Conexão

2447 Palavras
Eu já estava deitado, mas não conseguia dormir. Pensar no convite de Vincent estava me deixando ansioso e estranhamente feliz. "Bem…se você só precisa de um convite para vir, pode deixar por minha conta. Quer tomar um café comigo amanhã?" "Não é uma boa ideia, Vincent." "É porque somos aluno e professor?" A cada palavra de Vincent, eu me sentia mais tentado a aceitar. Como eu explicaria para ele que além de não podermos ter um vínculo além da escola, encontrá-lo na cafeteria intencionalmente seria perigoso para mim? Se até ali já estava sendo difícil lidar com as reações que eu tinha ao seu lado, como seria se eu começasse a me aproximar dele ainda mais? "A gente conversou outras vezes…é importante mantermos uma certa distância um do outro."- comentei tentando convencê-lo de que o café não era uma boa ideia. "Sim, eu sei…desculpe, não imaginava que te fazer esse convite iria te deixar tão desconfortável." - enquanto ele se desculpava, sua expressão mudava e aquele sorriso que eu tanto gostava se escondia. "Não é isso, não estou desconfortável…é só que…" - por que eu estava tentando me justificar? Eu não precisava me explicar, mas mesmo assim eu sentia como se eu devesse. - "bem…tudo bem, é só um café." Minha determinação em negar o seu convite tinha desaparecido assim que eu tinha visto a sua expressão triste. Eu estava começando a aceitar o fato de que quando o assunto era Vincent, eu mudava de opinião facilmente. Agora eu estava ali na cama, sem conseguir dormir e ao mesmo tempo querendo que o dia seguinte chegasse o mais rápido possível para que eu pudesse vê-lo. Quando eu estava na escola, eu tentava ser totalmente racional. Cada gesto e olhar eram pensados para não gerar m*l-entendidos. Mas na cafeteria, eu conseguia ser eu mesmo. À medida que conversávamos, eu me sentia mais relaxado e podia sorrir sem culpa. Eu estava começando a perder as contas de quantas vezes nós tínhamos nos encontrado fora da escola por acaso. Isso me preocupava, principalmente porque agora eu continuaria o encontrando, mas dessa vez de forma intencional. Vincent despertava muitos sentimentos complexos em mim. Sempre que eu o via, falava com ele ou pensava nele, eu me sentia em uma montanha-russa. Era difícil aceitar que aos poucos ele estava começando a fazer parte da minha rotina. "Quer que eu faça o seu pedido? Hoje é por minha conta." "Obrigado Vincent, mas eu prefiro que você use o dinheiro do meu café com algo para você. Me sentirei melhor se eu pagar." Ele sorriu e concordou, escolhendo um café gelado simples. Fui até o balcão e fiz o nosso pedido. Enquanto esperava o atendente, não pude deixar de olhar na direção em que Vincent estava sentado. Vincent tinha pedido para que nos encontrássemos um pouco mais tarde naquele dia. Nas outras vezes em que o vi, ele estava com o uniforme da escola, mas naquele fim de tarde, usava roupas diferentes. Ele parecia ainda mais bonito e maduro com a jaqueta por cima do moletom, as calças pretas e os tênis escuros. Será que ele tinha trocado de roupa apenas para me ver? Por fora eu estava sério, mas por dentro eu não parava de sorrir. "Obrigado pelo café, e principalmente por aceitar o meu convite. Espero que valha a pena esse tempo comigo." As palavras de Vincent mexiam comigo de uma forma que eu não sabia explicar. "E como estão os estudos? Semana que vem começam as suas provas, certo?" - era melhor eu mudar de assunto. "Não sou muito bom em exatas, mas estou conseguindo resolver as listas de exercícios. Meu amigo está me ajudando bastante, então fica mais fácil. " "Ah, o amigo que vi com você na cafeteira aquele dia?" "Não, um que não desgruda de mim quando estamos na escola. Ele adora me abraçar, mesmo quando eu falo que não gosto de contato físico." - só podia ser aquele aluno que estava abraçando Vincent. "Não gosto muito de contato físico também. Meus amigos reclamavam disso no começo, mas depois viram que eu só gostava de me expressar de outras formas." "Nossa, parece que você me descreveu agora! E como você gosta de demonstrar os seus sentimentos?" Essa pergunta tão simples e inofensiva me deixou sem saber o que responder. Eu deveria falar sobre esse tipo de assunto com ele? "Bem…eu geralmente faço coisas sutis, como enviar cartas, comprar presentes mesmo se não for o aniversário ou uma data comemorativa, mandar uma música quando me lembro da pessoa…" "Eu com certeza adoraria esse tipo de demonstração de afeto. Principalmente se for da pessoa por quem eu estou apaixonado…" Ao dizer isso, Vincent me encarou fixamente. Seu olhar estava me deixando nervoso…comecei a sentir borboletas em meu estômago e um arrepio tomar