Dalilah colocou o violão benzido por sua avó, e que pertenceu a sua ancestral, de novo na capa.
Fechava o zíper cuidadosamente, escondendo o violão e o protegendo... quando, com a sobrancelha preta arqueada, analisou o bonito homem loiro, de meia-idade, se aproximando. O avaliou com estranhamento, semicerrando os olhos.
— Você fez um bom trabalho na música do Raven — elogiou Winston, sincero.
Dalilah abriu um sorriso debochado.
— Achei que a música era da banda Sangria. Mas vocês só falam do Nikolas Raven, como se ele fosse o único na maldita banda. Se é tudo tão focado nele, talvez devesse seguir carreira solo — pontuou, arisca. — Mesmo eu, que não gosto… sei que ainda há o baixista Ian, a guitarrista Diana, o baterista Dom e o tecladista Joshua. Se é uma banda, não tem por que falar só sobre Raven, mas sim Sangria.
Winston percebeu que, apesar de parecer ingênua, ela tinha um gênio artístico difícil.
— Foi só um modo de falar. O Raven é quem compõe as músicas da banda, então, tecnicamente, a música é dele. Você está agenciada por alguém, senhorita…? — sondou Winston, procurando com os olhos algum responsável.
— Sou a senhorita Blackwood. Estou por minha conta. Trabalho no bar. — respondeu ela, defensiva. — Vaza agora. Não sou uma garotinha ingênua.
— Não, não, você entendeu errado. Não estou aqui para esse tipo de coisa… — Winston parou de se defender e mirou a jovem de olhos verdes bonitos e cabelo escuro longo. As roupas certinhas, do vestido às botas marrons. Ela tinha mesmo o jeito de boa moça, mas a personalidade era muito forte. — Quer saber de uma coisa…
Ele tirou o cartão da gravadora Faust Music do bolso e mostrou a ela, querendo impressionar. Ela o pegou, avaliativa e defensiva, passando o cartão preto com o nome Winston nos dedos, sentindo o relevo do nome da gravadora Faust Music e o número de contato 555 0123.
— Eu trabalho com eles. Sou um caça-talentos. Pareceu um sinal do universo você tocar a música do Sangria hoje. Sua voz é bem rouca para uma voz feminina. Casaria perfeitamente com a do vocalista do Sangria.
— Claro. Ele tem a voz de mulher — debochou Dalilah, sincera. — Se bem que os gritos dele nas músicas são até bons e passam sentimento. — Ela deu o braço a torcer, pensativa. Devolveu o cartão a Winston. — Dou ao maldito esse mérito. Olha, eu estou cansada e não estou com vontade de ser enganada por hoje… preciso beber água quente, descansar minha voz, afinar meu violão e etc. Se me der licença, meu senhor…
Ela passou a alça da capa do violão no ombro e ia sair do camarim improvisado, que era um armário de vassouras.
— Se encontre comigo e com Raven aqui amanhã à noite e vai ver que falo a verdade — pediu Winston, inquieto, apoiando-se na porta e travando o caminho dela. — Toque essa música dele de novo, para ele avaliar você. Essa pode ser sua chance de mudar de vida. Você deve ter um motivo para estar aqui. Deve ser seu sonho.
— Eu não costumo tocar rock, mas… esteja aqui amanhã então — cedeu Dalilah, mas firme. — Traga aquele famoso que você diz conhecer. Se for verdade, eu irei repensar na sua proposta. Mas, por agora, é não — respondeu ela, irredutível, e devolveu o cartão elegante dele. — Por agora você é só um estranho, vendendo promessas vazias. Passar bem!
Ela o empurrou da porta e abriu caminho.
.......,
Quando Winston apareceu esbaforido em sua casa, Nikolas estranhou.
Nikolas avaliou o homem. Winston, que o temia e sabia que odiava que invadissem seu espaço, não viria ao seu covil por um motivo fútil. Apertou o botão, e o portão de metal se abriu.
Avaliou pela câmera o homem fazendo o caminho até a área da piscina, cuja porta de correr estava aberta para sentir a brisa de sua amante eterna, que era a noite.
— Achei sua cantora. A voz dela é rouca e complementaria os agudos da sua. Ela tem uma potência vocal assustadora, mas completamente oposta à sua. E o melhor: não é uma tiete da banda. Ela parece até não gostar de vocês.
