Formatura

2737 Palavras
Era difícil saber o que eu estava sentindo. Quando Vincent desabafou sobre os seus sentimentos em relação a mim, fui tomado por uma alegria imensa, mas que imediatamente foi calada pela situação. Ele teve coragem de me dizer tudo aquilo olhando nos meus olhos…essa coragem eu nunca tive. Mesmo quando eu gostava de alguém, eu preferia guardar para mim como uma forma de me proteger das consequências que os meus sentimentos poderiam trazer. Eu não queria ter dito tudo aquilo para ele. Ele não merecia a minha rejeição, principalmente porque eu sabia exatamente do que ele estava falando. Enquanto a sua respiração ficava densa por causa do nervosismo, a minha também ficava. Quando nos olhamos fixamente enquanto ele falava, eu não conseguia desviar meus olhos. Pude ver o quanto ele estava sendo sincero e se mostrando completamente vulnerável naquele momento. Mas eu tinha que continuar sendo racional, aquilo não poderia dar certo. Me envolver com o meu aluno, principalmente durante um concurso? Eu sei que ninguém nos entenderia. Sim, ele estava sofrendo quando passou pela porta da sala, mas ele sofreria muito mais se eu permitisse que os nossos sentimentos falassem por nós. E no primeiro toque da sua pele na minha, tenho certeza que eu não conseguiria mais me controlar. Eu agiria exatamente como eu estava tentando evitar todo esse tempo. Nos primeiros dias, não vi Vincent. Ele continuava respondendo os meus emails, mas agora era de forma curta, objetiva. Eu sabia que ele não apareceria mais nas aulas de reforço, mas mesmo assim eu continuava esperando por ele. Durante a noite eu não conseguia dormir, era impossível parar de reviver o instante em que ele disse que estava apaixonado e depois, quando partiu de cabeça baixa. Quanto mais eu tentava evitar pensar nele, mais ele aparecia na minha mente, principalmente em meus sonhos. "Como vai o desenvolvimento do livro? Precisa de alguma ajuda?" "Estamos quase finalizando o último capítulo. Vou fazer uma revisão final, mas gostaria de pedir para que você também desse uma olhada antes da gente entregar. O prazo está curto, mas acho que dá tempo." "Claro, estarei esperando pelo livro. E como você está? É bom saber que deu tudo certo no final." "Estou bem. m*l posso esperar para terminar esse projeto, foi muito mais difícil do que eu esperava, e pelas razões erradas." "Dimitri, estou orgulhosa de você. Não posso imaginar como foram essas semanas, mas garanto: você tomou a decisão certa em ajudá-lo até o final." Continuei andando no corredor enquanto respondia a mensagem da minha professora no celular, até que alguém esbarrou em mim. "Desculpe, eu não te vi." Quando levantei a minha cabeça para olhar quem estava falando comigo, vi o amigo de Vincent: ele estava com o braço apoiado em seu ombro. Não consegui responder o aluno, encarei Vincent sem pensar. Após alguns segundos, Vincent desviou o olhar, mas eu continuei olhando para ele. "Vamos, a nossa aula vai começar." - disse Vincent puxando o amigo pela cintura e continuando a andar. Encontrá-lo repentinamente (e principalmente acompanhado) mexeu tanto comigo, que esqueci para onde eu estava indo. Meu coração estava acelerado, mas ao mesmo tempo era como se alguém estivesse apertando-o com todas as forças. A forma como Vincent o segurou pela cintura me fez ter vontade de vomitar. Minha ansiedade estava me punindo novamente, me fazendo sentir como se eu estivesse doente. Nos dias seguintes, vi Vincent raramente, e de longe. Ele sempre estava acompanhado dos amigos, principalmente aquele aluno que eu detestava. Desde a primeira vez quando os vi juntos, minha vontade foi de tirar as mãos dele de cima de Vincent. Como ele se atrevia a ter tanta liberdade com ele? Vincent não gostava de toque físico, ele mesmo me disse naquele dia da cafeteria…droga, mesmo detestando, ele segurou a cintura daquele cara. Agnes, a minha mãe e a minha professora sempre me perguntavam se eu estava bem, pelo jeito eu não conseguia esconder o quanto eu estava frustrado e triste com toda aquela situação. Mas não havia nada que eu pudesse dizer a elas. