"Estou esperando ansiosa pela sexta-feira, essa semana está tão cansativa... Adoro dar aula para os alunos, mas vê-los aglomerados só quando o período de provas está próximo me deixa completamente desanimada." - comentou Agnes enquanto estávamos no nosso intervalo entre as aulas.
"Mas quando somos assim tão jovens, estudar não é o nosso ponto forte, né."
"Vou parecer a nerd da sala agora, mas principalmente quando estava me preparando para o vestibular, eu costumava estudar um pouco todos os dias. Eu nunca fui de funcionar bem sob pressão, então eu sabia que se deixasse tudo para última hora, não conseguiria aprender quase nada."
Agnes parecia o tipo de pessoa organizada e dedicada que qualquer aluno gostaria de ser. Sempre estudei muito, mas eu aprendia mais quando as avaliações estavam próximas, isso me fazia manter o foco e a concentração.
"E o que levou você a escolher ser professora de matemática?" - perguntei enquanto atravessávamos o pátio da escola para chegarmos às nossas salas de aula.
"Sempre gostei de ensinar e os professores diziam que eu era boa nisso. Pensei em ser psicóloga também, mas cheguei à conclusão de que eu lido melhor com números do que pessoas."
Quando estávamos terminando de passar pelo pátio, vi de longe Vincent sentado em um banco com um amigo. Vê-lo intensificou aquela sensação que eu estava tentando abafar desde a noite anterior. Eu precisava falar com ele, mas o que eu poderia fazer além de esperá-lo me procurar na aula de reforço?
"Dimitri? Está tudo bem?" - Agnes me perguntou quando eu parei de respondê-la.
"Desculpe, pode repetir o que você estava dizendo, por favor?"
Continuamos a conversa até chegarmos no corredor principal e nos despedirmos. Segui para a minha sala e esperei pelos alunos, principalmente por Vincent. Eu tinha saído de casa decidido a falar com Vincent e tentar convencê-lo a aceitar a ajuda da minha orientadora. Aquela seria a minha última tentativa.
Passaram-se algumas horas e Vincent não apareceu, o que me levou a ficar inquieto e a traçar um plano para encontrá-lo. Eu não sabia os horários das suas aulas, então minha alternativa seria tentar encontrá-lo assim que o sinal da última aula tocasse. Eu o esperaria na entrada da escola e torceria para que nossos caminhos se cruzassem naquele dia.
"Obrigado pela ajuda professor, estou mais confiante com a prova agora." - respondeu minha aluna sorrindo. Ela era dedicada e estava apresentando uma melhora significativa desde a sua primeira visita à minha aula.
"Se tiver mais dúvidas, pode vir. Você está indo bem."
Ao acenar para ela, olhei para o meu relógio de pulso: faltavam apenas cinco minutos para o sinal final tocar. Arrumei meus pertences rapidamente e segui para a entrada da escola.
Quando o sinal tocou, eu já estava na fachada esperando por ele. Olhei para o lado e vi os alunos saindo, inclusive a aluna que eu tinha atendido há alguns minutos. O sinal tocou novamente, mas não consegui ver Vincent. Ao olhar para o relógio, comecei a acreditar que naquele dia eu não o encontraria mais.
"Está indo para casa mais cedo hoje ou é impressão minha?" - comentou Agnes, surgindo em meio aos alunos.
Por mais que eu gostasse da companhia dela, naquele momento fiquei irritado. Conversar com ela me impedia de ver se Vincent estava saindo da escola. Respondi que precisava resolver algumas coisas antes de ir para casa, e em seguida tentei disfarçar o fato de que eu estava procurando por alguém.
"Ah, entendi. Então hoje não vai dar para a gente ir até o ponto de ônibus juntos, né?"
"Infelizmente não, mas quem sabe da próxima vez."
"Bem, nesse caso, vou seguindo meu caminho. Até amanhã." - Agnes sorriu e olhou na direção em que eu estava encarando. Ela sabia que eu estava procurando por alguém, eu tinha certeza.
Depois que ela se afastou, percebi que os últimos alunos estavam passando pelo portão. Não seria daquela vez que eu conversaria com ele. Segui na direção da minha casa como de costume, me sentindo frustrado mais uma vez.
Quando eu já estava próximo ao meu apartamento, em uma rua paralela à do meu prédio, ouvi uma voz familiar.
