"Cara, relaxa. Não é sempre que eu consigo gozar também."
"Devo estar cansado, isso nunca acontece comigo." - respondi me levantando da cama e vestindo a cueca que estava jogada no chão.
"Se te consola, consegui sentir bastante prazer. Além disso, só de ter você no meu quarto, já estou no lucro. Depois do nosso último encontro, achei que você não queria mais me ver."
É, eu realmente não queria. Eu não gostava de descontar as minhas frustrações em álcool e sexo, só que era o que ainda funcionava comigo… até aquele momento. Ter brochado tinha me deixado mais frustrado do que qualquer outra coisa.
Mesmo eu sabendo que eu não deveria estar ali, eu não consegui evitar. Eu estava me tornando alguém patético.
"Acho melhor eu ir agora, mas obrigado pelo convite."
"As portas estão sempre abertas pra você, Dimitri. Volte quando quiser."
Por que ele continuava sendo tão legal e gentil comigo depois das minhas últimas atitudes? Eu não tinha nada para oferecer, mas mesmo assim ele queria que eu voltasse…
"Obrigado…mas eu não sei se vou voltar."
"Bem…pelo menos dessa vez você me avisou. Dimitri, eu curto passar o tempo com você, na verdade você me chamou a atenção assim que te vi na primeira reunião entre calouros e veteranos. Mas não posso deixar você ir e voltar pra minha vida sempre que quiser. Não estou falando que quero algo sério, pelo contrário: isso não passa pela minha cabeça. Mas se você estiver decidido a ir embora, por favor, não me procure mais."
Sobre o que ele estava falando? Ele que tinha me convidado para ir até a sua casa…eu nem mesmo senti a falta dele quando paramos de nos falar.
Por isso que eu não queria sair com a mesma pessoa mais de uma vez, a história era sempre a mesma: combinávamos de ficar sem compromisso, mas mesmo assim eu precisava dar satisfações. Eu não tinha paciência para isso.
"Você sabe que eu não sou um cara que fala muito o que pensa e o que sente. Talvez você espere que eu seja alguém que eu não sou. Se você não quer que a gente se veja mais, por mim tudo bem. Foi bom até aqui."
"Acho que você não entende mesmo o que é responsabilidade emocional. Eu sabia que você não era de se importar muito com os outros, mas pelo visto, você não se importa nenhum um pouco. Eu não queria uma mensagem de bom dia ou de boa noite. Eu só queria que você dissesse qualquer coisa que não me fizesse achar que eu era um chato por querer te procurar depois de uma noite intensa como a que tivemos."
"Isso…foi um erro. Eu não devia ter vindo aqui. Desculpe."
Ele ainda estava nu, sentado na cama. Me virei de costas e saí do quarto sem olhar para trás. Ao chegar no ponto de ônibus, apaguei o seu número do meu telefone.
Quando cheguei em casa, fui tomar um banho sem pensar duas vezes. Eu esperava que assim como a água tirasse o cheiro do suor e perfume dele do meu corpo, também removesse aquele sentimento de mim.
Lidar com pessoas, e principalmente sentimentos, era muito difícil. Eu achei que o que eu sentia pelo meu ex tinha sido a experiência mais intensa que eu já tinha vivido, mas eu estava enganado.
Ter Vincent a poucos centímetros me fazia perder o controle dos meus pensamentos, e eu não gostava disso. Ele era só um aluno começando a transição para a vida adulta, e mesmo assim conseguia me deixar daquele jeito. Eu não poderia permitir que ele tivesse a mínima noção de como eu me sentia.
Eu sei porque eu não consegui gozar. Estar ali me fazia sentir culpado por permitir que alguém, que não era ele, me tocasse. Como eu conseguiria convencer meu corpo a ficar rígido quando eu não conseguia nem mesmo parar de pensar nele?
Comecei a me esfregar com força o sabonete na minha pele para tentar esquecer aqueles momentos em que passei com o meu colega. Ele estava certo, eu não queria ser responsável por ele. O melhor que pude dar a ele, foi um adeus.
Fechei meus olhos e deixei a água quente me envolver.
"Ei, tem um cílio no seu rosto, deixa eu tirar."
Lembrar da voz de Vincent enquanto se aproximava de mim estava me deixando de um jeito que eu não queria.
"Ei, tem um cílio no seu rosto, deixa eu tirar."
“Não, eu não posso fazer isso, isso é errado”. Tentei me controlar, mas quanto mais a água escorria, mais eu me arrepiava e me sentia duro.
"Vai ser…só dessa vez." - pensei enquanto me tocava com firmeza.
Não passaram-se nem cinco minutos. A água que se espalhava no chão foi manchada de branco. Eu nunca tinha sentido prazer sozinho daquela forma antes.