o meu corpo. "Na sua idade é natural gostar de abraçar como o seu amigo faz, mas se você for como eu, logo você se acostumará a lidar com isso." Obrigado pelo conselho, vou me lembrar do que você disse. Continuamos conversando sobre assuntos menos pessoais por um bom tempo, revezando entre risos e goles de café. Ao nos despedirmos, ele me agradeceu mais uma vez pela companhia e tocou no meu ombro. Ter a sua mão em meu casaco me fez sentir conectado com ele de uma forma diferente. Voltei para casa sorrindo. "Filho, não precisa me ceder a sua cama." - ela m*l tinha chegado no meu apartamento e já estava preocupada comigo. "Mãe, eu já me decidi e a senhora sabe que quando isso acontece, nada me faz mudar de ideia, né?" "Eu sei. Estou tão orgulhosa do homem que você se tornou." Soltei um suspiro profundo. Eu não era esse filho perfeito que ela idealizava. "Ah mãe…"- disse em voz baixa colocando minha cabeça no seu colo como eu fazia desde que era criança. Ela sabia que isso significava que eu não estava bem. Minha mãe começou a fazer cafuné em mim. "Eu senti que havia alguma coisa de errado, você parecia tão desligado ultimamente…" "Sinto muito por não desabafar antes, eu acho que só estava tentando me entender, e honestamente…continuo me sentindo perdido." "Você precisa se ouvir mais sem ser tão duro consigo mesmo." "Mas dessa vez eu sei que eu estou errado, e por mais que eu tente ser racional, sinto que em algum momento vou perder o controle. Eu detesto quando isso acontece…" "Se tem uma coisa que aprendi em todos esses anos, foi que o tempo resolve tudo. Muitas vezes a gente se preocupa demais, sabe? Sendo que no fim das contas o controle da situação talvez nem estivesse nas nossas mãos." "É verdade...vou pensar nisso…" "Ele é especial, tenho certeza." Me levantei do colo da minha mãe e olhei para ela assustado. Eu não tinha falado nada sobre ele, mas como ela sabia que era uma pessoa específica que estava fazendo aquilo comigo? "Não tem como dar certo, não pode dar certo, mãe…" "Ele sente o mesmo por você?" "Não sei…às vezes acho que sim, mas seria melhor se eu fosse o único se sentindo assim." Minha mãe sempre tinha sido o meu maior apoio, principalmente quando eu tive problemas nos meus relacionamentos. Ela preferia deixar que eu desabafasse ao invés de me perguntar o que estava me preocupando ou entristecendo. Eu não queria contar a ela a minha situação com Vincent, mas só de ter falado um pouco sobre como eu estava, me senti melhor. "Acredito muito que o que é para acontecer, simplesmente acontece. Não é no nosso tempo nem do jeito que a gente quer, mas é exatamente da forma como a gente precisa viver. Se você acha que a qualquer momento pode perder o controle, se afaste do que te faz se sentir assim." "Obrigado." - eu a abracei forte. Ela estava certa, eu precisava me afastar de Vincent se eu não quisesse que aquela situação entre nós fosse longe demais. Eu não deveria encontrá-lo mais fora da escola, apenas falar com ele durante as aulas de reforço ou por email. Depois do dia em que nos vimos na cafeteria, nos esbarramos algumas vezes no colégio. Eu falava com ele rapidamente e inventava desculpas para que ele não puxasse conversa nos corredores. As provas chegaram, e também os alunos. A cada dia a turma estava mais cheia, o que me fez trabalhar até tarde em alguns dias. Achei que Vincent apareceria, mas ele não foi às aulas. De certa forma isso me deixava mais tranquilo, já que eu não precisava me preocupar sobre o que eu faria ou diria quando ele estivesse na minha presença. Ficar longe de Vincent naqueles dias tinha me ajudado a me manter mais racional. Embora eu ainda continuasse respondendo aos seus emails, eu não me sentia mais desestabilizado por causa dele: até aquela noite. Eu tinha saído tarde da escola, praticamente quando os portões já estavam prestes a fechar. Caminhei em direção à minha casa e, ao ver a fachada da cafeteria de longe, reconheci uma silhueta: era Vincent. Ele estava sentado em uma das cadeiras olhando em minha direção. Pensei se eu deveria ignorá-lo ou apenas acenar de longe, mas ele agiu primeiro. Levantou-se e veio até mim. "Oi professor Dimitri…" "Vincent…que coincidência." "Bem, nem tanto…" "Hm…"- eu deveria apenas cumprimentá-lo e continuar o meu caminho, mas eu precisava saber o que estava acontecendo. "Eu precisava falar com você a sós, mas aqui na cafeteria eu não me sinto muito à vontade…" "Você quer sentar em uma praça que tem na próxima quadra?" "Na verdade…estava pensando em um lugar fechado…como a sua casa." Fiquei sem reação. Minha mente ficou em branco por um momento. "Vincent, isso não é uma boa ide…" "Prometo que