Pré-visualização gratuita Capítulo: 1_ Talibã Pov
O sol batia forte nas lajes do Vidigal, deixando tudo dourado na favela que encarava de frente a riqueza do Rio de Janeiro. De onde eu estava, no topo do meu quartel-general, eu via tudo: o mar brilhando, os prédios de luxo na beira da praia e os becos subindo como veias entre as casas coloridas. Minha vista era de rei. Eu sou o Hugo, mas geral me conhece como Talibã — o dono dessa p***a toda.
Não importava se o meu trono era uma cadeira de plástico ou se a minha coroa era um boné virado para trás. O respeito e o medo estavam em cada beco. Faz três anos que meu pai, o Morte, caiu num tiroteio com a polícia. Desde então, virei o dono do Vidigal. Com vinte e dois anos e uma cicatriz nova na sobrancelha, assumi o controle sem medo, herdando o império e a mão pesada necessária para manter o que é nosso. Regras e guerra eram tudo o que eu conhecia. No jeito do meu pai, não tinha lugar para moleza.
E hoje, a falha tinha nome: Carlinhos, um aviãozinho novo que foi pego roubando parte do dinheiro da boca. O Charada me avisou pelo rádio de madrugada. Agora, o Carlinhos estava na pracinha esperando o julgamento, com um monte de gente em volta. Ele ia servir de exemplo para qualquer um que pensasse em vacilar no meu morro.
Desci os degraus de concreto devagar. O silêncio que se formava por onde eu passava dava mais medo que uma arma. Montei na moto e acelerei morro abaixo. De regata branca e short de tactel, eu parecia um morador comum, se não fosse a Glock na cintura e o bando de soldados armados me acompanhando.
Chegamos à praça. O moleque estava de joelhos, mãos amarradas e o rosto inchado de chorar. Ele olhava pedindo piedade, mas eu só via traição.
— E aí, Carlinhos? Achou que ninguém ia ver? — perguntei, sem dó.
— Não, Talibã, por favor! Foi só uma vez! Minha mãe tá doente, eu...
— Mentira — cortei, seco. — Sua mãe tá doente faz seis meses, e você rouba faz três. Eu sei de tudo, moleque. No meu morro, nada acontece sem eu ficar sabendo.
O povo em volta começou a cochichar. Ninguém tinha coragem de falar alto. O castigo para quem rouba do próprio bando era pesado. Fiz um sinal para um dos meus homens, que puxou o facão. O garoto gritou, desesperado, tentando fugir, mas o Charada segurou ele.
— A gente te dá a chance de trabalhar, Carlinhos — falei, ignorando os gritos dele e o choro das mulheres. — Te dá a chance de sustentar sua casa. E você sacaneia quem te ajuda.
Mandei o Charada começar o castigo: iam ser os dedos. Foi quando uma voz gritou no meio da praça:
— Para!
A multidão se abriu. Parada ali, contra o sol, estava minha irmã, Maria Liz. Cabelo preso, uniforme da padaria e o avental branco na cintura. Os olhos dela brilhavam de raiva enquanto olhava para mim. Senti um choque. Minha irmãzinha, a menina quieta que meu pai adotou anos atrás e que eu quase não via, estava ali me enfrentando na frente de todo mundo.
— Ele não fez por m*l, Hugo — disse ela, com a voz tremendo, mas firme. — A mãe dele está com câncer. Eu vi a receita médica. Ele só queria dinheiro para o remédio.
Olhei bem para ela. Fazia tempo que a gente não conversava de verdade. Talvez desde que o coroa morreu.
— Não se mete, Liz. Vai para casa — respondi baixo.
— Me meto sim! — ela deu um passo para frente. — Ele é só um menino! Você vai cortar os dedos dele por causa de uns trocados enquanto tem gente roubando milhões lá embaixo? Isso não é justiça, Hugo, é maldade!
Meus soldados se afastaram, tensos. Ninguém nunca tinha falado assim comigo. Senti o sangue subir; uma mistura de raiva com algo que eu não sabia explicar. Ela estava ali, bonita, com o rosto vermelho de indignação e o olhar fixo no meu.
Olhei para o Carlinhos, que tremia esperando o fim.
— Solta ele — ordenei.
Meus homens se olharam, sem entender, mas soltaram. Cheguei perto da Maria Liz, parando bem na frente dela. Tinha desafio nos olhos dela; nos meus, um aviso.
— Você deu sorte hoje, Carlinhos — avisei, sem tirar o olho da Liz. — Que não aconteça de novo. E você, irmãzinha... — fiz uma pausa. — A gente precisa conversar.
Ela não baixou a cabeça. Naquele momento, eu soube: as coisas tinham mudado. A menina que eu ignorei por anos era a única pessoa que eu não conseguia mandar. Mas não tinha problema. De um jeito ou de outro, eu ia dar um jeito de domar aquela fera.