Capítulo 3

1558 Palavras
Dois meses se passaram e Larissa jamais aceitou a história de que o Gabriel preferia ficar no Brizolão. Após ela pedir várias vezes para o menino chamar a mãe e Cecília nunca aparecer, Larissa tomou uma decisão. A professora pediu a um dos seus ex-alunos que chamasse a mãe do Gabriel. El Diablo estava viajando, além de roubo, ele transportava droga da Colômbia para o Brasil, dentro de mercadorias lícitas que ele era contratado para transportar. Cecília chegou de forma hostil para falar com Larissa, que desmentiu El Diablo e contou toda a verdade a mãe do Gabriel. — Cê acha que sô troxa, é? Cê num me engana, co essa cunversa pa boi dormir. Sei bem que cê qué robá meu fi. — Não. Justamente ao contrário. Sei que mãe tem instinto e conhece sua cria — Larissa olhou bem no fundo dos olhos de Cecília e disse — Conversa com o Gabriel e a senhora saberá a verdade, só você e ele. Cecília, ao mesmo tempo que era submissa, se enfurecia quando era enganada. Gabriel implorou a mãe para que não dissesse nada ao seu pai, ele tinha ciência de que coisas ruins poderiam acontecer. Gabriel também disse a Cecília que já não queria mais mudar de escola, que era para deixar tudo como estava. [...] "Hoje tem a semifinal da copa do mundo, o único chato é que por causa do jogo a aula acaba mais cedo. É r**m, mas pela seleção até que vale a pena, vou ver o Romário e o Bebeto marcarem muitos gols, o Branco vai deixar o dele, só que de falta, o Tafarel vai fechar o gol. Também tem a parte chata, o capitão Dunga gritando com todo mundo, eu não gosto de grito, sempre tem um chato que grita, faz parte." — Biel, meu fi, vem tumá seu lethe, anti que esfie. — gritou sua mãe da cozinha, fazendo Gabriel se sentir um bebê. Sentou-se à mesa, tinha na cabeça que ninguém cozinhava melhor do que sua mãe. Caso não se controlasse, comeria tudo o que Cecília postava à mesa. Seu pai só iria chegar no outro dia, Cecília era exagerada, fazia um montão de comida só para os dois. Gabriel era o tipo nerd e favelado, se comesse tudo o que achava que teria de comer, seria um nerd, favelado e gordo, perfil quase completo para encarnação de gente soberba. Tomou o café e partiu para a escola. Ao chegar, a professora Larissa o levou até a sala dos professores, abriu o armário que tinha o nome dela e, de dentro, tirou uns formulários. — Gabriel, esses são os formulários para inscrição do concurso para o CEI (Centro Educacional Imperador), é simplesmente o melhor colégio federal do país nos últimos três anos consecutivos. — o menino a escutou com atenção — Desde que foi fundado, sempre esteve entre os melhores. Esse formulário já está todo preenchido por mim, só falta a assinatura e uma xerox do documento de um dos seus pais e enviamos pelo correio o pedido de isenção de taxa. Os olhos do menino brilharam, era possível vê-lo cobiçar cada uma daquelas páginas cheias de quadradinhos nas mãos da professora. Em seu devaneio pensou: "Como eu queria uma escola que pudesse me surpreender, que cobrasse mais de mim, que me fizesse pensar." Pensar era o que Gabriel mais fazia nessa vida. Era muito jovem, mas sabia que as consequências de seus atos poderiam ser graves. Sensível, o menino começou a chorar e deu um basta naquela situação. — Tia Larissa, depois da minha mãe, a senhora é a pessoa mais importante da minha vida. Por esse motivo, vou dizer algo muito sério à senhora. Eu não vou prestar esse concurso. — A professora estranhou tamanha firmeza do menino e franziu o cenho. Gabriel, por sua vez, tomou fôlego para seguir falando. — Se a senhora continuar a insistir, vou mudar de escola como tanto quer, mas irei para a escola municipal da Baixa, aqui na favela. Aquela que o ensino é pior do que aqui. Onde nunca tem aula, porque a escola está sempre fechada por conta do tiroteio na Baixa. E quando tem, as crianças vão sujas e sempre tem surtos de doenças contagiosas. — Gabriel! Você está falando sério? — perguntou a professora com a voz embargada. — Sim, tia Larissa. Estou. — respondeu com a firmeza de um adulto. — Tudo bem! Não irei mais tocar nesse assunto. — Larissa segurou a mão de Gabriel — Nessa vida, se temos um sonho, temos que ter fé. Ao menos o direito de sonhar não devemos deixar ninguém nos tirar. Às vezes, não podemos concretizá-lo no momento que gostaríamos, mas deixe o sonho vivo até o momento oportuno. Nunca desista, não seja a pessoa que querem que você seja, siga seu caráter e coração, e tenho certeza de que você chegará ao topo. A jovem e doce professora o abraçou de forma emotiva, um abraço apertado e terno. [...] O morro e os moradores estavam todos decorados de verde amarelo, Gabriel era o único de azul. Cecília tinha ido para a quadra, assistir a partida pelo telão, depois de muita insistência por parte da vizinha. Gabriel preferiu ficar sozinho, sentou na sala e ligou a TV. Sua mãe havia deixado um pequeno banquete para ele. Antes do jogo começar, o menino já degustava. * 16:00 concentração para partida Brasil X Suécia. * 16:30 a bola rola. * 17:20 termina o primeiro tempo no 0x0. * 17:35 começa o segundo tempo. * As 17:50 Suécia fica com um a menos. Sofre uma expulsão. * 18:00 El Diablo chega no morro, ao subir, observa movimentação na escola. * 18:05 Romário faz um gol e põe o Brasil na frente rumo a final. * 18:10 falam para o El Diablo que sua família está assistindo o jogo na quadra e ele se dirige direto para lá. * 18:15 El Diablo chega a quadra e vai direto falar com Cecília. El Diablo se aproximou sorridente, esperava de sua companheira o mesmo fervor de todas as vezes que ele voltava das longas viagens que fazia para concretizar seus serviços sujos. Dessa vez, Cecília estava muito irritada, era uma mulher transparente, não conseguia disfarçar a decepção que El Diablo havia lhe causado com a mentira da escola do Gabriel. O bandido abraçou sua esposa, que por sua vez, continuou com os braços para baixo, lhe deu um beijo, que não foi correspondido, percebeu o descontentamento de sua mulher e questionou. — Tudo bem, amor? — perguntou, sentindo algo estranho no ar. — Sim. — respondeu secamente. — Respondeu com uma palavra só, já sei que está chateada comigo — o bandido coçou a barba e o pescoço — Demorei mais de um mês, amor, porque tive que fazer entrega no norte do país. — sem saber o real motivo, El Diablo deduziu que a raiva de Cecília era por ele ter passado mais uma vez fora de casa. — José, mi deche vê u jogo. — Cecília respondeu ainda tentando se conter. — Me chamou de José! A coisa é mais feia que parece. — Cecília continuava a olhar para TV, mas só para fugir do El Diablo, pois não ouvia nem via mais nada. Momentos depois, tudo piorou. — