A sexta-feira chegou mais rápido do que eu imaginava. Desde que eu tinha conversando com Vincent naquela semana, não tínhamos nos encontrado mais. Aceitar o pedido dele tirou um grande peso do meu peito, eu não conseguiria deixá-lo só. Agora que iríamos trabalhar juntos, eu tentaria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance por ele, o que incluiria também estudar para aprofundar os meus conhecimentos.
"Animado para hoje?" - Agnes me perguntou feliz, esboçando um grande sorriso.
"Estou, vai ser bom sair um pouco de casa. Desde que me mudei para esse bairro, minha vida tem se resumido em escola e faculdade."
"Eu entendo bem. Parei de sair com os meus amigos porque eles aparentemente andam ocupados demais para aceitar ir em um happy hour comigo. Mas não tem problema, vai ser bom ir com você."
"Na saída nos encontramos em frente à escola?"
"Combinado."
Cheguei na fachada um pouco antes do sinal tocar. Fiquei mexendo no celular enquanto a esperava, até que comecei a ouvir as vozes dos alunos que estavam saindo da escola. Me virei na direção do portão para tentar encontrá-la.
Na calçada, vi um rapaz abraçando Vincent por trás. Eu nunca tinha visto aquele aluno na escola antes, e ele parecia um pouco mais novo do que Vincent. Sua cabeça estava apoiada no ombro dele, como se ambos fossem muito próximos.
Ver os dois abraçados daquele jeito teve um efeito incontrolável sobre mim. Senti uma dor no estômago muito intensa, como se tivessem acertado a minha barriga. Aquela dor eu reconhecia: era ciúmes. A última vez que eu tinha me sentido daquela forma tinha sido com meu ex, quando ainda estávamos no primeiro ano da faculdade. Por que eu estava com ciúmes do Vincent se ele não era nada meu?
Desviei o meu olhar e tentei respirar fundo. Eu precisava sair dali o quanto antes. Enviei uma mensagem para Agnes dizendo que a esperaria no ponto de ônibus que costumávamos ir.
No caminho para o ponto, comecei a pensar sobre o que estava acontecendo comigo. Lembrar de Vincent com aquele rapaz me dava náuseas. Eles estavam apenas abraçados, não tinha nada de errado com aquilo...e mesmo assim meu corpo me punia.
Ainda naquele dia eu teria que revisar o material que Vincent me enviaria. Eu precisava manter a cabeça no lugar e ser profissional, mesmo que isso desafiasse o meu autocontrole. Será que eu estava começando a me apaixonar por ele?
Não, não podia ser...quando senti ciúmes do meu ex, a gente já estava trocando mensagens íntimas há algum tempo. Mas com Vincent...simplesmente não tinha um porquê para eu me sentir daquele jeito. Eu só podia estar ficando louco, ter sentimentos por ele com certeza era um sinal de que eu estava perdendo completamente a razão.
Eu não deixaria minhas emoções me controlarem, eu não podia. Eu evitaria pensar nele e vê-lo, era isso que eu precisava fazer. Com a nossa comunicação por emails eu poderia ajudá-lo da forma mais impessoal possível. Era só eu me concentrar nisso para conseguir continuar com o trabalho até o final.
Assim que cheguei no ponto de ônibus, me sentei no banco. O melhor que podia me acontecer naquela sexta-feira à noite era sair com a Agnes. Me distrair com ela me ajudaria a esquecer aquela situação, mesmo que temporariamente.
"Demorei muito?" - ela disse se aproximando de mim.
"Não, fique tranquila."
"Achei que você iria me esperar na fachada."
"Sim, eu ia...mas como estava movimentado demais na frente da escola, pensei que no ponto de ônibus seria mais fácil te achar. "
"Você tem razão. Então vamos pegar o ônibus para a minha casa e descer uma quadra antes."
Enquanto esperávamos o ônibus chegar, conversamos sobre as aulas, planos para o fim de semana e assuntos cotidianos. Embora eu fosse sair com ela, precisaria voltar para casa cedo e a tempo de enviar a revisão para Vincent. A partir daquele dia eu tinha um compromisso com ele.
"Chegamos, é aqui." - Agnes comentou apontando para uma fachada antiga.
O prédio tinha paredes brancas e janelas amarelas. Entramos e nos sentamos em uma das mesas do primeiro andar.
"Que lugar bonito. Parece uma casa antiga."