"Você gosta mesmo de me provocar com essas suas histórias amorosas, só porque sabe que eu não tenho experiência com isso."
Virei meu rosto para o lado, e vi sentado na área externa de uma cafeteria, Vincent e o amigo que estava com ele no momento em que passei no pátio mais cedo. Encontrá-lo por acaso parecia bom demais para ser verdade.
Aquela poderia ser a oportunidade perfeita para falar com ele, mas com o seu amigo ao lado, eu não poderia abordá-lo. Decidi entrar na cafeteria e pedir um café enquanto pensava no que fazer. Entrei discretamente, mas não consegui perceber se ele tinha me visto.
"Pode esperar pelo seu pedido no balcão lateral, por gentileza." - comentou o atendente, devolvendo o meu cartão.
Me apoiei no balcão e olhei na direção da mesa em que Vincent estava, mas para a minha surpresa, a cadeira estava vazia. Ele teria me visto e decidido ir embora? Bem que parecia bom demais para ser verdade…
"O seu café, senhor." - o atendente disse enquanto tampava o copo.
"Obrigado." - respondi desanimado. Eu estava tão perto dele...eu não acreditava que tinha deixado aquela oportunidade passar.
De repente, alguém tocou no meu ombro levemente.
"Professor?"
"Oi..Vincent." - respondi tentando disfarçar o enorme sorriso que estava surgindo no meu rosto. Meu coração estava começando a bater de uma forma desordenada.
"Que coincidência a gente se encontrar a tantas quadras da escola."
"Você tem razão." - eu não podia deixar aquela oportunidade escapar novamente. - "Você tem tempo para conversar um pouco?"
"Para você eu tenho tempo sempre." - Vincent respondeu me deixando surpreso. Ele estava sendo gentil demais ou era impressão minha?
Sentamos na mesa próxima àquela em que Vincent estava alguns minutos antes. Começamos a conversar.
"Eu soube que você recusou a ajuda da minha professora."
"Sim...sinto muito por isso, mas serei eternamente grato por vocês quererem me dar apoio.
"Mas você entende que ter ela te orientando seria muito importante para você desenvolver o livro de acordo com o que o concurso pede?"
"Sim, eu entendo. Mas prometo que vou me esforçar e reler várias vezes antes de entregar as próximas versões. De qualquer forma, eu não tinha muitas chances de conseguir mesmo…"
Era a primeira vez que eu via aquele Vincent tão determinado mostrando sinais de desânimo. Não fazia parte dele ser inseguro daquela forma. Ouvir as suas palavras estava começando a me deixar angustiado e irritado novamente.
"Vincent...por que você só aceitaria ajuda se fosse a minha?"
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, começando a mexer no anel que estava em seu dedo mindinho. Era possível perceber que ele estava se sentindo envergonhado com a minha pergunta. Eu não queria que ele se sentisse daquela forma. Decidi mudar de assunto.
"Não tenho muita experiência revisando textos, principalmente de ficção científica. Além disso, tem muita coisa em jogo...e eu não quero te prejudicar com a minha falta de conhecimento com a construção de narrativas. Foi por isso que eu não aceitei o seu pedido. Mas eu acredito muito no seu potencial. Tudo o que eu falei sobre os capítulos que li, são verdade: você com certeza tem tudo o que precisa para transformar o seu sonho em realidade. Só que sem ajuda, você vai encontrar muito mais obstáculos para conseguir. Na sua idade, eu também queria fazer tudo por conta própria, mas esse caminho é muito difícil e doloroso. Você não precisa enfrentar esse concurso sozinho."
"Dimitri…"- era a primeira vez que ele me chamava pelo primeiro nome ao invés de 'professor'. Eu não fazia ideia do que esperar da sua resposta.
"Vincent, você entende o que eu quero dizer?" - falei interrompendo-o.
