Angústia

2149 Palavras
Não sei por que eu estava me sentindo nervoso daquele jeito. Desde que eu tinha chegado na escola, não podia deixar de pensar sobre o momento em que eu conversaria com Vincent. Eu estava ansioso, o que me fazia ter pensamentos confusos: ao mesmo tempo em que eu queria que Vincent chegasse logo, estava torcendo para que ele mudasse de ideia e não me procurasse mais. Até a hora de dormir, mentalmente simulei várias possibilidades da minha conversa com ele. Minha decisão tinha sido sugerir que a minha orientadora o ajudasse, ela com certeza faria um trabalho melhor do que eu. Naquele dia, diferente da maioria das vezes, alguns alunos apareceram na monitoria para esclarecer dúvidas. Isso me ajudou a me distrair e a ficar mais tranquilo. Passei a tarde ensinando e corrigindo exercícios, por isso só vi que já estava tarde quando olhei para o meu celular. Teodora tinha me enviado uma mensagem. "Já decidiram quem vai ser o revisor? Estou curiosa." "Acho que nenhum de nós dois. Ele não apareceu hoje, então deve ter mudado de ideia." "Se tiver novidades, me avisa." Quando terminei de respondê-la, tomei um susto. Parado na porta me encarando, estava Vincent. "Ainda bem que eu não tenho problema cardíaco. Que susto!" - respondi ainda tentando me recuperar. "Desculpe, você parecia ocupado e eu não queria atrapalhar. Desculpe também pelo horário, por um momento achei que você já tinha ido embora." "Você teve sorte, geralmente nesse horário eu já estou perto de casa." "Bem...já que o universo está a meu favor hoje, podemos conversar?" "Claro...logo a escola fecha, então a gente poderia ir para aquela praça em que conversamos da última vez." Vincent concordou, por isso seguimos para o local em silêncio. Aquela situação era estranha. Por achar que ele não iria mais perguntar sobre a minha resposta, fiquei surpreso ao encontrá-lo daquela forma, repentinamente. Fiquei um pouco preocupado se alguém nos veria saindo juntos da escola, eu não queria dar margem a comentários entre alunos ou professores. Mas na hora em que fomos embora, não havia ninguém na entrada do colégio. O universo parecia mesmo querer que a gente tivesse aquela conversa. "Sinto muito por ter demorado a te encontrar, achei que chegaria mais cedo, mas levei mais tempo do que eu previa corrigindo os primeiros capítulos." "Tudo bem. Na verdade, achei que você tinha mudado de ideia sobre o seu pedido." "Não, de forma alguma. Uma das razões para eu já ter decidido corrigir as páginas iniciais era porque eu queria te mostrar o que estou fazendo." "Mas eu ainda não te dei a minha resposta…" "É, eu sei...e justamente por acreditar que há poucas chances de você aceitar, eu quero te fazer um pedido: que você leia os dois primeiros capítulos antes da sua resposta." Fiquei confuso com o que ouvi. Ele realmente achava que se eu não fosse aceitar, algumas páginas do seu livro seriam suficientes para me convencer? Ninguém mudaria de ideia tão rápido, a não ser que fosse por uma ótima razão. Depois daquela tarde, provavelmente Vincent e eu não conversaríamos mais sobre o livro, talvez só quando ele estivesse completo e já tivesse sido enviado para o concurso. Considerando isso, pensei que a última coisa que eu poderia fazer por ele, era aceitar o seu pedido e ler aquelas páginas. "Tudo bem, talvez eu demore um pouco porque lerei com calma." "Leve o tempo que você precisar. Hoje eu não tenho horário para voltar pra casa." Ao pegar nas folhas, comecei a ler os parágrafos, tentando me concentrar ao máximo. Eu podia sentir a apreensão de Vincent, que permanecia ao meu lado olhando para o horizonte. A introdução da história narrava um mundo pós-apocalíptico no qual havia escassez de oxigênio. Os poucos habitantes restantes compartilhavam as reservas disponíveis através de cilindros de oxigênio protegidos por uma tecnologia avançada. A única forma de respirar era através da ativação dos cilindros por duas pessoas ao mesmo tempo. Segundo os criadores da tecnologia, essa seria uma forma de obrigar os sobreviventes a cooperarem e a se manterem unidos, independente das adversidades. O objetivo da história era mostrar que os seres humanos só conseguiriam ficar vivos se estivessem