Capítulo 2

1052 Palavras
Na manhã do dia seguinte, Gabriel desceu do Dedo de Deus com seu pai para o Brizolão. O Dedo Deus era a parte mais alta do morro Olho de Boi, a casa de El Diablo, era sempre motivo de cobiça quando mudava a gerência do tráfico, onde se tinha a visão gestáltica da favela. El Diablo chegou à escola e Larissa o levou para uma sala reservada. A professora foi até uma pasta em cima da mesa, pegou o seu trabalho de biofísica, entregou nas mãos de El Diablo e começou a falar. — Senhor José, sei que não está entendendo nada do que está aí escrito, e nem a situação. Irei explicar. — Não estou mesmo. — respondeu secamente. Larissa começou a contar a mágica história que se formou em torno do seu trabalho de faculdade. El Diablo a olhava com cara de paisagem, com desdém até o momento em que ela disse: — Já pensou que maravilhoso? O seu filho pode ir para um colégio militar, quando se formar já ingressar como tenente, com a cabeça que ele tem o céu é o li... — El Diablo a interrompeu de maneira brusca. — Para, para, para... A professorinha está com o miolo mole? Perdeu o juízo? — Não. O Gabriel é capaz de passar para qualquer escola. O senhor pode confiar. — Disso eu não tenho a menor dúvida, ele é meu filho. Gabriel pode tudo. — Desculpe. Eu é que não estou compreendendo o senhor. Pensei que achasse que ele não fosse capaz, até me chamou de miolo mole. — Claro, a professorinha vem com a ideia louca de fazer do meu filho — ele bateu no peito com honra e propriedade — De fazer do Gabriel um verme. Larissa ergueu uma das sobrancelhas e engoliu em seco. Estupefata pelo o que acabara de ouvir, ela ainda argumentou. — Existem colégios federais sem ser os de regime militar, que podem dar um ensino mais qualificado ao Gabriel. — El Diablo riu, mas seu sorriso era de impaciência. O bandido esfregou a mão na barba, coçou o pescoço e retrucou. — Larissa! Larissa é o seu nome, não é isso? — El Diablo perguntou empafioso. Larissa fez sinal de positivo com a cabeça — A senhora não está me entendendo. O meu filho, o Gabriel, não irá para escola alguma diferente, ele continuará aqui nesse Brizolão. — Mas aqui não tem o ensino de qualidade que ele pode ter nas outras. — Dona Larissa — nesse momento, El Diablo já estava alterado, elevando a voz — O homem só precisa ler, escrever, somar e diminuir, o resto é tudo enrolação. — Senhor José, pais devem sempre querer o melhor para os filhos. Mesmo que tudo seja contra, tentar traçar o melhor futuro para suas proles. — Dona Larissa, o destino do Gabriel já estava traçado antes de chegar à barriga da minha mulher. Ele vai ser caminhoneiro como eu. — Eu não sabia que o senhor era pai do Gabriel, mas conheço o senhor, e nós dois e toda a favela sabemos que o senhor não é somente um caminhoneiro. A conversa já havia tomado um rumo caloroso, mas Larissa passou um pouco dos limites. El Diablo era feito uma fera, quando se sentia coagido, ele atacava. — Que bom, professorinha! Agora você facilitou as coisas. Se sabe quem sou eu, sabe também do que sou capaz — El Diablo enfiou o dedo na cara de Larissa e exigiu — Você vai tirar essas ideias de merda que pôs na sua cabeça e na do meu filho. Se essa história continuar a ter perna, pessoalmente tiro da cabeça dos dois. Da cabeça do Gabriel tiro na porrada. E a sua, eu arranco, assim você vai aprender que Deus deu uma vida para cada um cuidar da sua. El Diablo saiu e bateu à porta. Larissa ficou lá parada e pensou de forma decidida: "Você não vai me intimidar, tem um filho que é um tesouro em todos os aspectos e quer fazer dele um lixo. Não vou deixar, não vou mesmo." Larissa voltou para sala e disse a Gabriel que o pai dele estava um pouco relutante, mas que com jeitinho iria acabar cedendo. Gabriel achou isso estranho, o menino conhecia o pai, sabia que para o El Diablo só existiam duas respostas, sim ou não. Quando a aula acabou, El Diablo estava à espera de Gabriel na porta da escola, ele também estranhou esse fato, o bandido mandou um olhar ameaçador para Larissa, seguido de um sorriso sarcástico. Gabriel e El Diablo foram subindo as vielas e o menino quebrou o silêncio. — O que quer me falar, pai? Veio me pegar na escola, deve ser importante. — Como sempre, esperto, meu garoto. Sua mãe passou o dia inteiro me perguntando o que sua professora queria. Disse a ela que a mulher era uma pilantra que te iludiu para levar você para longe da gente. Fiz a professorinha safada parecer quase uma aliciadora de menores. — Pelo visto, eu não vou para uma escola melhor?! — perguntou já com os olhos marejados — Pai, é só uma escola melhor! — ele argumentou retraído. Antes que Gabriel pudesse falar mais alguma coisa, El Diablo lhe deu uma bofetada com as costas da mão. — Não queria te bater, meu filho. Escuta o teu pai, ninguém nessa vida sabe o que é melhor pra você do que eu. Nós dois somos homens incomuns e ninguém pode com a gente, sempre vamos ter tudo o que quisermos. Por isso você vai confirmar o que o pai disse para sua mãe. E também irá dizer àquela professora, que não quer mudar de escola e está muito feliz no Brizolão. Assim ficamos todos felizes e a sua professora viva. Certo, filho? — Certo, pai. Gabriel entendeu a mensagem. Ao chegar em casa, sua mãe, Cecília, questionou se a história de El Diablo era verídica. Amedrontado, o menino confirmou tudo. Cecília queria descer até a escola para confrontar Larissa, pois viu a tristeza no rosto do seu filho, porém, El Diablo impediu. Gabriel entrou em seu quarto, estava em cima da cama dois novos videogames lançados naquele ano, empurrou as caixas com os consoles para o chão, deitou na cama e se pôs a chorar.
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