Capítulo 7 – O Jogo de Rafael
O sol do fim da tarde tingia Vila Serena de dourado. As ondas batiam suaves contra as pedras, e o vento carregava o cheiro salgado do mar. A cidade parecia viver sua calmaria habitual, mas nos corredores da mansão Monteiro, uma tempestade começava a se formar.
Rafael observava o jardim pela janela do quarto. Sempre se sentira como um convidado indesejado naquele lugar, mesmo sendo sangue da família. Crescera à sombra de Gabriel, o primo perfeito: educado, herdeiro natural, admirado por todos. Rafael, por outro lado, carregava a fama de oportunista, impulsivo, incapaz de assumir responsabilidades.
Mas ele sabia que tinha algo que Gabriel não possuía: a disposição para sujar as mãos.
Naquela tarde, depois de ouvir a discussão entre Gabriel e Beatriz sobre Helena, uma ideia começou a germinar. Se o primo estava disposto a enfrentar a própria mãe por causa da doceira, talvez ali houvesse uma fraqueza a ser explorada.
Rafael sorriu de lado, ajeitando o paletó.
— Hora de mostrar que ninguém é intocável.
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Na confeitaria Doce Encanto, Helena terminava de arrumar as mesas externas quando ouviu passos se aproximando. Ao erguer os olhos, encontrou Rafael, elegante como sempre, com um sorriso polido que escondia intenções mais profundas.
— Senhorita Helena Duarte. — disse ele, fazendo uma pequena reverência. — Finalmente tive a honra de visitar sua famosa confeitaria.
Helena piscou, surpresa.
— Rafael Monteiro… não esperava vê-lo por aqui.
— Pois deveria. — ele respondeu, entrando como quem já se sentia em casa. — Sempre ouvi falar dos seus doces, mas parece que ultimamente se fala mais… da doceira em si.
Helena corou levemente, desconfortável.
— Se veio em busca de provocações, pode voltar. Tenho trabalho.
— Calma. — Rafael ergueu as mãos, teatral. — Só vim provar seus bolos. Dizem que são capazes de adoçar até os corações mais amargos.
Carolina surgiu, atraída pela conversa.
— Ora, se não é o primo Monteiro. Seja bem-vindo!
O brilho nos olhos dela não passou despercebido a Rafael. Ele a cumprimentou com cortesia, mas manteve o foco em Helena.
— Gostaria de provar o que tem de melhor.
Helena suspirou, resignada, e serviu-lhe uma fatia de bolo de nozes com calda de caramelo. Rafael provou lentamente, como quem saboreia não apenas o doce, mas o momento.
— Excepcional. — disse, fitando-a diretamente. — Como você conseguiu transformar algo simples em algo memorável?
— Segredo de família. — respondeu Helena, tentando encerrar o assunto.
Mas Rafael não estava disposto a desistir tão fácil.
— Então devo me aproximar mais da família, para descobrir.
Carolina riu da ousadia.
— Acho que não seria uma má ideia.
Helena lançou-lhe um olhar de advertência, mas Rafael apenas sorriu.
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Horas depois, Gabriel entrou na confeitaria. Encontrou Rafael sentado à mesa, conversando animadamente com Carolina, enquanto Helena atendia outros clientes. Seu semblante mudou imediatamente.
— Rafael… — disse ele, aproximando-se. — O que faz aqui?
— Degustando os encantos de Vila Serena. — respondeu o primo, com um sorriso provocador. — Você nunca me falou que a confeitaria era tão agradável.
Gabriel franziu o cenho.
— Helena não precisa de bajulação.
Rafael ergueu as sobrancelhas, fingindo inocência.
— Não estou bajulando, apenas apreciando. E acho curioso que você, Gabriel, tão racional e distante, esteja tão… envolvido.
O clima na confeitaria ficou pesado. Helena tentou intervir.
— Por favor, não façam isso aqui.
Mas Gabriel já não conseguia conter a irritação.
— Helena merece respeito, Rafael. E você não vai usá-la para seus joguinhos.
— Quem disse que é um jogo? — rebateu Rafael. — Talvez eu apenas tenha enxergado o que você ainda finge não ver.
Carolina observava tudo, fascinada pelo embate.
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À noite, Helena refletia sobre o ocorrido. Sentia-se dividida entre a gratidão pela defesa de Gabriel e a inquietação causada por Rafael. Havia algo no olhar do primo que a deixava em alerta: não era apenas interesse romântico, mas também uma curiosidade perigosa.
Ela abriu novamente o caderno da mãe, relendo a frase enigmática: "Os Monteiro jamais poderão saber."
O coração dela acelerou. Será que Rafael já suspeitava de algo?
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Na mansão, Rafael entrou sorrateiramente no antigo escritório de Álvaro Monteiro. O lugar permanecia quase intocado desde a morte do patriarca. Entre livros empoeirados e caixas esquecidas, ele começou a vasculhar.
Encontrou pastas de negócios, cartas, e por fim, um envelope fechado com cera antiga. Ao romper o lacre, leu rapidamente o conteúdo: correspondências entre Álvaro e uma mulher chamada Elisa Duarte.
Rafael arregalou os olhos. Duarte. O mesmo sobrenome de Helena.
— Então é isso… — murmurou, guardando as cartas no paletó. — O doce e o amargo se encontram no sangue.
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No dia seguinte, Helena foi surpreendida por Rafael novamente. Ele apareceu cedo, antes mesmo da confeitaria abrir.
— Preciso falar com você. — disse, sério.
Ela cruzou os braços, desconfiada.
— O que quer agora?
Rafael a encarou com intensidade.
— Quero que saiba que eu sei mais do que imagina. Sobre sua mãe. Sobre o passado.
Helena empalideceu.
— Do que está falando?
Ele sorriu, satisfeito com a reação.
— Apenas digo isso: Gabriel não é o único Monteiro que pode mudar a sua vida. Pense bem, Helena. Às vezes, é melhor escolher quem não tem nada a perder.
E, sem esperar resposta, partiu, deixando-a em choque.
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Na mesma noite, Gabriel apareceu novamente no portão da confeitaria. Helena, ainda abalada pelas palavras de Rafael, hesitou antes de encontrá-lo.
— Você está estranha. — disse Gabriel, preocupado. — Aconteceu alguma coisa?
Helena mordeu os lábios, dividida entre confiar ou se calar.
— Apenas… muitas coisas ao mesmo tempo.
Gabriel segurou sua mão através das grades do portão.
— Eu prometo que vou enfrentar qualquer coisa por você.
Os olhos dela marejaram. No fundo, queria acreditar. Mas as palavras de Rafael ecoavam em sua mente como uma ameaça.
"Os Monteiro jamais poderão saber."
E agora ela temia que já fosse tarde demais.
📜 Capítulo 8 – O Baile da Cidade
O salão principal do Clube Social de Vila Serena estava iluminado como nunca. Lustres de cristal refletiam a luz em centenas de brilhos, e as mesas, cobertas por toalhas de linho branco, exibiam arranjos de rosas vermelhas que perfumavam o ar. Era a noite do Grande Baile da Cidade, um evento tradicional que reunia famílias antigas, comerciantes, políticos e curiosos.
Para muitos, era a ocasião perfeita para ostentar status. Para outros, uma oportunidade de se aproximar de quem importava. Mas, para Helena Duarte, era um mundo estranho.
— Não acredito que me convenceu a vir. — disse Helena a Carolina, enquanto subiam as escadarias do clube.
Carolina ajeitou o vestido azul-cobalto, que realçava seus olhos.
— Ora, Helena, é o evento do ano! Quem não aparece aqui, não existe em Vila Serena.
Helena, com um vestido simples de seda clara, contrastava com o luxo ao redor. Mesmo assim, chamava atenção pela naturalidade de sua beleza.
Ao entrarem no salão, os olhares se voltaram para elas. Alguns sussurros surgiram: “As irmãs da confeitaria.”; “Aquela é Helena, a que encantou Gabriel Monteiro.”
Helena tentou ignorar, mas o incômodo era visível.
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Gabriel chegou pouco depois, trajando um elegante smoking preto. Sua presença imponente encheu o ambiente, mas foi ao avistar Helena que seus olhos brilharam. Avançou pelo salão sem se importar com as etiquetas sociais.
— Você está deslumbrante. — disse ele, parando diante dela.
Helena corou.
— Eu não devia estar aqui… não pertenço a esse mundo.
— Pertence, sim. — respondeu Gabriel, firme. — Porque onde você está, eu pertenço também.
Carolina observava a cena, um misto de inveja e admiração.
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Mas a entrada que realmente mudou o ar da noite foi a de Beatriz Monteiro. A matriarca surgiu acompanhada de Rafael, ambos impecáveis. Seus passos eram calculados, cada gesto medido, como se lembrassem a todos quem ainda detinha o poder em Vila Serena.
Beatriz não demorou a notar Helena junto de Gabriel. Seus olhos endureceram, mas ela manteve o sorriso social. Aproximou-se do casal.
— Boa noite. — disse, fria. — Helena, não esperava vê-la aqui.