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre aquilo, então eu só deveria aceitar os fatos. Fiquei tentado a me envolver com outro colega de faculdade, mas eu sabia que eu ia estragar tudo de novo. Nem beber álcool podia me ajudar, o vinho e a cerveja apenas me faziam sentir uma pessoa mais deprimente. Tentei focar nos meus planos para o ano seguinte, eu tentaria fazer um mestrado para ser professor universitário. Minhas noites se resumiam a corrigir o livro de Vincent e a estudar sem parar até dormir de cansaço. "Vincent, parabéns pelo trabalho. Estou orgulhoso da sua evolução desde o começo do livro, sem dúvidas você se dedicou muito para entregar a versão final. Minha professora e eu estamos torcendo por você. Foi um prazer trabalhar com você durante esse tempo, foi uma experiência que me ensinou muito. Você tem um futuro brilhante pela frente, desejo sucesso. Atenciosamente, Dimitri." Aquele não era apenas o meu último email para ele, mas também a minha despedida. Eu esperava que ele visse em cada uma daquelas palavras o quanto eu me importava com ele e esperava que ele fosse feliz. Vincent não me respondeu mais. Durante os dias em que esperei pelo resultado do concurso, tentei encontrá-lo na escola para ver como ele estava, mesmo que fosse de longe. A sensação que eu tinha era que desde o meu email ele tinha sumido completamente. Até no pátio, onde ele geralmente ficava, era impossível ver um sinal dele. Eu estava preocupado, mas eu só conseguia torcer para que ele estivesse bem. Chegou o dia do resultado do concurso. Assim que vi o nome de Vincent no primeiro lugar, soltei um grito. "Eu sabia que ele ia conseguir!" Olhei para os lados e fiquei mais tranquilo quando notei que ninguém estava próximo a mim. Aquela classificação só podia significar uma coisa: Vincent poderia escolher a carreira profissional que seguiria. Sim, todo o esforço e os dias difíceis tinham valido a pena! A pessoa que eu amava conseguiria ser feliz porque teria controle sobre as próprias escolhas. Na hora da saída, tranquei a sala de aula um pouco mais cedo e o esperei na fachada do colégio. Eu queria parabenizá-lo pessoalmente. Enquanto eu olhava para o portão, podia sentir meu coração acelerar. Alguns minutos após o sinal tocar, vi Vincent. Assim que ele deu seu primeiro passo para fora da escola, caminhei em sua direção, mas quando ele percebeu que eu estava indo até ele, Vincent virou as costas. Ele estava me ignorando, fingindo que eu não estava ali. Parei de caminhar e o vi indo embora de mãos dadas com o amigo. Ver suas mãos entrelaçadas em público, como se fossem namorados, doeu profundamente. Mas nada era mais doloroso naquele momento do que ter me tornado invisível para Vincent. Toda a felicidade que tinha me preenchido quando vi seu nome em primeiro lugar estava sendo tomada por um vazio interminável. Voltei desolado para casa. Eu não sentia vontade de comer, beber e nem dormir. "Enviei a sua carta de recomendação pelo email, preciso que você verifique se tem tudo o que você precisa para submeter no edital do mestrado. E não se esqueça que o envio da carta é ainda hoje." "Obrigado Teodora, vou checar. Ah, hoje saiu o resultado do concurso. Vincent ganhou o primeiro lugar. Muito obrigado pela ajuda." "Que ótima notícia, vocês devem estar muito felizes! O livro era incrível, sem dúvidas ele se tornará um escritor reconhecido um dia." Abri o computador para checar a mensagem que a minha professora tinha enviado. Havia um email do Vincent. "Obrigado por tudo, graças a você eu consegui o primeiro lugar e serei eternamente grato por isso. Como prometido, vou dividir parte do prêmio com você. Já fiz o depósito em uma conta temporária, você só precisa retirar antes de expirar o prazo para não perder o dinheiro. " Eu não queria o dinheiro do Vincent, em nenhum momento eu me lembrei disso…minha única motivação desde o começo era saber que ele se tornaria exatamente a pessoa que ele queria ser. Transferi o dinheiro