"Na verdade, antes de se tornar um pub, aqui era uma mansão de uma família tradicional da região. Eles mantiveram a estrutura interna e externa o mais próximo possível do original porque queriam que fosse um lugar diferente, mais acolhedor."
"Gosto desse tipo de estilo, na verdade sempre gostei de casas, roupas e costumes do século dezoito e dezenove. Às vezes me imagino morando em uma casa no campo e usando roupas de camponês, exatamente como vemos nos livros. Que besteira, né?"
"Não, pelo contrário! Acho que seria incrível viver em um lugar assim. Ao invés de nos preocuparmos em acordar cedo para trabalhar na escola, nos dedicaríamos a cuidar das vacas, galinhas e da plantação."
Conversar com Agnes estava me fazendo bem, éramos mais parecidos do que eu imaginava. À medida que falávamos sobre vários assuntos, ela bebia drinques e eu bebia suco.
"Nossa, achei que hoje você ia me acompanhar nos drinques."
"Desculpe, mas hoje vou preferir ficar sóbrio. Quando sairmos novamente eu te acompanho." - embora eu gostasse de beber drinques e vinhos, minha mente precisaria estar em perfeitas condições para que eu corrigisse o trabalho de Vincent.
"Bem, então nesse caso vou beber por você."
Agnes parecia ser resistente ao álcool, mas comecei a notar que ela já estava consideravelmente embriagada quando começou a rir alto e a contar segredos pessoais. Era a primeira vez que eu a ouvia falar sobre a família, infância e adolescência.
Quando ela se retirou para ir até o banheiro, olhei para o meu celular e vi a hora: eu precisava ir embora antes que ficasse muito tarde.
"Acho que vou pedir mais um drinque, estou com sede ainda, acredita? Você não sabe o que está perdendo, Dimitri."
"Agnes, sinto muito, mas eu preciso ir embora logo. Se quiser pedir esse drinque, eu espero você beber e te levo até em casa."
"Como você é um cavalheiro. Vou beber só mais um e prometo que depois a gente pode ir."
Continuamos conversando, e a cada gole, Agnes parecia mais animada. De certa forma, era divertido vê-la sorrindo daquele jeito. Na escola ela sorria raramente, embora eu a considerasse extrovertida. Naquela noite eu estava conhecendo uma versão diferente dela.
Pagamos a nossa conta e seguimos em direção à sua casa. Ao chegarmos na calçada, Agnes se desequilibrou, então a segurei pelo braço e pela cintura sem pensar.
"Se quiser, pode ir andando apoiada em mim." - comentei enquanto voltávamos a andar.
Ela agradeceu. Ofereci meu antebraço, mas ela segurou meu braço com força, apoiando a cabeça no meu ombro.
"Acho que é aqui que eu moro. Abre pra mim?"
Estávamos parados em frente a uma porta de vidro e ferro. Peguei a chave da sua mão e coloquei na fechadura, destrancando-a. Ao girar a maçaneta, vi que era um prédio em que não havia elevador, apenas escadas. Eu não poderia deixá-la subir sem ajuda.
"Você se importa se eu te levar até o seu apartamento? Essas escadas parecem perigosas na situação atual."
"Só aceito se você me carregar no colo, estou muito cansada. E eu moro no apartamento 12."
Ri ao ouvi-la.
"Você pode subir nas minhas costas, mas segure-se firme." - eu disse me inclinando um pouco para que ela pudesse se apoiar em mim. Ela abraçou meu pescoço e eu apertei os seus joelhos contra o meu corpo, começando a subir degrau por degrau com cuidado.
Embora fosse a primeira vez que eu carregava alguém, imaginei que eu conseguiria fazer isso. Além de Agnes ser bem mais baixa do que eu, sempre fui alguém atlético. Na faculdade, queriam que eu participasse de times de futebol, mas eu não tinha muito interesse em esportes. Minha única atividade física se resumia em sair para correr nos fins de semana.
"Agnes, acorda. Chegamos."
"Mas já?"
Abri a porta do seu apartamento e parei ao lado do sofá. Em seguida, soltei seus joelhos e a ajudei a ficar em pé. Ela ainda estava sonolenta, por isso, deitou-se no sofá e fechou os olhos.
Enquanto eu tirava os seus sapatos, ela começou a dizer palavras que me pegaram de surpresa.
"É por isso que estou afim de você, Dimitri. Que colega de trabalho faz tudo isso por alguém? Na próxima vez que a gente sair, prometo que vou beber menos."
