Dia imprevisível

2485 Palavras
No fim de semana não respondi Vincent. Eu sabia que não poderia ignorá-lo por muito tempo, por isso esperei receber o seu email para falar sobre as aulas. Era difícil dizer por que eu estava agindo daquela forma, mas eu já estava começando a perceber que eu não era eu mesmo quando estava ao seu lado. Quando ele me surpreendeu na cafeteria, eu sorri de uma forma mais otimista do que eu normalmente fazia. Desde que era criança, todos à minha volta diziam que eu era muito sério e introspectivo. A verdade é que eu não estava interessado em conhecer e manter um vínculo com as pessoas, por isso acabava me mantendo mais reservado. Mas mesmo assim, fiz amigos e cheguei até a namorar. Raramente eu me esforçava para dar o primeiro passo, e tanto isso é verdade, que as pessoas que eram próximas a mim que tiveram a atitude de puxar assunto comigo. Eu era grato a elas, afinal, se dependesse da minha iniciativa, dificilmente isso aconteceria. Eu tinha me acostumado a ser essa pessoa fechada e que gostava de falar apenas com quem eu tinha afinidade, mas desde o começo, com Vincent era diferente. Quando aceitei me tornar professor, eu tinha consciência de que teria que ser mais simpático e aberto a conversar, mas eu não esperava que eu fosse conhecer alguém como ele. Quando estávamos juntos, eu me sentia animado, otimista, e além disso, sorria facilmente. Ele despertava um lado meu que eu não conhecia, mas que estava começando a me deixar angustiado. Se fosse qualquer outra pessoa, eu me sentiria feliz em ter todo aquele ânimo ao falar com alguém. Mas com Vincent…eu me sentia errado em deixar esse lado surgir. Decidi responder ao seu email somente na segunda-feira pela manhã, depois de chegar na escola. Ao ver a minha caixa de entrada, reparei na sua nova mensagem não lida. Abri. "Professor Dimitri, obrigado pela revisão. Foi um pouco difícil no começo, mas acho que consegui fazer tudo o que você pediu. Envio os próximos capítulos até sexta. PS: me desculpe pela minha última mensagem, eu não devia ter feito aquela pergunta." Ler aquelas palavras me fez sentir culpado. Ele não deveria se desculpar pela pergunta, não deveria nem mesmo ter dúvidas se poderia participar das aulas. Nós nem tínhamos começado a trabalhar juntos direito, e já parecia que havia um desentendimento entre nós. Respondi a sua mensagem. "Desculpe a demora em responder. Estarei esperando o seu próximo email. Em relação às aulas, fique à vontade para esclarecer as suas dúvidas em qualquer horário disponível." Será que eu tinha sido impessoal o suficiente? Me preocupar com cada palavra que eu escrevia estava me deixando preocupado. Comecei a folhear um dos livros que eu tinha levado para a escola. Naquele dia, apenas um aluno tinha me procurado, e rapidamente. Nas segundas-feiras, os alunos não pareciam motivados a ir às aulas. "Oi professor Dimitri." - Vincent surgiu parado na porta. "Oi Vincent." - sorri sem perceber, surpreso. Não conversávamos pessoalmente desde a semana anterior, mas parecia que fazia muito mais tempo. Fisicamente, Vincent não tinha mudado nada desde a última vez que o vi, quando estava sendo abraçado. Só que ele parecia incrivelmente mais bonito e simpático do que eu me lembrava. Ele sentou-se ao meu lado. "Fiz algumas anotações para te mostrar. Como fazia tempo que eu não frequentava as aulas, acabei acumulando algumas dúvidas." "Sem problemas, como posso te ajudar?" Nossos olhares se encontraram quando terminei de falar. Ele me encarou por alguns instantes sem piscar, o que deixou um clima estranho naquela sala em que apenas nós dois estávamos. "Bem, começando com a lista de exercícios que o professor