— Ela não é famosa, é? — sondou Raven, parando de tocar a guitarra, que não estava ligada a nada, mas a audição poderosa dele captava a vibração das cordas.
Nikolas estava sentado num elegante sofá preto, usando um roupão de seda vermelho antigo. Os pés descalços contra o assoalho cinza de sua mansão. A porta de correr de vidro dava para uma área com piscina. Aquela era só uma casa temporária. A dele verdadeira parecia um castelo.
— Ela não é. Mas é um achado. Tive que revirar o lixo atrás do ouro, mas a garota é perfeita, Raven — Winston falou, empolgado.
Nikolas arqueou a sobrancelha e deu um risinho c***l.
— Não sei… você tem me irritado ultimamente. O sangue que você conseguiu da última vez estava repleto de drogas — suspirou Raven, sombrio e sinistro, intimidando o homem de meia-idade com sua altura. — Tive que dar meu jeito. Tem um homem desacordado no meu quarto. De manhã, o ajude. A roupa dele está na lavanderia. Lhe dê suas roupas, um bom café da manhã e o dispense.
Winston analisou Raven, incrédulo. O deus da nação, se deitando com homens.
— Cara, sei que o que você faz não é da minha conta. Mas, se um paparazzi te segue e descobre que você fica com homens… o que acha que vão sair nos tabloides? Você não pode se manter só com as mulheres?
— Você tem razão, o que faço não é da sua conta — respondeu Nikolas, sombrio, e respirou fundo. — Quanto à sua garota, eu vou te dar mais um voto de confiança e irei vê-la. Mas, se ela não for boa como diz, você está demitido, Winston.
....
Na noite seguinte, de capuz e óculos escuros, Raven se viu naquele bar decadente. Analisou, estático, a jovem com o violão antigo e marrom, que era uma relíquia com a qual ele presenteou Miranda Blackwood, uma bruxa que amou há 200 anos.
Ele respirou fundo, atordoado. Mas aquela jovem não podia ser quem ele pensava. Ela tinha um cheiro diferente. Leves diferenças físicas de Miranda. O cabelo mais escuro. Os olhos mais esverdeados que azuis. Mas os traços do rosto e do corpo eram os mesmos.
O olhar da jovem linda, que assombrava Raven pela aparência de alguém que amou e odiou, se encontrou com o de Winston.
Winston a fez um aceno nervoso com os dedos, como se chamasse uma garçonete. A jovem, de botas de cowboy pretas e um vestido vermelho com jaqueta, foi à mesa deles à distância.
Mas ela foi discreta quando analisou o jovem famoso e se sentou com eles. Ela apenas se sentou com eles, sob o olhar indagativo de Sarah e de seu chefe Luke. Fez um aceno com o polegar, de joinha, como se dissesse aos seus amigos que “está tudo bem”.
— Vi que o que disse era verdade — falou a menina com Winston.
Dalilah calmamente mirou Nikolas, que se mantinha quieto, a analisando profundamente, assombrado por trás dos óculos escuros.
Dalilah suspirou.
— Qual das suas músicas você quer que eu toque, voz e violão, cara? Ouvi dizer que é você que as escreve… qual você quer…? — perguntou, brutal.
— Luar sangrento — respondeu Raven, de imediato.
Dalilah arqueou a sobrancelha, mas assentiu, desistente, num suspiro.
— Essa é bem sombria. Pelo que entendi, fala do primeiro assassinato do seu personagem vampiresco. A lua branca que se torna rubra pelo sangue. Mas tudo bem — respondeu Dalilah.
Raven, por detrás das lentes dos óculos escuros, nem piscava, estudando a jovem e o violão dela.
— Onde conseguiu esse violão? — a perguntou antes de mais nada.
— Herança de família. Era da minha tataravó — respondeu, orgulhosa e acariciando a madeira. — Minha vó que me deu. Disse que eu era como nossa ancestral Miranda. Ela fugiu de casa, como eu, para viver seu sonho de ser cantora.
Raven apenas analisou a menina, grato por estar de óculos escuros, mesmo à noite, porque a jovenzinha não veria sua reação.
— Entendi. Você deve começar o seu show agora. Seus fãs estão te esperando — Niko a deu a deixa.