"Descanse, Agnes. Se precisar de mim, pode ligar."
Depois de tirar o seu segundo sapato, acendi o abajur que estava ao lado do sofá e apaguei a luz da sala. Tranquei a fechadura e joguei a chave por debaixo da porta, torcendo para que não tivesse deslizado para debaixo de um dos móveis. Mandei uma mensagem para ela no celular.
"Espero que acorde bem, pode me ligar se precisar. Tranquei a sua porta e joguei a chave na sala, espero que você a encontre facilmente. Obrigado pela companhia."
Saí do prédio da Agnes e peguei um táxi para casa.
Durante o tempo que passei com ela, me diverti e relaxei, o que foi suficiente para eu me sentir preparado para pensar em Vincent novamente. Eu leria o seu material, enviaria a revisão, e para compensar o meu esforço, beberia as garrafas de vinho que ainda restavam na geladeira.
Ao abrir meu email, vi que ele tinha me enviado os capítulos ainda na hora do almoço. Além do texto, havia uma mensagem curta.
"Professor Dimitri, espero um dia retribuir o que você está fazendo por mim. Prometo que vou continuar dando o meu melhor para não te decepcionar. Mais uma vez obrigado."
Ler aquela mensagem despertou um sentimento que eu não conseguia explicar. Vincent conseguia mexer comigo de uma forma que era perigosa. Eu deveria manter a distância ao máximo.
Li o documento e fiz observações ao longo de todo o texto. Em alguns parágrafos fiz sugestões de mudanças de palavras e desenvolvimento de ideias. Vincent escrevia muito bem e tinha um grande domínio das suas palavras, mas para um livro, era necessário construir uma narrativa mais consistente e lógica.
À medida que eu acompanhava a história, eu me encantava mais por aquele universo. Ele tinha uma ideia clara do que queria mostrar no livro, só precisava filtrar uma parte do texto para manter as melhores ideias.
Eu estava tão envolvido com a leitura, que não percebi que já era de madrugada quando eu tinha acabado de corrigir. Separei alguns materiais para ele ler e se inspirar, além de termos que eu considerava importantes. Enviei o email e fechei o notebook.
Embora fosse estimulante ajudá-lo, essa atividade era mais cansativa do que eu imaginava. Só quando me sentei no sofá e comecei a beber uma taça de vinho que percebi o quanto eu estava exausto. Aquele tinha sido um dia longo.
Liguei a televisão para tentar ocupar a minha mente, que voltava a ser atormentada por aquele momento quando vi Vincent sendo abraçado. Quanto mais goles eu dava, mais eu pensava nele.
Esvaziei a primeira garrafa e abri a segunda com a esperança de que mais algumas taças me libertassem daqueles pensamentos. Fechei os olhos. A televisão ainda estava ligada, mas naquele momento eu parecia completamente isolado do mundo.
Vários momentos com Vincent começaram a surgir. Lembrei do primeiro dia em que o vi, de quando conversamos na praça, do nosso encontro na cafeteria...
Quando eu tinha me apaixonado por ele? Teria sido quando ele me perguntou sobre Dostoiésvki ou quando o vi com as bochechas rosadas, prestes a chorar? Será que foi ali que eu me senti atraído e desejando protegê-lo de tudo e de todos?
Ter ele fazendo uma bagunça nas minhas emoções era a última coisa que eu precisava naquele momento. Mas eu sabia que quanto mais eu tentasse negar o que estava sentindo, pior seria. Eu deveria encontrar uma maneira de administrar a minha paixão e abafá-la. Mais cedo ou mais tarde ela desapareceria, eu só precisaria aguentar até lá.
Ao terminar a segunda garrafa, decidi que era melhor eu me preparar para dormir. Antes de ir para o quarto, vi que meu notebook ainda estava ligado. Eu o abri para desligar, e então vi que a janela do email ainda estava aberta. Vincent tinha me enviado uma mensagem. Cliquei sem pensar duas vezes.
"Obrigado pelas correções, vou cumprir exatamente o que você pediu. Eu também queria falar sobre um outro assunto por aqui, já que não nos encontramos mais na escola…. Faz um tempo que não vou às suas aulas de reforço, e estou sentindo falta. Se eu prometer não falar sobre o livro quando estiver na escola, posso voltar a frequentá-las?"
Fechei o navegador e desliguei o notebook. Eu não poderia proibi-lo de ir às aulas, mas eu seria capaz de esconder o que eu estava sentindo?