"...quando eu te encontrei pela primeira vez, eu senti que podia confiar em você, por isso que nas nossas conversas eu fui tão aberto sobre mim. Antes da gente se conhecer, eu constantemente tinha conflitos internos, porque eu sempre amei escrever, mas ninguém achava que eu era bom o suficiente pra isso. Então eu não podia deixar de pensar que talvez fosse só coisa da minha cabeça, sabe? Se eu era o único que me achava bom nisso, será que valia a pena continuar com esse sonho? Esses e outros pensamentos me perturbavam tanto, que eu não conseguia nem me concentrar mais como antes por causa disso. Mas isso aconteceu só até eu encontrar você. Talvez você nunca saiba o quanto está fazendo a diferença na minha vida. Você me motivou a seguir o meu sonho e me mostrou que eu não estava louco. Eu poderia sim me tornar quem eu queria um dia. Pra abafar os pensamentos ruins que estavam me assombrando, eu só precisava de alguém que acreditasse em mim, e essa pessoa foi você. Por isso não posso aceitar a ajuda da sua professora. Tenho certeza de que ela é incrível, mas eu só estava motivado a dar o meu melhor no concurso por sua causa. Esse livro só fará sentido, se eu tiver você ao meu lado fazendo parte disso. Não quero ser egoísta, e na verdade já estou me sentindo muito egoísta te dizendo tudo isso...mas eu preciso ser franco: independente do resultado do concurso, se eu tiver você como o revisor, pra mim isso será o suficiente. O que mais importa agora, é o que a pessoa que me apoiou pensa sobre o meu trabalho. Dimitri...eu só me importo com o que você pensa."
Ouvir aquele desabafo me deixou sem chão. Eu não imaginava que a minha opinião fosse tão importante pra ele. Quando o apoiei, fiz aquilo porque vi que ele tinha potencial, que era dedicado e amava literatura. Eu nunca imaginaria que as minhas palavras levariam àquelas consequências. Agora eu entendia o que a minha professora tinha falado. Sim, eu tinha um propósito na vida do Vincent.
Aceitar ajudá-lo seria ir contra os meus valores...eu não queria ter qualquer tipo de vínculo além da sala de aula, mas já era tarde demais. Eu não podia mudar mais o passado, apenas ter consciência de como as minhas atitudes impactariam no futuro. Aquela seria a primeira e última vez que eu quebraria as minhas próprias regras.
"Agradeço a sua confiança em mim, mas me preocupo com as expectativas que você pode ter com a minha ajuda. Minha resposta inicial tinha sido negativa...mas eu não posso ignorar o seu esforço e amor pelo que você faz. Eu aceito ser o seu revisor, mas com algumas condições."
"Sério? Não acredito!" - eu nunca tinha visto Vincent sorrir tanto.
"Sim, vou te ajudar até a última etapa do concurso, e farei o meu melhor para você conseguir o primeiro lugar. Mas é muito importante estabelecermos alguns limites para que a nossa parceria funcione, tudo bem?"
"Sem problemas! Aceito qualquer condição e qualquer limite que você quiser."
"Primeiro, conversaremos apenas por email. Toda sexta-feira revisarei o seu trabalho, então você poderá corrigi-lo durante o fim de semana com calma. Quando estivermos na escola, não conversaremos sobre o livro, esse é um assunto que deve limitar-se somente ao email, ok?"
Vincent concordou. Tirei uma folha da mochila, anotei o meu email pessoal e dei a ele. Eu sabia que o que eu estava fazendo eticamente não era certo, mas aquela seria a única vez. Eu faria aquilo como um amigo, não como o seu professor.
"Tudo bem! Essa sexta vou enviar o que eu tenho até agora."
"Perfeito. Uma vez por semana também vou te mandar algumas referências de autores para você conhecer e materiais para estudar. Escrever um livro exige muita imaginação, mas também muito conhecimento. Vamos fazer o nosso melhor, combinado?"
"Combinado."
Terminamos de conversar sobre o planejamento dos próximos capítulos e nos levantamos da cadeira.
"A propósito, você costuma vir nessa cafeteria?" - perguntou Vincent.
"É a primeira vez que entro nela, mesmo morando aqui perto, acredita?"
"Então isso significa que podemos nos esbarrar mais vezes. Eu costumava vir aqui com frequência antes de começar a escrever o meu livro, mas acabei ficando sem tempo. Hoje meu amigo me obrigou a tomar um café com ele, porque segundo as suas palavras, ‘precisava conversar sobre um assunto de vida ou morte’. Ele só tinha saído com uma menina que ele está afim e queria contar sobre o primeiro beijo deles. Que dramático, né?"
"É normal ser dramático nessa idade." - respondi brincando.
Vincent seguiu em direção ao fim da rua, e eu segui para o meu prédio. Pensar na conversa que tivemos na cafeteria apagou completamente a angústia que eu estava sentindo antes. Agora a frustração estava sendo preenchida por uma alegria incontrolável. Eu estava contando os dias para começar a trabalhar com ele.