Dalilah se posicionou no palco. Em pé, fitou a plateia de 25 pessoas. Não era uma multidão que lotava estádios como o Sangria, mas estavam ali para vê-la, e tudo bem se sentir feliz com isso. Havia um banquinho no palco para sentar-se quando precisasse, mas ela só o usava quando se cansava.
— Hoje, eu vou apropriar-me de mais uma das músicas da banda Sangria. Esta é de quando Nikolas Raven, que se diz um vampiro, comete o seu primeiro assassinato. Luar Sangrento. O arranjo vai ter que mudar um pouco, pessoal; vai ficar mais triste e sombria do que o de quando vocês ouvem na rádio, porque é diferente quando se toca no violão. Mas espero que gostem do cover.
Todos bateram palmas.
Alguém comentou:
— As músicas dele ficam melhores mesmo na sua voz.
A menina sorriu, mas ficou acanhada pelo elogio quando sabia que o dono da canção estava presente no ambiente. Começou com as notas do violão, dedilhando as cordas numa melodia triste, já que não tinha o peso da guitarra elétrica, da bateria e do teclado disfarçando a quase marcha fúnebre, só o microfone e o violão. A música, sem a agressividade da guitarra, tinha um arranjo repleto de dor e tons de luto; era um réquiem puro.
Então ela começou a triste letra com a voz rouca e poderosa.
🎵 LUAR SANGRENTO – SANGRIA
🎼 Verso 1
O que antes brilhava como prata agora revela a mácula do inocente.
Assim, minha lua se tornou de sangue para sempre.
Agora, oficialmente caminho entre os condenados.
À minha volta, só há sangue escoando dos corpos drenados.
.
A minha consciência e a minha fome se despedaçam num ringue.
Contudo, sou masoquista; estou feliz que a minha consciência sempre me vingue.
Porque quando a fome ganhou e a minha pureza se foi,
Um deus macabro interno mandou um sádico oi!
🎼 Verso 2
Eu fiz o impensável e brinquei de deus da morte,
Fiz do que é condenável meu eterno consorte.
A sede infinita queima em minhas veias
Enquanto os humanos, inocentes ao que sou me idolatram em plateias.
🎤 Refrão
Vazio, vazio, vazio.
Eterno frio, frio, frio.
Eu, sob o luar prateado,
Sob testemunha de um luar sangrento,
Acabei destruindo qualquer sacramento.
🎼 Verso 3
Sou a raposa no galinheiro,
O leão que caminha entre as ovelhas,
O lobo em pele de cordeiro.
Um Mr. Hyde sem Dr. Jekyll, seu freio.
Dalilah terminou de cantar. Analisou a mesa onde estavam os dois homens. Só viu o Winston lá. Claro que o maldito do Nikolas Raven ia se ofender com sua versão. Ela parou de tocar, ofendida e magoada; seu ego foi pisoteado. Todos a estudavam, boquiabertos.
— Ficou ainda mais bonita e sombria na sua voz — Raven observou; estava parado atrás dela como uma assombração.
O capuz abaixado, sem óculos escuros e com roupas menos sensuais do que as de couro dos clipes. A pele dele reluzia de forma surreal, como se absorvesse luz, mas as luzes estavam apagadas e só havia o globo de luz, simples. Era como um papel inteiramente branco no escuro. Agora Dalilah entendeu por que todos a olhavam boquiabertos: miravam, na verdade, Nikolas Raven no palco atrás dela.
A menina gelou e o estudou.
Nikolas foi para o palco, reivindicando-a de vez para si. A queria perto. A queria para sempre. A prenderia como não conseguiu fazer com Miranda. A encheria de luxos, prazer e a doparia de toda a fama do mundo para mantê-la com ele. Ele não poderia ignorar um chamado do destino. Como ele poderia ignorar a maldita bruxa que voltou para assombrá-lo?
Então Niko se pronunciou.
— Senhoras e senhores, apresento a vocês a segunda vocalista da banda Sangria, Dalilah Blackwood. Como podem ver, como alguém aqui tão bem pontuou, minhas músicas ficam ainda melhores na voz poderosa dela — disse Nikolas alto, mas estranhamente sem precisar de microfone.
Ele conseguia controlar como a voz dele ecoaria: a altura, o timbre e tudo isso. Dalilah notou que a voz dele ecoou como se estivesse usando o microfone, assustada.
Sarah analisou Dalilah, estática, mas feliz por aquela chance em um milhão. Luke, o chefe da jovem, também não conseguia acreditar naquela mudança de vida súbita. Ora, Dalilah ainda morava no estacionamento do bar, no carro, e tomava banho no bar.
Dalilah analisou Raven no palco com ela, incrédula, que ele a aceitou. Tinha tantas cantoras melhores; por que logo ela, uma caipira? Começou uma chuva de flashes de uma câmera Polaroid simples que alguém possuía e, com certeza, venderia as fotos para o jornal depois. Raven analisou a jovem, que o estudava com uma expressão contrariada.
Niko soube que ela ia contestar, por reconhecer o espírito livre de Miranda que ela tinha. Então, se aproximou de Dalilah antes e a abraçou, incapaz de deixar aquela moça ir e fugir.
