Capítulo 1

1378 Palavras
TRÊS MESES ANTES... As favelas da zona sul do Rio de Janeiro sempre viveu como em todo país o contraste da desigualdade social. No morro Olho de Boi havia casas boas, amplas e localizadas próximas ao forte comércio que existia dentro da favela. Onde moravam pessoas com uma condição financeira razoável, que poderiam morar em um lugar menos dominado pelo poder paralelo, mas não o faziam. Favelado esnobe, tinha orgulho em morar na zona sul, em ostentar roupa de marca e montar sua casa com eletrônicos de última geração. No morro tinha facilidade em se obter tudo de maneira inadequada, pagando pouco ou às vezes nada, dependia da harmonia do El Diablo, o chefe da maior quadrilha de roubos de carga do Rio de Janeiro. De forma contrária, uma boa parte dos moradores do morro residiam em casebres feitos de madeira, viviam de xepa e da caridade alheia para poderem se alimentar. Cecília, companheira de El Diablo, era uma mulher submissa do interior e analfabeta. Amava os "homens de sua vida", como a própria dizia. Tinha uma adoração pelo seu companheiro, já que El Diablo a salvou dos maus tratos e abusos do pai e irmão. Ela acreditava que El Diablo bateu em seus algozes e os expulsou do pequeno rancho, herança de sua mãe no qual eles viviam. O que Cecília não tinha ideia, era que, na verdade, El Diablo torturou, matou, esquartejou e enterrou seu pai e irmão no próprio rancho dela. Cecília o via como herói, um tipo de Robin Hood, aceitava tudo o que ele dizia, como se recebesse uma ordem divina, mas existia alguém que ela amava mais do que ao El Diablo, seu filho Gabriel. Gabriel, um menino de dez anos, filho de El Diablo e Cecília, era uma mistura da inteligência do pai com a submissão e timidez da mãe. Raramente o menino se enturmava, todo tempo era ele e os livros. Seu pai o enchia de brinquedos caros de última geração, fruto de roubo. Mas nada disso interessava ao Gabriel, ele gostava mesmo era de ir a escola onde estudava em tempo integral, o Brizolão no qual cursava a quarta série do primeiro grau. No intervalo do almoço, que era de uma hora, comia rápido para poder sobrar mais tempo para ler na biblioteca. Sempre quando Gabriel chegava à biblioteca, encontrava sua doce professora Larissa estudando, ela cursava Biomedicina na UFRJ. Gabriel sentava ao lado de Larissa em silêncio para não atrapalhar os estudos, e por muitas vezes, lia os livros da professora. Ela, por sua vez, achava engraçado, pois Gabriel lia livros de Biomedicina com uma postura séria como se estivesse entendendo o que ali estava escrito. Essa era a rotina de segunda à sexta. Um dia qualquer, Gabriel se sentou como sempre ao lado de Larissa. O menino ficou meio ressabiado, pois toda vez que sentava junto à professora na biblioteca, Larissa esboçava um meio sorriso, porém, dessa vez, ela m*l o olhou. A professora havia ido tão m*l na prova de biofísica, que estava praticamente reprovada, seu docente da matéria passou um trabalho para que ao menos Larissa tivesse como fazer a avaliação suplementar com chances de aprovação. Gabriel viu sua apreensão e se preocupou. — Tudo bem, tia Larissa? — Gabriel perguntou com sua voz baixa e seu jeito tímido. — Sim, Gabriel. Só preciso do seu rotineiro silêncio, pois a tia aqui também estuda e tem que resolver esses problemas super difíceis, senão, como vocês dizem, eu não vou passar de ano. — disse Larissa em tom amável, porém, preocupado. — Tudo bem, vou ficar aqui calado. Gabriel aproximou mais sua cadeira para perto de Larissa, pegou um lápis e umas folhas de ofício que ficavam na mesa principal da biblioteca para rascunho, e começou a escrever. Larissa observou de forma rápida, e pensou que Gabriel estivesse desenhando. O tempo foi passando e faltavam apenas dez minutos para o término do intervalo. E a professora que olhava toda hora para o relógio fez um muxoxo e pensou em voz