para a conta da minha mãe, ela merecia aquele prêmio muito mais do que eu. Nos meses seguintes, parei de andar olhando para os lados, eu não queria vê-lo. Dali a pouco tempo eu terminaria o estágio e finalmente poderia deixar para trás aquela escola e todas as memórias que construí ali. "A formatura é na semana que vem, você não vai faltar né? Lembre-se que você me prometeu ir se eu não desistisse da faculdade." "Claro, estarei lá." - respondi pensando em qual roupa eu usaria no evento. Quando eu ainda tinha aulas, conheci aquele calouro. Ele era inteligente e muito dedicado, mas o seu perfeccionismo o fazia duvidar do seu potencial. Como seu veterano, me senti responsável por ajudá-lo a enfrentar os desafios do curso, por isso acabei me tornando seu porto seguro. Quando ele sentia vontade de desistir de tudo, eu o lembrava do quanto ele era alguém muito mais capaz do que ele imaginava. Foi através de conversas nos corredores da faculdade e trocas de mensagem que nos tornamos amigos. Mas começamos a nos afastar quando precisei trancar o curso para cuidar da minha mãe. Ela teve um sério problema de saúde e eu sabia que meu pai não ficaria em casa para cuidar dela. Decidi parar de estudar enquanto ela precisasse de mim, e assim meu amigo acabou terminando as matérias antes de mim. Naquele semestre ele estava se formando, e no semestre seguinte, seria a minha vez. Cumprimentei meu amigo na formatura, e do auditório da faculdade fomos para o clube em que teria a festa. Enquanto as pessoas dançavam e bebiam, reconheci alguns colegas, inclusive aquele rapaz com quem eu tinha me envolvido. Quando me viu, ele acenou com a cabeça, e eu retribuí. Talvez ele não estivesse mais chateado comigo. Comecei a beber e a conversar. A cada gole, eu tentava aproveitar o momento, mas parecia que quanto mais eu bebia, mas eu me sentia desconfortável. Embora eu gostasse de sair, festas lotadas como aquela não eram as minhas favoritas. Eu me sentia esgotado com tantas pessoas à minha volta, principalmente em um ambiente fechado e barulhento como aquele. Eu precisava sair dali, nem que fosse por um instante. Fui até o jardim, peguei o isqueiro e o cigarro que estavam no bolso da minha calça, e acendi. Fazia tempo que eu não fumava, mas eu imaginava que somente o cigarro seria capaz de me deixar relaxado durante a festa. Enquanto algumas pessoas estavam conversando e outras se beijando na parte lateral do clube, eu estava em pé, olhando para a paisagem e tragando o cigarro. "Que mundo pequeno." Ao me virar na direção da voz, vi Vincent. Ele estava deslumbrante. "Pois é, essa cidade é minúscula." "Cansou de aproveitar a festa?" "É legal curtir quando a gente está afim. Mas faz tempo que não vou a uma festa assim, acho que desacostumei a encontrar tanta gente." Te entendo perfeitamente. Na verdade, eu só vim aqui porque o meu irmão me obrigou. Se não fosse a formatura dele, eu não vinha. "Você tem um irmão? Qual é o nome dele?" "Ernesto." "Calma aí…eu só conheço uma pessoa com esse nome." Vincent tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto. "Esse é o meu irmão." Nossa, eu não acredito…eu vim porque ele me convidou. Sou o veterano dele. Olhamos surpresos um para o outro. Embora eu estivesse embriagado, pude perceber que Vincent também estava. Começamos a rir descontroladamente. "Você não me viu na formatura? Eu estava sentado perto dele." "Confesso que eu estava tão distraído durante a cerimônia, que eu não te vi. Se você não viesse até mim, eu provavelmente não ia te ver." "É imaginei isso…embora houvesse uma possibilidade de você me ignorar depois da última vez que nos encontramos na escola." Ele estava falando daquele dia…Começamos a conversar como amigos próximos. Embora tivéssemos motivos para nos sentirmos estranhos naquela situação, nós estávamos nos dando muito bem. Eu estava sentindo falta de falar com Vincent de novo, e sem me preocupar tanto com as minhas palavras. Refletimos sobre a vida, fizemos desabafos e Vincent contou sobre a reação dos pais ao ver o resultado