passou, não consegui resolver essas duas." - ele respondeu tentando disfarçar e apontando para uma das questões da sua folha de caderno. Eu não queria que aquela situação de tensão voltasse a acontecer, por isso evitei olhar para ele novamente. Me esforcei para me manter focado somente nas folhas e nos exercícios, e embora eu estivesse atento ao seu caderno, eu podia sentir seus olhares para mim. "Vou ao banheiro, volto logo." - Vincent disse, levantando-se da cadeira. Assim que ele saiu, respirei fundo. Evitar encará-lo era difícil e me deixava tenso, mas eu precisava continuar sendo impessoal. Quando estava prestes a pegar o meu celular, Agnes apareceu. "Oi Dimitri, tudo bem? Podemos conversar quando o expediente terminar?" - ela perguntou com uma expressão preocupada. "Claro. Estarei te esperando na porta da sua sala." Quando ainda estávamos conversando, Vincent voltou do banheiro. Ele passou por Agnes, cumprimentando-a de uma forma ríspida. Depois que ela acenou para nós e foi embora, Vincent puxou sua cadeira para mais perto de mim, sentando-se. Sua perna estava colada à minha, o que me deixava desconfortável. Discretamente me encolhi na cadeira, evitando o toque. Continuei esclarecendo as suas dúvidas. "Quando você for fazer a prova, é importante ter cuidado com os movimentos literários. Uma dica é ler um trecho famoso de cada movimento para memorizar os autores." - comentei apontando para o livro. Notei que ele estava me encarando, mas tentei ignorá-lo. "Ei, tem um cílio no seu rosto, deixa eu tirar." - Vincent se inclinou e seu rosto ficou a poucos centímetros do meu, me surpreendendo. Não tive tempo de impedi-lo de se aproximar. Quando vi, seu dedo indicador e polegar estavam retirando cuidadosamente o cílio que repousava próximo ao meu nariz. Não consegui evitar: olhei para ele, e nesse instante, ele me encarou de volta. Seu rosto estava tão próximo do meu, que eu podia sentir a sua respiração. A adrenalina que senti naquele instante me deixou sem reação por alguns segundos (que pareciam uma eternidade). Pude ver de perto sua pele macia, seus lábios carnudos suavemente rosados e suas íris em um de tom verde escuro que eu nunca tinha reparado. Registrei cada centímetro de seu rosto na minha memória calmamente, como se naquele momento estivéssemos sozinhos no mundo. Assim que ele removeu o cílio, afastei meu rosto e desviei o olhar para esconder o nervosismo repentino que ainda estava tomando conta de mim. "Mais alguma dúvida?" - perguntei tentando ocupar meus pensamentos para acalmar meu coração. Eu não estava sentindo apenas meu coração bater rápido, minhas pernas estavam dormentes e a minha respiração estava um pouco ofegante. "Tenho muitas outras, mas minha próxima aula já vai começar. Assim que terminar eu volto, professor Dimitri." Vincent se levantou, pegou sua mochila que estava no chão e saiu da sala. Ao vê-lo passar pela porta acenando para mim, senti um frio na barriga diferente do que tinha experimentado antes. Aquela sensação não era amena e temporária, pelo contrário: já haviam se passado alguns minutos desde que Vincent tinha ido embora, mas o que ele despertou em mim ainda persistia. Eu estava certo, Vincent tinha um poder sobre mim muito maior do que eu mesmo. Eu devia ter reagido de outra forma quando ele inclinou-se em minha direção, mas era tarde demais. Como ele conseguia agir daquela forma sem nenhum pudor? Ele estava acostumado a agir assim com os seus amigos também? E será que ele fazia aquilo com aquele seu amigo, que vi naquele dia? Se eu estivesse certo sobre as minhas suposições, isso só podia significar uma coisa: eu não era especial e não deveria considerar aquilo algo importante. Não