alta com a face preocupada e as mãos apoiadas na mesa. — Vou ter que pedir para sair mais cedo, e passar na casa da Andressa, ela também tirou nota baixa como toda a turma, mas foi melhor que eu. — Não precisa. — disse Gabriel, se metendo nos pensamentos de Larissa. — Que?! — perguntou Larissa, franzindo o cenho. — É que eu fiz o dever da senhora. — respondeu Gabriel com total desconforto. — Ai, obrigada! — disse com a mão no coração, achando o ato de seu aluno uma fofura — Só meus alunos para me tirarem dessa tensão. Que fofo! Bom, a tia vai guardar o trabalho que você fez e, quando me formar, irei mostrar com orgulho como um aluno aplicado como você — ela tocou o nariz de Gabriel com a ponta do dedo — Pode me motivar a seguir quando penso em desistir. — relatou com um sorriso doce no rosto. — Eu não fiz os dez exercícios, só dois que a senhora errou, que foram os exercícios número três e o sete — Larissa olhou para o Antonne com uma expressão espantada — Justifiquei as respostas, assim a senhora irá saber porquê errou. Larissa pegou o papel das mãos de Gabriel, ainda não acreditando que aquele menino pudesse ter feito seus exercícios de biofisica, a matéria que deixou toda turma de biomedicina de cabelo em pé. Totalmente descrente, a professora começou a ler, à medida que ela viu os cálculos organizados de forma perfeita e a justificativa coerente, Larissa ficou boquiaberta. A sineta tocou e ela meio chocada, disse: — Vamos para o mundo real, mocinho. Hora da aula. Se é que tenho algo ainda a lhe ensinar. — Gabriel deu um sorriso acanhado e obedeceu. [...] Alguns dias se passaram e o docente de biofísica entregou o trabalho no qual a Larissa gabaritou, e todas as perguntas que ficaram martelando em sua cabeça nesses últimos dias, começaram a ter respostas. Gabriel não era só um menino estudioso que tirava sempre dez em uma escola de ensino fraco. O garoto era um gênio autodidata. E pensou: "O que esse menino está fazendo ali perdido naquela escola?!" Como uma boa mestra, Larissa pensou que tinha que guiá-lo para um caminho mais adequado. Gabriel era muito maior do que aquela escola. Na escola, tocou a sineta da parada para o almoço. Larissa almoçou e foi até a biblioteca procurar o Gabriel. — Olá! Cheguei atrasada hoje para o nosso encontro de estudos. — falou sorrindo. — Cadê seu material, tia? Não vai estudar hoje? — curioso, perguntou o Gabriel. — Hoje não. Hoje eu vim aqui só para a gente conversar. — Eu fiz algo errado? — Não. Ao contrário. Primeiro quero lhe agradecer, graças a você eu tirei dez no trabalho. — Uffa! É isso? Fico muito feliz. — disse aliviado e sorridente. — Que bom vê-lo sorrir. Devia largar essa timidez e sorrir mais. Bom, quero te fazer umas perguntas, tudo bem? — Sim. — respondeu rápido e preciso. — Seu pai trabalha? E se trabalha, é com o quê? — Sim, trabalha — Gabriel pensou, e sem olhar Larissa, respondeu timidamente — Meu pai é caminhoneiro. Larissa pôs o dedo indicador sobre os lábios e perguntou novamente: — E a sua mãe, o que ela faz? — Minha mãe não trabalha na rua, somente cuida da casa. — Mas você sabe dizer se ela tem uma profissão? — A senhora quer saber da onde veio minha inteligência. Mas minha mãe não sabe nem ler e escrever. — Gabriel, não gostaria de ir para uma escola cheia de recursos, laboratórios e com um ensino que irá cobrar mais de você? — perguntou de forma altruísta. — Claro que sim. — respondeu empolgado e sorrindo. — Então, quando chegar em casa, diz aos seus pais que quero vê-los amanhã aqui, para eu conversar com eles. — Tá legal! Todo empolgado, Gabriel chegou em casa e falou com os pais. El Diablo fez cara de poucos amigos, e ditador, decidiu que só ele iria falar com a professora. Cecília não sabia do que se tratava, mas mesmo assim ficou contente, pois há muito tempo não via Gabriel tão feliz.
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