do concurso. A conversa estava fluindo, até que ele tocou no assunto mais doloroso para nós dois: o dia em que ele se declarou. "Mais uma vez me desculpe por ter te colocado em uma situação tão difícil…embora eu saiba que eu não devia ter feito aquilo, ainda não me arrependo. Eu faria tudo de novo se fosse necessário." "Está tudo bem, agora isso é passado. Logo nós dois estaremos em novas etapas da nossa vida, conhecendo novas pessoas. Você vai sair do ensino médio e começar a faculdade, enquanto eu vou fazer mestrado. Não pense no que vivemos de maneira negativa, acho que no fim das contas, se nos encontramos aqui hoje depois de tanto tempo, era porque precisávamos nos reconciliar." "Sim, você tem razão. Vou tentar lembrar só das coisas boas e aprender com as ruins…" "Isso mesmo, é esse Vincent que eu gosto de ver." Terminei de falar e Vincent deu um longo suspiro. Reconheci em sua expressão que ele estava começando a ficar nervoso. Embora eu tivesse sido surpreendido por ele, até aquele momento eu estava me sentindo tranquilo, sem preocupações. Mas ao perceber que ele tinha algo para me dizer, comecei a ficar ansioso. "Dimitri…eu queria aproveitar a oportunidade para te fazer uma pergunta…já que não sei se nos encontraremos mais depois de hoje. Também não sei se quando eu estiver sóbrio, terei coragem de falar com você." "Pode falar à vontade…você sabe que sempre vou te escutar, né?" "Você realmente… não sente nada por mim?" Eu nunca imaginaria que Vincent faria aquela pergunta. Depois de tantos meses e depois de tudo o que vivemos, achei que ele tinha deixado isso no passado, mas agora estava claro para mim que durante todo aquele tempo, ele ainda pensava nisso. Daquela vez eu não poderia negar o que eu sentia. "Vincent…você sabe por que eu evitava ficar a sós com você, trocar mensagens fora da aula ou ter qualquer tipo de contato além do profissional? Porque eu sempre fui perdidamente apaixonado por você." "O quê?" - Vincent arregalou os olhos e se aproximou de mim, como se não acreditasse nas minhas palavras. Talvez eu tenha me apaixonado sem perceber no momento em que te vi sorrindo. Mas durante esse tempo, tudo estava contra nós dois. Eu não poderia deixar que os meus sentimentos por você me fizessem cometer erros irreversíveis. Foi por isso que eu fui tão frio e rejeitei os seus sentimentos. Não era porque eu não sentia mesmo, mas porque eu sabia que nada poderia dar certo entre nós dois." "Eu não consigo acreditar…eu tinha achado que você não gostava de mim…por isso me deu um fora." "A questão nunca foi o que eu sentia, mas quem eu era. Como seu professor, eu nunca poderia me aproximar de você. Não era certo, não era ético." Vincent ficou alguns minutos em silêncio. Eu não questionei sobre o que ele estava pensando, mas eu fiquei me sentindo aflito. Era difícil saber o que esperar dele após a minha confissão. "Então o que sempre nos impediu de sermos felizes juntos foi a nossa relação de professor e aluno? Somente isso?" "Sim, somente isso." - respondi sem hesitar. "E se eu disser que continuo apaixonado por você?" "Continua…? Mesmo depois de tudo?" "Não houve um dia em que deixei de pensar em você…" Sorri para ele. Vincent se aproximou de mim, ficando a apenas alguns centímetros do meu rosto. "Dimitri, o que fazemos agora? Vamos apenas ignorar o que sentimos um pelo outro?" "Vincent, você sabe o quanto é complicado…" "Depois que eu me formar no ensino médio, vai continuar sendo complicado?" "Nesse caso seria completamente diferente…" "E se vivermos esse amor depois que o ano letivo acabar?" Fiquei alguns minutos tentando raciocinar e processar aquele diálogo. Vincent estava me propondo algo que nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria. Ele queria dar uma chance àquele sentimento…e para ser bem honesto, eu também queria. "Nas férias de verão?" - perguntei, percebendo que meu coração estava começando a acelerar. Vincent me abraçou apertado. Por um momento esqueci que estávamos em público.
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