juntos. Nesse contexto, o protagonista principal, que vive isolado da civilização, está prestes a perder a sua irmã. Por isso, ele precisa urgentemente encontrar um parceiro substituto antes que ela morra. Do contrário, ele morrerá assim que a sua reserva temporária for completamente usada. Terminei de ler o começo da história e fiquei impressionado com a criatividade de Vincent. A forma como ele construiu o universo, os problemas daquele mundo e o conflito principal me deixou interessado, querendo ler mais. Considerando aspectos técnicos, eu tinha encontrado alguns problemas de coesão e parágrafos confusos, que tinham informações demais para processar. Mas no geral, vi que sem dúvidas aquela história era original o bastante para ser reconhecida por amantes de literatura, e principalmente de ficção científica. "Uau...estou fascinado com o que você escreveu. Gostei de todas as nuances que você colocou e como construiu a narrativa. Tenho certeza de que você nasceu mesmo para escrever." - comentei devolvendo as folhas para ele. "Obrigado, ouvir isso significa muito pra mim…" "Mas fiquei curioso...o que levou você a pensar nesse ponto central do seu enredo? Por que compartilhar um cilindro de oxigênio com alguém para conseguir sobreviver?" "Eu estava pensando sobre essa ideia há muito tempo. Eu queria contar uma história em que a cooperação mútua fosse a condição principal para que as pessoas sobrevivessem. Acredito que mesmo quando a vida é muito difícil, se temos alguém com quem podemos contar, isso pode ser o suficiente para irmos até o fim." "É muito nobre da sua parte pensar assim. Concordo com você, ter alguém em quem podemos confiar faz toda a diferença." - não pude deixar de pensar na minha mãe enquanto respondia. "Tenho muitos amigos na escola, sabe...mas por mais que eu goste de estar com eles, quando penso em alguém para confiar e com quem eu poderia compartilhar o meu cilindro de oxigênio...só tenho uma pessoa em mente, e não é nenhum deles." "E quem seria?" "Você." Mais uma vez Vincent estava me deixando sem palavras. O que ele queria dizer com aquilo? Então ele só podia confiar em mim? Mas éramos apenas conhecidos que interagiam de vez em quando... "Vincent, eu pensei muito se eu deveria ser ou não o revisor do seu livro, e cheguei à conclusão de que o melhor para você é ter alguém com conhecimento e experiência suficientes para te ajudar. Essa pessoa é a minha orientadora, ela trabalhou em uma editora há um tempo, e disse que está disposta a ser a sua revisora se você quiser. Esse é o email dela, você só precisa enviar os capítulos." - respondi tirando um pedaço de papel do bolso e anotando o email. "Obrigado por pensar na minha proposta e me ajudar. Enviarei uma mensagem." "Tenho certeza de que vocês farão um ótimo trabalho e que você tem muitas chances de vencer. Estarei torcendo por você. Agora preciso ir." - falei enquanto me levantava do banco e acenava para ele. Eu tinha conseguido ser racional, enfim aquele assunto estava resolvido. A história de Vincent ainda me impressionava, e eu não podia esperar para ver o que a minha professora tinha a dizer sobre ele. Peguei o meu celular e escrevi uma mensagem curta para ela. "Passei o seu email pra ele, acho que você vai se surpreender positivamente com o enredo. Mais uma vez obrigado por aceitar o desafio." Quando cheguei na sala do meu apartamento, deixei o celular no sofá e fui fazer os afazeres domésticos. Há poucos meses, eu tinha começado a morar sozinho em uma kitnet próxima ao estágio e localizada em um bairro distante da casa em que eu tinha sido criado. Inicialmente, eu não queria me mudar e deixar minha mãe sozinha com o meu pai, mas ela me convenceu de que assim seria melhor. Segundo ela, saindo de casa, eu poderia ter a minha própria independência e me formar sem me sentir sobrecarregado. De certa forma, eu sinto que ela queria que eu me poupasse do convívio com o meu pai, que estava ficando cada vez pior. Prometi a ela que assim que eu tivesse condições suficientes para trazê-la para morar comigo, eu faria isso. Mas por enquanto, eu só conseguia pagar as minhas próprias contas, e economizando muito. Enquanto eu arrumava a casa, lembrei que no dia