— Se você aceitar, eu vou te dar o mundo. Eu juro. Tudo o que você desejar será seu. Você pode seguir carreira solo além da banda também, meu lindo passarinho — começou a falar ele, no ouvido dela, tocando o ombro dela com a i********e de um amante. Num tom baixo que só ela escutaria, a voz apelativa e ronronante dele a arrepiou todinha. Aproximou o rosto do pescoço da jovem. — Seja minha, Miranda…
— Sua? Miranda? — disse a moça, afastando o rosto do ombro dele, ofendida, mas com os olhos nos dele como se enfeitiçada. Dalilah sentia um terrível déjà vu. — Meu nome é Dalilah — o corrigiu.
Nikolas reformulou ao notar que ela era jovem demais ainda. Podia esperar, mesmo que só a quisesse despir, beber do sangue dela para seu m****o morto ganhar vida e se enfiar dentro dela como fazia com Miranda, a única que conseguiu esquentá-lo sem precisar beber do sangue dela. Mas, por agora, só a queria perto; ela ainda era muito nova.
— Seja minha cantora e segunda voz, Dalilah. A sua voz é de contralto, não é? Você cantava na igreja dos protestantes antes, eu aposto. As melhores vozes sempre são lapidadas na igreja batista primeiro, e a sua parece ter anos de experiência. A minha voz é tenor; eu cantava num coral da católica, e eles queriam que soasse com a suavidade dos anjos. A ironia é que agora sou um anjo caído. Sua voz tem tudo o que falta na minha, querida — explicou; acariciou o bonito cabelo dela e, com a testa na dela, cheirou o pescoço dela.
— Como sabe da igreja? — falou ela, desconfiada.
Niko sorriu.
— Um vocal como o seu não acontece da noite para o dia, por mais que tenha dom. É preciso estudo e aperfeiçoamento. Você transforma o decadente em ouro — respondeu ele.
Ele estremeceu inteiro, sentindo o poder espiritual dela. Uma bruxa que aquecia o frio de um vampiro. Queria mordê-la e roubar o calor e o fogo do sangue dela. Bruxas com seu sangue quente eram as únicas que poderiam aquecer por semanas o frio de um vampiro. Mas ela não parecia saber o que era.
Winston analisou Raven, atordoado. Achou que ele só ficava com as mulheres de meia-idade. Sempre estranhou o gosto dele pelas mais velhas.
Nikolas a tocava nos pulsos, nos ombros, no rosto e onde conseguia pele, querendo calor sem ter que matar. Dalilah, mesmo traumatizada com homens, queria — ou melhor, ansiava — o toque dele. Parecia inevitável, como ímãs de trações negativas que se atraem.
Dalilah o analisou; ela corou ao notar que, mesmo odiando ser tocada, gostava do toque dele, como se o reflexo natural de seu corpo fosse se deixar ser tocado por ele.
Sentiu o toque dos lábios gélidos dele em sua bochecha, audaciosamente perto de seus lábios, e permitiu, mesmo que odiasse homens. Os olhos escuros dele nos verdes dela. Ela sentiu o ar faltar. Só havia se sentido estranha assim com as garotas, depois que Caleb, seu antigo namorado, a estuprou. Gostava de t*****r com garotas. Nunca houve um cara que a deixasse com aquela sensação de borboletas no estômago depois do abuso do filho do pastor. Ela achava que virou lésbica depois do aborto do bebê que seria fruto do pior momento da vida dela. Foi por isso que fugiu de casa.
Era uma assassina. Matou uma criatura inocente. Mas como poderia conceber o fruto de um estupro? Então, depois do trauma, ela começou a ficar só com as garotas que sempre a atraíam mais do que homens. Apesar de, vez ou outra, também se sentir atraída por homens, não ia em frente com eles depois de Caleb.
Estava também confusa que sentisse algo por aquele cara que dizia odiar. Não era como se odiá-lo fosse para tentar chamar a atenção dele. Aonde ela sequer pensaria que seus caminhos iriam se encontrar? Só que, toda vez que via o rosto dele na televisão, sentia um rancor enorme. Um ódio gigantesco. Uma raiva doentia. Mas, quando ele ficava perto assim, a adulando, elogiando e a prometendo coisas que ela sabia que ele tinha como cumprir, essa raiva doentia sumia, e queria beijá-lo e fazer o que antes era impensável: t*****r com um homem.
Seu corpo parecia reconhecer o dele.
— Raven, a gente tem que ir, cara. Vai encher de gente aqui daqui a pouco, quando a notícia se espalhar do vocalista do Sangria num bar… — chamou Winston.
— Você vai vir comigo? — perguntou Raven, tocando o rosto dela com a palma da mão, acariciando com o polegar, incapaz de deixar a menina com o rosto da v***a que o destruiu para trás.
— Vou, mas eu preciso arrumar algumas coisas primeiro e me despedir daqueles que me abrigaram quando eu não tinha nada — falou Dalilah. — Aliás, tenho uma amiga que é sua fã. Você pode dar um autógrafo para ela?
Nikolas sorriu abertamente, esquecendo seu ódio contra Miranda ao notar o quanto a duplicata era menos egoísta.
— Claro. Posso sim.