Capítulo 9 – As Cartas Esquecidas
A madrugada após o baile foi longa para Helena. O brilho das lanternas e os olhares curiosos da cidade ainda a assombravam. O discurso ousado de Gabriel, a presença sufocante de Beatriz e as palavras enigmáticas de Rafael se misturavam em sua mente como um redemoinho.
De volta à confeitaria, sozinha em seu quarto, abriu mais uma vez o caderno da mãe. As letras frágeis pareciam ganhar vida sob a luz da lamparina. No rodapé de uma das páginas, lia-se novamente a frase que não saía de sua cabeça:
"Os Monteiro jamais poderão saber."
Ela fechou o caderno com força, como se quisesse calar o passado. Mas já era tarde. Os Monteiro começavam a saber — ou pelo menos desconfiar.
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Na mansão, Rafael mantinha o sorriso satisfeito. Em sua escrivaninha, espalhadas diante dele, estavam as cartas encontradas no escritório de Álvaro Monteiro. As folhas amareladas carregavam uma caligrafia delicada, feminina, assinada por Elisa Duarte.
"Meu querido Álvaro, sei que nosso encontro jamais poderá ser revelado. O mundo não aceitaria. Mas o que sinto não se apaga com o tempo."
Rafael leu e releu, cada palavra alimentando seu desejo de poder. Agora tinha nas mãos algo capaz de abalar não apenas Gabriel, mas toda a reputação dos Monteiro.
— Então é verdade… — murmurou, quase com prazer. — Duarte e Monteiro, unidos em segredo.
Guardou as cartas em um cofre pequeno, mas levou uma consigo no bolso do paletó. Sabia que aquela prova seria útil para provocar fissuras no castelo de gelo construído por Beatriz.
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Na confeitaria, a manhã seguinte parecia mais agitada do que o normal. O baile ainda era o assunto principal da cidade, e muitos clientes foram comprar doces apenas para espiar Helena de perto.
— Você virou notícia, irmã. — disse Carolina, servindo café a um grupo de senhoras que cochichavam entre si. — Todos falam da sua dança com Gabriel.
Helena não respondeu. Estava inquieta. Sentia que algo estava prestes a acontecer, como se o chão estivesse se abrindo sob seus pés.
E não demorou para a inquietação se confirmar.
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Pouco depois do meio-dia, Rafael entrou na confeitaria, impecável como sempre. Helena, ao vê-lo, sentiu um arrepio de alerta.
— O que quer desta vez? — perguntou, sem rodeios.
Ele tirou do bolso uma folha dobrada com cuidado e a colocou sobre o balcão.
— Acho que deve ver isso.
Helena hesitou, mas acabou abrindo o papel. Reconheceu de imediato a caligrafia: era a letra de sua mãe.
"Álvaro, se um dia descobrirem o que vivemos, temo pelo destino de nossos filhos. Que a verdade fique enterrada com a nossa dor."
Helena levou a mão à boca, atônita.
— Onde conseguiu isso?
Rafael sorriu, satisfeito com o efeito.
— Digamos que o passado sempre deixa rastros. E eu os encontrei.
— Isso… isso não pode ser real.
— É mais real do que você imagina. — respondeu ele, aproximando-se. — Sua mãe e Álvaro Monteiro. Um amor escondido. Um segredo que poderia destruir famílias inteiras se viesse à tona.
Helena sentiu as pernas fraquejarem.
— Por que está me mostrando isso?
— Porque quero que saiba que Gabriel nunca poderá te oferecer o que promete. O sangue de vocês está enredado em mentiras.
Ela encarou Rafael com raiva.
— Você está usando o passado para manipular o presente.
Ele ergueu os ombros, indiferente.
— Chame como quiser. Eu só vejo oportunidades.
E antes que Helena pudesse reagir, ele saiu, deixando-a com a carta trêmula nas mãos.
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Mais tarde, Gabriel apareceu na confeitaria, como vinha fazendo quase todos os dias. Ao perceber o semblante abatido de Helena, preocupou-se.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela escondeu a carta rapidamente.
— Não, só… cansaço.
Gabriel segurou sua mão.
— Sabe que pode confiar em mim, não sabe?
Helena o olhou, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. Queria contar, mas o medo a paralisava. Se Gabriel descobrisse sobre o envolvimento entre seus pais, o que aconteceria?
— Eu sei. — respondeu por fim, mas sua voz saiu fraca.
Gabriel a abraçou, sem imaginar o peso que ela carregava no peito.
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Enquanto isso, na mansão, Beatriz entrou no quarto de Rafael sem bater. Encontrou o sobrinho sentado à escrivaninha, fechando apressado uma gaveta.
— O que está escondendo? — perguntou, desconfiada.
Rafael sorriu, fingindo inocência.
— Apenas anotações pessoais.
Beatriz estreitou os olhos.
— Conheço esse seu olhar, Rafael. Está tramando alguma coisa.
— E se estiver? — ele rebateu. — Talvez seja hora de alguém chacoalhar esta família.
Beatriz aproximou-se, fria.
— Se mexer com Gabriel, mexerá comigo.
Ele sorriu de canto.
— Talvez não seja Gabriel o meu alvo.
As palavras ficaram suspensas no ar, deixando Beatriz inquieta.
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Naquela noite, Helena voltou a ler a carta. O coração doía. Parte dela queria queimá-la e esquecer, mas outra parte sabia que precisava da verdade. Decidiu recorrer a alguém em quem ainda confiava: Padre Augusto.
Foi até a igreja e mostrou-lhe o papel. O padre leu em silêncio, depois fechou os olhos, como se confirmasse algo que já suspeitava.
— Então é verdade… — murmurou.
— O senhor sabia? — Helena perguntou, aflita.
Padre Augusto respirou fundo.
— Desconfiava. Muitos anos atrás, seu pai viajava com frequência, e sua mãe passava muito tempo sozinha. Álvaro Monteiro era um homem de charme perigoso. Nunca tive provas… até agora.
Helena apertou a carta contra o peito.
— O que faço, padre?
— Guarde esse segredo. Ainda não é hora de revelar.
— Mas Rafael já sabe!
O padre arregalou os olhos.
— Rafael?
Helena assentiu, chorosa.
— Foi ele quem me mostrou a carta.
Padre Augusto apoiou a mão em seu ombro.
— Então o perigo é maior do que imaginamos. Rafael usará essa informação como uma arma. Precisa ser forte, minha filha.
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No mesmo instante, Rafael caminhava sozinho pela praia, satisfeito com os próprios avanços. O vento agitava seus cabelos, e o som das ondas parecia embalar seus pensamentos.
— O passado é um doce amargo. — murmurou, olhando para o céu estrelado. — E eu sou quem vai servir a fatia final.
Enquanto isso, no quarto da confeitaria, Helena olhava para a carta novamente, o coração em pedaços. A lua iluminava seu rosto aflito, e ela se perguntava se o amor por Gabriel resistiria ao peso daquela revelação.
No silêncio da noite, uma certeza ecoava: os segredos estavam começando a sair das sombras.
E nada seria como antes.