Naquela noite eu só queria dormir e esquecer que o mundo existia. Mandei uma mensagem de boa noite para a minha mãe e tentei adormecer assistindo televisão. Quem me visse daquela forma acharia que eu tinha chegado ao fim do poço. Talvez eu estivesse bem próximo disso.
"Bom dia Agnes, quer que eu te espere hoje depois das aulas?"
"Quero sim…mas está tudo bem com você? Conseguiu dormir o suficiente?"
"Obrigado pela preocupação, mas estou bem. Nada de mais aconteceu."
Atravessamos o pátio, e quando já estávamos próximos do corredor principal em que ficavam as nossas salas, alguém passou por nós.
"Oi professor Dimitri! Oi professora Agnes…"
Quando Vincent nos cumprimentou, fiquei congelado. Tentei disfarçar, mas pude notar que Agnes e ele estavam me olhando de forma estranha.
"Bem, oi Vincent." - respondi.
"Tem aula de reforço hoje?"
"Para a sua turma não, só na semana que vem. Com licença."
Andei rápido até a minha sala e Agnes me acompanhou, acenando para ele. Eu precisava urgentemente fazer alguma coisa para controlar aquela situação. A cada vez que eu o encontrava, eu me sentia pior. Se eu continuasse daquela forma, mais cedo ou mais tarde ele e outras pessoas iriam perceber os meus sentimentos. Abri meu livro e comecei a ler, tentando silenciar os pensamentos barulhentos que me perturbavam.
Durante aquela tarde, alguns alunos apareceram, o que me deixou ocupado o bastante. Quando vi, já estava próximo do horário de ir embora. Fui até a sala de Agnes e aguardei encostado na parede.
"Muita gente hoje?" - Agnes me perguntou, surgindo na porta.
"Mais do que nas outras semanas. Só que não posso reclamar, chega a ser entediante ficar tantos dias só esperando alguém aparecer."
"Ah, mas as suas aulas não parecem tão ruins assim. De vez em quando eu vejo um mesmo aluno te procurar."
"É mesmo? Não reparei…" - ela só podia estar falando de Vincent.
"Inclusive, passamos por esse aluno mais cedo. Ele parece ser um bom rapaz, animado. A propósito, vi que nas últimas semanas ele estava ficando parado ao lado da porta da sua sala. Achei que ele entraria para esclarecer dúvidas, mas sempre que ele estava prestes a entrar, desistia e dava meia volta. Achei curioso."
Então quer dizer que durante aquelas semanas em que ele não apareceu na minha aula, ele continuava indo até a sala? E por que ele não entrava? Isso me fez lembrar do email que Vincent me mandou pedindo para voltar a frequentar as aulas. Eu estava confuso.
"Bem, Dimitri…agora que estamos longe da escola, posso conversar com você com calma. "
Sentamos no banco do ponto de ônibus.
"Aconteceu alguma coisa?" - perguntei sem saber qual era o assunto que Agnes queria abordar. No dia seguinte em que a deixei em casa, ela me assegurou que estava tudo bem, então eu não tinha me preocupado. Mas algo me dizia que ela ia mencionar aquela noite.
"Primeiro quero agradecer novamente por ter aceitado o meu convite e ter me deixado em casa segura. Você me surpreendeu com a sua gentileza e cuidado."
"Não precisa agradecer, gosto da sua companhia. Além disso, eu fiz apenas o que qualquer pessoa no meu lugar deveria."
Agnes estava me olhando com uma expressão que era difícil de decifrar, mas que parecia admiração. Não, ela não podia me admirar…por trás daquele cara aparentemente legal estava alguém que não conseguia nem ser responsável pelos próprios sentimentos.
"O que eu queria te dizer…é que estou muito envergonhada. Eu não deveria ter bebido tanto e ter te dado tanto trabalho."
"Está tudo bem, de verdade. Não foi horrível como você imagina."
"Pelo pouco que eu me lembro…foi. E eu queria aproveitar e te fazer uma pergunta que eu preciso que você seja muito sincero ao responder."
"Claro, qual?"
"Eu disse alguma coisa que eu não deveria quando a gente estava no meu apartamento? Eu lembro que depois de eu resmungar algo, você pareceu muito surpreso, eu diria até perturbado."
"Sério? Nossa, não faço ideia do que seria."
"Ufa, que alívio. Se eu tivesse dito algo constrangedor naquela hora, isso só pioraria ainda mais a ressaca moral que estou sentindo em relação a você."
"Por isso você parecia tão preocupada desde ontem?"
"Sim…estava sendo difícil olhar pra você com o pouco que eu me lembrava, e o que eu não conseguia lembrar estava me deixando ainda mais aflita. Então obrigada pela sinceridade."