deveríamos nos encontrar novamente aquele dia, eu precisava sair dali antes que ele voltasse. Fui até a sala dos professores e disse ao diretor que precisava ir embora mais cedo. Por causa da faculdade, era comum os estagiários cumprirem uma grade horária menor em determinadas semanas. Se o diretor aceitasse o meu pedido, eu aproveitaria para me encontrar com a minha professora pessoalmente, já que fazia um tempo que não nos víamos - eu uniria o útil ao agradável. "Tudo bem, mas preciso que você compense as horas de hoje na segunda-feira, já que na terça começa o período de prova dos alunos." "Combinado. Mais uma vez obrigado." Voltei para a minha sala, guardei os meus pertences e colei um bilhete na porta avisando que naquele dia não teria mais aulas para aquela turma, só na segunda. Quando estava passando pela sala da Agnes, me lembrei que ela tinha pedido para falar comigo. "Com licença. Agnes, desculpe, mas precisarei sair mais cedo hoje. Você tem urgência para falar comigo?" "Não…a gente pode se falar amanhã." "Tudo bem, até mais." Embora ela tenha falado que estava tudo bem, em sua voz pude perceber que havia alguma coisa errada. Pensei se deveria enviar uma mensagem perguntando se Agnes estava com algum problema, mas preferi ir embora antes que Vincent voltasse. Cheguei na faculdade e esperei pela minha professora no hall de entrada do departamento acadêmico. Ela apareceu pouco tempo depois do momento em que eu tinha chegado. "Há quanto tempo, Dimitri. Sentiu saudades?" "Para falar a verdade, sim. Quer tomar um café no refeitório?" "Claro." Ao chegarmos no balcão, fizemos o nosso pedido, e em seguida nos sentamos. Eu gostava quando ela soltava o seu cabelo cacheado e grisalho, combinava bem com ela. "Já falei o quanto você fica bem de cabelo longo?" "Na verdade você já falou algumas vezes, mas nunca é demais ouvir, obrigada. Mas me conta, está tudo bem com você? Sua cara está péssima." "O estágio está indo bem. Faltam poucos meses para eu terminar, então é só questão de tempo até eu me formar e tentar o mestrado." - respondi ignorando o fato da minha expressão mostrar o quanto eu me sentia aflito por causa de Vincent. "É bom ver que você está animado para continuar na carreira acadêmica. Mas falando nisso, como ficou a situação com o seu aluno?" "Bem…eu mudei de ideia." "Então vai ajudá-lo?" "Vou, na verdade…já comecei a revisão dos capítulos. Tentei convencê-lo a aceitar a sua orientação, mas ele me disse o mesmo que você: só faria sentido ter ajuda se fosse a minha. Para ele, a minha aprovação é mais importante do que o primeiro lugar, você acredita? Como ele consegue ser tão despreocupado sobre algo que pode custar o futuro dele? Eu me senti tão responsável por ele, que não pude deixá-lo sozinho." "Dimitri…você está apaixonado por ele?" "O quê? Como assim?" - a pergunta dela me surpreendeu de tal forma, que me engasguei com o meu café. Depois de tossir um pouco, consegui voltar ao normal. "Você não precisa me falar, eu já sei a resposta. Eu sei que tipo de pessoa você se torna quando está apaixonado, e te dou um único conselho: cuidado. Lembre-se o porquê de ter aceitado ajudá-lo e não deixe que os seus sentimentos atrapalhem vocês dois. O que realmente importa agora é vocês terminarem esse projeto, e juntos." "Obrigado pelas palavras, mas não se preocupe. Ao contrário do Vincent, eu não sou irresponsável." - ser confrontado daquela forma me deixou irritado e mudou o humor para pior. Nesses momentos, eu só queria ficar sozinho porque eu sabia que me tornava alguém insuportável, que falava sem pensar. "Tenho certeza de que não é, confio em você. Se vocês precisarem de ajuda, podem falar