A galinha dos ovos de ouro

1280 Palavras
  Detroit, 2002 Um pub esquecido chamado “The Stars”. O bar tinha paredes vermelhas. Algumas cabeças de alces duvidosas nas paredes. As mesas eram feitas com tampas de madeira envernizadas, acopladas a latões, e as cadeiras eram de plástico na cor preta. Havia um balcão de madeira que separava o ambiente do bar. Atrás desse balcão vermelho, havia garrafas com todos os tipos de bebidas alcoólicas numa estante e uma placa de neon azul com a palavra Bebidas. A iluminação era tênue, com lâmpadas de fiação precária e luz alaranjada, ligadas apenas enquanto limpavam, já que, à noite, havia um globo de luz. Mesas de bilhar num canto. A menina soltou um bufo de escárnio com os lábios enquanto escutava a entrevista, ao mesmo tempo em que limpava a mesa redonda de madeira pintada com verniz vermelho, tirando garrafas de cerveja e colocando-as na sua bacia grandiosa de recolher restos. Acabou arrebatando do ombro direito um pano alaranjado, molhado com desinfetante, e passando na mesa, assistindo à entrevista daquele astro de rock que usou a imagem do vampiro para se beneficiar e passar na televisão. O aparelho televisivo preto, quadrado e pesado, estava preso numa armação também preta, que mantinha o objeto tecnológico num lugar alto onde todos poderiam ver, e havia um pequeno espaço embaixo para o conversor de TV a cabo. O rapaz passava na MTV, no programa de Melinda Cook, The Night Stars. — Achei que mocinhas da sua idade gostavam desse cara, Dalilah. — provocou Sarah, que também limpava as mesas com ela. A mulher de s***s fartos e blusa branca decotada, sob o olhar de Dalilah em seu decote, acrescentou com humor, ruborizada: — Essa sua careta sempre que o vê ou quando toca algo da banda dele no bar é engraçada. Dalilah sorriu, desviando o olhar do decote da outra, e negou com a cabeça. Defendeu-se com a bacia repleta de garrafas, pratos e copos nas mãos: — Um vampiro, sério? Se ele é um, então sou uma bruxa. Eu realmente odeio a voz aguda desse cara e odeio o rosto dele. Nem sei a razão. Só não gosto. É lindo, mas sinto uma aversão profunda. Esse rosto é surreal de tão perfeito. Sarah sorriu. — Você deve admitir que as letras das canções são profundas — respondeu. A loira sondou Dalilah, recuando um pouco. Depois de avaliar a jovem, disse: — Mas você é uma garota de vinte e um anos que saiu de casa, largou a universidade e fugiu de Nashville. Uma que gosta de tocar country e mora no seu carro. Uma que entrou aqui pedindo para tocar música em troca de um prato de comida… você, dentre todas, não deveria entender o poder do rock e daquele cara que se diz extraordinário na vida das pessoas? Não acha que as pessoas precisam desse tipo de mistério sobrenatural? Dalilah suspirou em resignação silenciosa. Sim, era sempre menosprezada por ser de cidade pequena e por não gostar de Nikolas Raven, o vampiro líder da banda mais desejada do mundo. Dalilah mudou de assunto: — O show dessa noite… você tem algum pedido de música, Sarah? — quis saber, só porque queria impressioná-la. — Quero que toque a dele — provocou Sarah, maldosa. — Quero que toque “Ecos do Tempo”. Dalilah analisou a mulher, incrédula. Indignada, retrucou: — Qual parte do “não suporto esse cara” você não entendeu, meu bem? Sarah deu de ombros. — Eu te ajudei a conseguir esse emprego quando você era uma morta de fome, fedorenta e magrela. Quero saber como vai ficar aquele rock pesado na sua voz rouca, gutural, e no seu violão. Por favor, amiga. — Tá bom. Tá bom. Mas só porque te devo uma. O agente caçador de talentos tomou um profundo suspiro. Era em cada sarjeta que tinha que se enfiar para encontrar alguma galinha dos ovos de ouro, e a gravadora precisava agora de uma voz feminina. Quer dizer, Nikolas queria uma voz feminina poderosa para fazer dueto com a dele. Nenhuma das cantoras atuais e famosas era boa o suficiente. Ele exigiu uma desconhecida, cuja fama ainda não a tivesse feito se drogar e se tornar tudo, menos artista. Suspirou. Seu contato lhe falara de uma moça mais ou menos que tocava country toda noite no pub decadente The Stars e se vestia como uma garotinha do interior. Ele, Winston Smith, um cara que trabalhava com Nikolas Raven, tendo que se submeter à classe inferior. Quando entrou no bar, a garota de vestido florido e botas marrons inconfundíveis estava no pequeno palco, com o violão e o microfone. Ela era muito bonita. Impressionado, percebeu que havia um som bom mesmo na decadência. Agora ele entendia quem dizia que era preciso enfiar a mão na lama às vezes para achar ouro. O show já havia começado e havia umas cinquenta pessoas encantadas com a menina e seu violão simples que fazia mágica. Winston reconheceria, mais tarde, a canção que ajudou a lançar da banda Sangria, numa versão bem mais calma e com a voz gutural da cantora, ao contrário da aguda e angelical de Raven. Duas vozes que se complementavam, mas eram opostas como fogo e gelo. A garota desconhecida no palco soltou um suspiro que ecoou no microfone e disse: — Essa música não é minha, mas uma amiga a pediu. Então vou cantar. “Ecos do Tempo”, da banda Sangria. Mas, pessoal… óbvio que numa versão bem mais leve, porque somos só eu e o meu pobre violão. — Brincou a moça. Todos riram em concordância, numa espécie de permissão ao cover. O violão começou melódico, mas com um arranjo mais calmo. Depois, a voz com a letra: Estou nessa era, parado no tempo, depois de um oceano de distância de onde minha vida começou. Sou um grito que o tempo levou, ecos que esse mesmo grito se tornou, ecos que esse mesmo grito se tornou. Várias versões minhas ao longo do caminho, mas só minha mente amadureceu e mudou. Nesse corpo inalterado de estátua animada que resiste ao tempo, sendo um contratempo. Eu sou o que sou. E o que eu sou? Sou nada, sou tudo, sou começo, meio, fim… o enfim que nunca tem fim… Mas minha tormenta final é que não sei mais onde estou. Porque não há mais morte, não tenho mais qualquer sorte. Tudo ao meu redor, o tempo com seu vento maléfico levou. Ondas de escuridão me tragando por noites infinitas. Estou buscando os agora ecos de algo que uma vez meu coração gritou que sonhou. Quem sou eu nessa vida, mesmo com todos esses gritos de clamor? Vocês agora gritam meu nome e aplacam meu temor. O esquecimento é o meu maior medo: morrer sem conhecer o que é o amor. Uma vez um grito forte, agora um mero eco que luta contra o tempo. Sou ecos do tempo. Sou ecos do tempo. Sou ecos do tempo. (Banda Sangria, faixa doze, álbum: Sangue dos Inocentes.) Winston estava sem palavras. Olhou para seu contato, atônito. — Te disse que era boa, cara — falou Jason, bebendo um whisky e rindo, provavelmente já bêbado, apontando com o dedo indicador da mão que segurava o copo redondo para a jovem no palco à frente deles. — O melhor: ela é novinha, bem influenciável. Você pode moldá-la como quiser. Ela toca country, mas pode mudar para o rock que está fazendo sucesso. — Eu vou falar com ela — avisou Winston a Jason, dando afagos de aprovação no ombro dele. — Vou apresentá-la ao Raven. A palavra final é dele. Mas você fez um ótimo trabalho.
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