"Está tudo bem."
Nos despedimos e eu fui caminhando para a minha casa. Sim, eu me lembrava de que Agnes tinha dito que estava afim de mim. Mas contar aquilo para ela só ia tornar tudo mais complicado. Ignorar aquele momento era muito mais fácil.
Passei em frente à cafeteria que ficava perto da minha casa. Decidi entrar e fazer um pedido. Ficar muito tempo sozinho em casa não estava me fazendo bem, eu precisava chamar minha mãe para passar alguns dias comigo.
Depois de pegar o meu café, sentei em uma mesa na parte de dentro da cafeteria e comecei a digitar uma mensagem. Havia poucas pessoas lá naquele momento.
"Quer vir para cá nesse fim de semana? Podemos assistir filmes juntos."
"Claro filho, estou com saudades."
"Vou te buscar na sexta-feira no fim de tarde. E está tudo bem por aí? A senhora não fala mais dele."
"Está sim, ele está viajando desde semana passada, então está tudo calmo. Estou aproveitando para participar de algumas reuniões da igreja. Estou conhecendo pessoas maravilhosas lá."
"É bom ver que a senhora está se divertindo e saindo de casa. Não posso esperar para te ver."
"Eu também, meu filho. Não deixe de comer e dormir direito, você precisa manter a sua saúde bem independente de qualquer coisa. E se alguma coisa estiver te preocupando, sabe que pode me contar."
"Obrigado mãe. Mais tarde eu te ligo."
Quando eu estava terminando de mandar a mensagem para ela, vi que alguém se sentou ao meu lado sem pedir licença. A cafeteria estava praticamente vazia, por que alguém iria querer exatamente aquele lugar? Me virei revoltado para o lado.
"Oi professor Dimitri."
"Vi-vincent."
Meu coração foi tomado por tanta adrenalina, que meu estômago começou a doer. Vincent estava sentado com a perna totalmente colada à minha, como quando estávamos em sala de aula. Mas daquela vez, eu não conseguia me mexer e nem me afastar dele. Eu estava petrificado.
"Desculpe sentar sem dizer nada, eu queria fazer uma surpresa já que você parecia concentrado no celular. Pela sua reação, eu consegui. Parece que você viu um fantasma."
Talvez ver um fantasma naquele momento fosse melhor do que vê-lo.
"Você está bem? Como posso ajudar?"
"Só queria dar um oi, já que hoje não consegui tirar as minhas dúvidas. Bem, agora que nos cumprimentamos, vou embora."
"Mas já?" - droga, eu não deveria ter respondido isso. O que ele pensaria?
"Se você quiser, posso te fazer companhia."
"E o seu livro? Não é melhor usar esse tempo para escrevê-lo?" - eu precisava encontrar uma forma de convencê-lo a partir, se ele ficasse seria pior.
"Tenho escrito um pouco todo dia antes de dormir, então até lá tenho um pouco de tempo. Vou fazer o meu pedido, já volto."
Enquanto Vincent ia até o balcão, eu tentava me acalmar. Ele estava decidido a ficar ali comigo, então o melhor que eu poderia fazer, ao invés de sair correndo, era fingir que eu estava bem.
"Então você está conseguindo desenvolver melhor a história?"
"Sim, com certeza. As suas observações estão me ajudando muito, agora eu consigo ter uma ideia mais clara do que eu quero. E só de saber que você vai ler o que eu estou escrevendo, eu me sinto na obrigação de me esforçar ainda mais."
"Mas não se preocupe tanto com o que eu vou pensar, foque no que você quer transmitir, na história que quer contar. As palavras surgirão naturalmente à medida que você desenvolver as ideias principais."
Conversar com Vincent sobre o livro estava rompendo com outro limite que eu tinha definido anteriormente: era para mantermos toda aquela discussão apenas por email. Eu achei que seria pior ficar na cafeteria e manter o nosso diálogo, mas falar com ele pessoalmente sobre a sua história não era desconfortável, pelo contrário. Eu estava me sentindo mais tranquilo, animado e disposto para me dedicar. Aqueles minutos em que estávamos conversando estavam sendo os melhores em muito tempo.
"Está ficando tarde, preciso ir, professor."
"Claro. Acabei perdendo a hora, tenho que ir para casa também."
Nos levantamos e paramos em frente à cafeteria.
"Que sorte a sua morar perto daqui, no seu lugar eu viria aqui todos os dias." - ele comentou olhando para mim.
"Talvez eu precise vir aqui mais vezes, as únicas foram hoje e quando nos encontramos naquele dia."
"Bem…se você só precisa de um convite para vir, pode deixar por minha conta. Quer tomar um café comigo amanhã?"
Naquele momento, eu deveria ter dito não.