comigo." "Obrigado Teodora. Bem, preciso ir." Me despedi da minha professora com um abraço e segui em direção ao ponto de ônibus, que ficava próximo à faculdade. Enquanto estava em pé, esperando pelo ônibus, vi um rosto familiar se aproximar. Era aquele colega que eu tinha parado de responder (ele era o meu calouro, por isso ainda tinha aulas). Tentei fingir que não o vi, mas ele andou em minha direção. "Oi Dimitri." "Oi, tudo bem?" "Tudo…Que surpresa te ver. Veio falar com a sua professora?" "Sim, aproveitei para matar a saudade da faculdade. Faz tempo que não vinha aqui." "Hm…entendi." Ele ficou parado ao meu lado em silêncio, e eu também preferi ficar calado. Os alunos que estavam no ponto aguardando subiram em um dos ônibus, nos deixando a sós. Embora ele estivesse quieto, eu podia sentir que ele queria alguma resposta ou explicação. Pensei se deveria pedir desculpas ou dizer alguma coisa, mas eu não sabia se era uma boa ideia. Então me lembrei do que a minha professora me disse. "Lembre-se o porquê de ter aceitado ajudá-lo e não deixe que os seus sentimentos atrapalhem vocês dois." Se até ela podia notar que eu estava apaixonado, então eu estava sendo óbvio demais. A única forma de lidar com o que eu estava sentindo era me mantendo ocupado, mesmo que fosse contra a minha vontade. "Então…me desculpe por ter parado de responder. Eu estava com alguns problemas e sem cabeça para conversar. Você merecia uma resposta, sinto muito. " "Bem…eu aceito as suas desculpas. " "Se quiser me dar uma chance de compensar você por isso…eu vou dar o meu melhor." Sua expressão facial mudou na mesma hora em que terminei de falar. Eu raramente falava coisas como aquelas, e ele sabia disso. "Nesse caso…posso te dar uma última chance. Se você estiver afim de ir para a minha casa agora…a gente podia conversar." Quando saí de casa naquela manhã, eu não imaginava a avalanche de acontecimentos que me acompanhariam naquele dia. Minha vida geralmente era monótona, mas tudo o que era possível, estava acontecendo naquela segunda-feira. Ao invés de resistir aos fatos, decidi apenas aceitá-los e descobrir para onde me levariam. "Será um prazer." - respondi, começando a me arrepender. Depois que aceitei o seu convite, ele começou a puxar assunto, se mostrando animado. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mas eu não podia deixar de pensar no momento em que Vincent tocou a minha pele algumas horas antes. Só de lembrar do seu rosto tão próximo ao meu, eu sentia arrepios. "Quer uma água ou uma cerveja?" "Bem…aceito uma cerveja." - respondi me sentando na cadeira da cozinha da casa dele. "Você se importa se eu tomar um banho antes da gente começar a conversar?" - ele perguntou, começando a tirar a camisa na minha frente. "Pode ir…estarei aqui te esperando." Ele sorriu e entrou no banheiro, fechando a porta. Eu sabia onde estar ali me levaria. Ele era um cara legal e sempre me tratou bem, mas desde o começo, a única coisa que eu sentia por ele era t***o. Se ele queria apenas passar a noite comigo, eu conseguiria fazer isso…desde que eu não estivesse apaixonado. Mas não era mais esse o caso. Inclusive esse foi o motivo para eu ter demorado tanto tempo para f********o casual depois que o meu namoro terminou. Eu tinha sido traído, mas continuava apaixonado pelo meu ex naquela época. Isso tinha sido o bastante para me impedir de dar e receber prazer. Quando terminei de virar o último gole de cerveja, ele abriu a porta e saiu do banheiro completamente nu. "Vem cá." - ele me disse indo em direção ao quarto. Levantei da cadeira e o segui. Assim que entrei no quarto, ele fechou a porta e me beijou.
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