concurso?"
"Lembro, você conseguiu?"
"Consegui e eles já até me deram o feedback…"
"Então, o que está te incomodando?"
"Eles disseram que se eu não corrigir e melhorar consideravelmente nos próximos capítulos, as minhas chances de conseguir o primeiro lugar são praticamente nulas."
Saber sobre a resposta do revisor me pegou de surpresa. Se Vincent não conseguisse melhorar e terminar de escrever o livro, ele não teria outra chance de tentar.
"O que posso fazer para te ajudar?"
"Preciso que você revise o livro pra mim...eu sei que não devia nem te pedir isso, mas eu prometo que se eu conseguir o primeiro lugar, eu divido uma parte do prêmio com você. E se eu não ganhar, vou encontrar um jeito de te pagar."
"Vincent, me desculpe...mas eu preciso pensar. Revisar o seu livro é algo que vai além do que eu posso fazer enquanto seu professor…"
"E se você fizer isso como um amigo?"
"Fiquei sem resposta."