seguinte eu precisaria ir ao mercado comprar os ingredientes para o jantar que eu teria com meu colega de faculdade. Eu tinha o convidado para ir até a minha casa naquele fim de semana depois dele ter me enviado algumas mensagens dizendo que queria me ver. Era a primeira vez que eu recebia uma visita além da minha mãe, e eu sabia que as chances dele dormir comigo naquele encontro eram grandes. Por essa razão, eu precisava me preparar para que tudo fosse perfeito. Desde o término com meu ex, eu costumava sair com alguns conhecidos que mostraram interesse por mim na época em que eu era comprometido. Eu sempre negava os avanços deles, mas depois que fiquei solteiro, eu aproveitava cada oportunidade que tinha para me sentir desejado. Naquela semana, depois de tanto estresse, eu precisava extravasar e sentir prazer. Depois de colocar algumas roupas para lavar, limpar a mesa e trocar os tapetes do corredor, me sentei no sofá. Eu tinha recebido uma mensagem. "Estou curiosa para ler a história dele, mas parece que não vai ser dessa vez. Ele me enviou um email agradecendo, mas negando a ajuda. Vincent disse que iria terminar o livro sozinho, porque só faria sentido ter ajuda de alguém se essa pessoa fosse você. Achei fofo." "O quê? Eu não acredito que ele não aceitou!" - fiquei transtornado. Se ele não queria ajuda de mais ninguém além de mim, por que ele não me disse? "Não fique tão bravo. Ele pode ser maduro e bom com as palavras, mas ele ainda é muito jovem, está começando a descobrir sobre a vida só agora. Honestamente, eu acho difícil alguém sem experiência vencer um concurso como esse sem ajuda, mas se é o que ele quer, o melhor que podemos fazer é aceitar a decisão dele." "Você está sendo sábia como sempre. Obrigado." Fazia muito tempo que eu não me sentia daquela forma: completamente frustrado. Por que eu fiquei tão irritado com aquela situação se ele não significava nada para mim? Normalmente eu era calmo e poucas coisas me tiravam do sério, mas a recusa de Vincent tinha se tornado uma delas. Ele não aceitar ajuda significaria perder o concurso, e por consequência, abandonar de vez a ideia de ser um escritor. Ter lido uma parte da história dele só me fazia sentir ainda mais chateado. Eu precisava urgentemente distrair a minha mente e acabar com aquela sensação que estava me deixando deprimido. Enviei uma mensagem para o meu colega de faculdade. "Eu sei que a gente combinou de se ver no fim de semana, mas quer vir aqui hoje à noite?" "Tipo agora? Eu já estava quase dormindo." "Tranquilo, a gente mantém no fim de semana então." "Ei, espera. Em meia hora eu chego aí." Era a primeira vez que eu o chamava para me encontrar repentinamente, e eu nem sabia se aquela era uma boa ideia. Mas preferi não pensar nisso, apenas esperar ele chegar. Durante o tempo em que ele vinha até a minha casa, arrumei a minha cama e tomei um banho. Quando estava terminando de passar perfume, ouvi a campainha tocar. Era ele. Abri a porta rapidamente. "Nossa Dimitri, você não imagina como fiquei surpres…" Não o deixei terminar a frase. Puxei ele pelo braço, e enquanto o jogava contra a parede, fechava a porta. Eu não queria conversar, eu queria me sentir vivo. Ele retribuiu a minha intensidade e não me perguntou nada. Com a mesma vontade que tirei sua roupa, ele me mostrou quem mandava na cama. "Você pode dormir aqui em casa, mas amanhã de manhã acordo cedo." - comentei exausto enquanto me virava de costas para ele. "Tudo bem, boa noite Dimitri." Depois daquela noite, decidi que não queria ver o meu colega de faculdade de novo. Ao contrário das vezes anteriores em que dormimos juntos, daquela eu não consegui prestar atenção nele. Eu só conseguia pensar em Vincent. Quando levantei da cama na manhã seguinte, ele já tinha ido. Ele deixou um bilhete agradecendo pela noite e perguntando se o nosso encontro no fim de semana estava de pé. Joguei o bilhete no lixo do quarto, me preparei para ir para a escola e não o respondi mais. Eu continuava me sentindo deprimido por causa do Vincent, e quanto mais eu pensava nisso, mais a sensação de angústia ficava pior. Eu tinha que fazer alguma coisa em relação à ele.
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