se pudermos conversar com calma e com privacidade só dessa vez, eu nunca mais te incomodo." - ele disse me interrompendo. Seu rosto parecia aflito e preocupado. Ele estava determinado a falar comigo, mas eu deveria recusar aquele pedido e virar as costas? Aquilo era o certo a se fazer…mas eu não poderia agir assim com Vincent. "Tudo bem…"- respondi tentando organizar os meus pensamentos. Ele me acompanhou em silêncio até o meu prédio. Ao chegarmos no meu apartamento, abri a porta e acendi a luz. "Fique à vontade. Aceita uma água ou um suco?" "Uma água, por favor." Vincent parecia ainda mais nervoso do que no momento em que o encontrei na rua, alguns minutos antes. Peguei o copo e entreguei a ele, me sentando no canto do sofá. "Como posso te ajudar?" - eu sempre fazia a mesma pergunta…mas o que eu deveria falar naquela hora? "Desculpe te surpreender assim. Eu estava te esperando desde a hora que saí da escola, e por um momento pensei em desistir de falar com você. Mas me fiz uma promessa, se até a hora da cafeteria fechar você aparecesse, eu iria até o final." "Estou começando a ficar preocupado…"- ter Vincent na sala da minha casa me falando aquilo estava me deixando muito ansioso. Eu não conseguia nem pensar direito. "Dimitri, eu sei que eu não deveria te dizer isso, principalmente porque você já está fazendo por mim muito mais do que eu poderia pedir. Mas eu sinto que se eu não colocar isso pra fora, eu vou enlouquecer. Dimitri, eu…eu…" Vincent parecia estar reunindo forças e coragem para terminar a frase. "Por favor…só me diga o que está acontecendo. Não vou te julgar ou qualquer coisa do tipo. Confie em mim." "Eu…estou perdidamente apaixonado por você. Quando te vi na sala pela primeira vez, eu te achei bonito e você parecia legal... de verdade, achei que era só isso. Mas à medida que começamos a conversar e a nos conhecer, eu vi que alguma coisa estava acontecendo dentro de mim. Perguntei para os meus amigos por que eu não conseguia me concentrar em nada, comer, dormir ou escrever depois que eu te conheci…eles disseram que eu podia estar apaixonado, mas eu não quis acreditar. Só que a cada vez que eu via você e a professora Agnes indo embora juntos, eu sentia tanta dor no meu peito, que eu tive que passar a evitá-los. Foi por isso que eu sumi das suas aulas de reforço, eu tinha receio de encontrá-la lá. Então você e eu começamos a trocar emails e isso me fez sentir melhor, com vontade de ir para as suas aulas novamente. Quando estávamos tomando café juntos da última vez eu me senti tão feliz…era como se eu estivesse no paraíso. A forma como você fala comigo me faz sentir tão especial, que cheguei em um ponto que o que sinto não cabe mais em mim. Estou transbordando, e por sua causa…eu não conseguiria abafar essa paixão e seguir em frente se eu não te contasse. Meus amigos disseram para eu não me declarar, mas eu precisava fazer isso…só eu sei o quanto eu estou sofrendo tentando fingir que eu não sinto nada. Mas agora eu me sinto mais leve, sabendo que eu tirei isso do meu peito. Dimitri…você se tornou a pessoa mais importante do mundo pra mim. " Eu não sabia como reagir àquela situação. Eu não fazia ideia de que Vincent gostava de mim daquela forma, e que assim como eu, estava sofrendo tentando esconder aquele sentimento…ele também sentia ciúmes e não conseguia parar de pensar em mim… Em qualquer outro contexto e realidade, eu o abraçaria e o beijaria naquele instante. Minha reação natural seria demonstrar na prática que o que ele sentia, eu também estava sentindo. Mas eu não podia fazer isso. "Sinto muito por te trazer tantos problemas…se eu soubesse que causaria tantos impactos ruins para a sua vida, eu teria sido mais impessoal do que eu fui. É por causa da minha falta de responsabilidade que chegamos a essa situação, me desculpe. Farei o meu melhor para consertar as coisas." "Mas a culpa não foi sua, por favor, não ache que eu me sinto assim porque você foi legal comigo." "Vincent, já estamos nas últimas etapas do concurso e não podemos deixar nada arruinar o que fizemos até aqui. Assim que você entregar a versão final para o revisor, peço para que não continuemos a troca de emails. Você sempre será bem-vindo nas aulas de reforço, mas isso é o máximo que posso fazer por você a partir de agora. " "Eu entendo…me desculpe." Vincent levantou-se do sofá olhando para o chão e foi até a porta, girando a maçaneta. Ele saiu do meu apartamento de uma forma que me fazia sentir a pior pessoa do mundo. Naquela noite não passamos das palavras, mas era a primeira vez que eu me sentia tão intimamente conectado à alguém.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR