Entre a Doceira e a Matriarca

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📜 Capítulo 6 – Entre a Doceira e a Matriarca O sol da manhã filtrava-se pelas cortinas de renda da confeitaria Doce Encanto. O movimento ainda era tranquilo: alguns turistas curiosos e moradores fiéis enchiam as mesas, enquanto Helena organizava a vitrine com seus bolos recém-saídos do forno. O cheiro de baunilha e caramelo espalhava-se pelas ruas estreitas, chamando atenção de quem passava. Helena tentava manter a rotina, mas sua mente estava distante. Desde a noite anterior, quando Gabriel confessara que tudo parecia fazer sentido ao lado dela, seu coração estava em conflito. Um turbilhão de sentimentos a invadia: alegria, esperança, mas também medo. Carolina percebeu o ar distraído da irmã. — Está pensando nele, não é? — disse, apoiando-se no balcão. Helena não respondeu de imediato. Apenas ajeitou uma travessa de pão de mel e suspirou. — Ele é diferente, Carol. A irmã riu, sarcástica. — Diferente porque tem dinheiro, poder e um sobrenome que pode abrir qualquer porta. Não seja ingênua, Helena. Se Gabriel Monteiro te olha é porque você é novidade. — Não fale assim. — Helena a repreendeu, mas sua voz soou fraca. Carolina estreitou os olhos, avaliando a reação da irmã. — Pois eu digo: se você não sabe aproveitar, eu sei. Helena encarou-a, mas antes que pudesse responder, a campainha da porta soou. E o que viu a fez congelar: Beatriz Monteiro havia acabado de entrar na confeitaria. --- A matriarca estava impecável. Usava um tailleur cinza-perolado, colar de pérolas e luvas claras que combinavam com sua postura aristocrática. Seus olhos frios varreram o ambiente, e por um instante, todos os clientes pareceram encolher sob sua presença. Helena engoliu em seco. Nunca havia falado com Beatriz, embora a conhecesse de vista. A mulher sempre fora uma figura distante, quase inatingível, como uma estátua de mármore erguida acima dos simples mortais de Vila Serena. — Bom dia. — disse Beatriz, com uma voz firme que mais parecia um veredicto. — Gostaria de falar com a senhorita Helena Duarte. Helena limpou as mãos no avental e aproximou-se. — Sou eu. Em que posso ajudar? Beatriz analisou-a por alguns segundos, como quem examina uma obra de arte para decidir se é original ou falsificada. — Precisamos conversar. A sós. Carolina tentou intervir. — Posso ficar, se quiser. Beatriz lançou-lhe um olhar gelado que a fez recuar de imediato. — Prefiro falar apenas com a senhorita Helena. Helena conduziu a matriarca até uma mesa nos fundos. O silêncio da confeitaria era quase palpável; os clientes cochichavam, intrigados com a cena. — Não quero tomar muito do seu tempo. — começou Beatriz, retirando as luvas com elegância. — Vim porque acredito que é meu dever como mãe. Helena franziu o cenho. — Não entendo. — Entenderá. — Beatriz cruzou as mãos sobre a mesa. — Meu filho Gabriel tem frequentado este lugar com certa… assiduidade. — Ele é bem-vindo aqui, como qualquer cliente. — respondeu Helena, tentando manter a calma. Beatriz arqueou uma sobrancelha. — Helena, não vamos fingir ingenuidade. Gabriel não é qualquer cliente. É o herdeiro da família Monteiro, e seu destino já está traçado. Helena sentiu um aperto no peito, mas manteve a postura. — E quem decide o destino de um homem? — O sangue, o nome, a tradição. — disse Beatriz, sem titubear. — Meu filho tem responsabilidades que vão muito além de seus… devaneios sentimentais. Helena fitou-a com firmeza. — Se ele tem sentimentos, não são devaneios. Por um instante, o olhar de Beatriz vacilou, como se a firmeza da doceira tivesse lhe atingido em cheio. Mas logo retomou a frieza. — Escute bem, menina. Não se iluda. A proximidade de Gabriel com você não pode continuar. É melhor para todos. Helena respirou fundo. — Com todo respeito, dona Beatriz, eu não pedi a atenção de Gabriel. Mas também não vou enxotá-lo da minha vida só porque alguém acha que devo. Beatriz estreitou os olhos. — Você não faz ideia do que está arriscando. Helena se inclinou levemente sobre a mesa. — Então me explique. Um silêncio pesado caiu entre as duas. Beatriz abriu a boca para falar, mas se conteve. Em vez disso, levantou-se com elegância. — Apenas mantenha distância. Para o bem dele. Para o bem de vocês duas. E, sem esperar resposta, saiu da confeitaria, deixando atrás de si um rastro de perfume caro e tensão sufocante. --- Assim que Beatriz se foi, Carolina correu até a irmã. — O que ela queria? Helena suspirou, sentindo o corpo tremer. — Me alertar. Ou me ameaçar. Não sei ao certo. Carolina abriu um sorriso enviesado. — Isso só confirma o que eu disse. O que está em jogo aqui é grande demais para desperdiçarmos. — “Desperdiçarmos”? — Helena repetiu, irritada. — Isso não é um negócio, Carol. Estamos falando da vida das pessoas. A irmã deu de ombros. — Da vida, sim. Mas também da chance de mudar a nossa. Helena preferiu se calar. No fundo, sabia que a ambição de Carolina poderia ser perigosa. --- Na mansão, Beatriz entrou no escritório de Gabriel sem anunciar-se. Ele estava revisando alguns documentos, mas ao vê-la, franziu o cenho. — Mãe, já não combinamos que eu teria um pouco de privacidade? — Quando se trata da família, não há privacidade. — respondeu Beatriz, seca. — Estive na confeitaria das Duarte. Gabriel arregalou os olhos. — O quê? — Precisava ver com meus próprios olhos. E vi. Aquela moça é… obstinada. Mas também ingênua. — Helena não é ingênua. — disse Gabriel, firme. — É forte. Beatriz estreitou o olhar. — Exatamente por isso pode ser perigosa. Você não entende, Gabriel. Há coisas do passado que não podem ser trazidas à tona. — Que coisas? — ele a pressionou. Beatriz respirou fundo, mas desviou o olhar. — Apenas prometa que não vai se envolver com ela. Gabriel se levantou, encarando-a. — Já é tarde demais para isso. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som distante das ondas quebrando contra as pedras. Beatriz sentiu o coração apertar, mas não deixou transparecer. Apenas saiu, deixando o filho com a certeza de que estava entrando em uma guerra silenciosa. --- Naquela noite, Helena voltou a abrir o caderno de receitas da mãe. As anotações pareciam mais enigmáticas a cada página. Em uma delas, encontrou algo que nunca havia notado: uma frase quase apagada, escrita no rodapé. "Os Monteiro jamais poderão saber." Helena sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. O que aquilo significava? Enquanto refletia, ouviu uma batida suave no portão. Foi até a varanda e encontrou Gabriel ali, outra vez sob o luar. — Helena… preciso falar com você. Ela hesitou. — Sua mãe esteve aqui hoje. Ele fechou os olhos por um instante, como quem já esperava por aquilo. — Eu sei. E sei também que nada do que ela disse muda o que sinto. Helena apertou o caderno contra o peito. — Mas e se houver coisas que nem nós entendemos? Gabriel aproximou-se do portão, segurando-o com força. — Então vamos entender juntos. O vento soprou forte, fazendo as páginas do caderno se agitarem como asas de um pássaro prestes a voar. Helena o olhou nos olhos e percebeu que, apesar de todo o medo, estava disposta a arriscar. Porque, no fundo, sabia que o doce e o amargo daquele amor já estavam entrelaçados para sempre. E nada nem ninguém seria capaz de quebrar este laço que os manteria unidos para sempre.
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