Helena manteve a compostura.
— Minha irmã insistiu.
Beatriz lançou um olhar rápido a Carolina, depois voltou-se para o filho.
— Gabriel, precisamos conversar.
— Agora não, mãe. — respondeu ele, segurando a mão de Helena. — Estou com ela.
A tensão entre os dois atraiu olhares curiosos. Mas antes que a situação se tornasse escandalosa, Rafael interveio com seu jeito encantador.
— Ora, ora… não vamos estragar a noite, não é? Helena, me concede esta dança?
Helena hesitou. Gabriel a olhou, aflito, mas ela acabou aceitando — talvez para evitar um confronto direto.
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No centro do salão, Rafael conduziu Helena com maestria. Dançava com firmeza, mas também com uma proximidade que a deixava desconfortável.
— Está linda esta noite. — murmurou ele, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
— Rafael, por favor…
— Não precisa se assustar. Só quero que entenda uma coisa: Gabriel não é o único Monteiro capaz de oferecer algo.
Helena o fitou, irritada.
— Você está brincando com sentimentos que não entende.
Rafael sorriu de canto.
— Pelo contrário. Entendo mais do que imagina. Principalmente sobre sua família.
Ela arregalou os olhos, mas antes que pudesse responder, a música terminou. Rafael fez uma reverência exagerada, atraindo aplausos do público. Gabriel, de longe, observava a cena com raiva contida.
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Enquanto isso, Carolina circulava pelo salão, aproveitando a oportunidade de se exibir. Muitos rapazes a cortejavam, mas ela mantinha os olhos em Rafael. Vira nele a chance de ascender socialmente, e estava disposta a lutar por esse lugar.
— Não se engane, Helena. — murmurou, quando encontrou a irmã sozinha por um instante. — O que Rafael procura não é você. É poder. E nisso, talvez eu seja a parceira ideal.
Helena a encarou, perplexa.
— Você não sabe no que está se metendo.
Carolina deu de ombros, sorrindo.
— Talvez eu saiba mais do que você imagina.
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O baile seguiu com discursos e brindes. O prefeito exaltou a união de Vila Serena, e Beatriz aproveitou o microfone para reafirmar a importância da tradição e das famílias que fundaram a cidade. Suas palavras, carregadas de orgulho, soavam como indiretas dirigidas a Helena.
Mas quando Gabriel pegou o microfone, quebrou a formalidade:
— Vila Serena é feita de tradições, sim. Mas também de novos sonhos. E esta noite, quero brindar não apenas ao passado, mas ao futuro.
Olhou diretamente para Helena enquanto dizia isso. O salão inteiro percebeu. Murmúrios ecoaram, e Beatriz fechou a expressão, furiosa.
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Mais tarde, já nos jardins iluminados por lanternas, Gabriel conseguiu finalmente ficar a sós com Helena.
— Sinto muito por tudo isso. — disse ele, segurando suas mãos. — Eu não deveria ter te exposto assim.
— Não, Gabriel… eu que não devia estar aqui. — respondeu ela, aflita. — Sua mãe tem razão: nossos mundos são diferentes.
Ele a encarou com intensidade.
— Eu não me importo. O que sinto por você é maior do que qualquer tradição.
Antes que Helena pudesse responder, Rafael surgiu, sorridente.
— Que cena bonita… mas cuidado, primo. Às vezes, o destino guarda surpresas que podem azedar até o mais doce dos romances.
Helena sentiu um calafrio. Gabriel avançou, irritado.
— O que você quer dizer com isso?
Rafael apenas sorriu e se afastou, deixando a dúvida no ar.
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De volta ao salão, Beatriz observava tudo da varanda superior. Ao lado dela, Padre Augusto surgira discretamente.
— O que teme, Beatriz? — perguntou ele, em tom baixo.
Ela apertou o leque nas mãos.
— Que a história se repita. Que os pecados do passado caiam sobre nossos filhos.
Padre Augusto suspirou.
— Talvez já seja tarde para impedir.
Beatriz manteve os olhos fixos em Gabriel e Helena, dançando juntos como se o mundo não existisse. Um amor nascia diante de todos — mas carregava nas sombras segredos que poderiam destruir famílias inteiras.
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No fim da noite, quando os fogos iluminaram o céu de Vila Serena, Helena olhou para Gabriel e sentiu-se dividida. O coração dizia para se entregar, mas a lembrança das palavras no caderno da mãe e as insinuações de Rafael pesavam em sua mente.
"Os Monteiro jamais poderão saber."
E agora, todos pareciam saber demais.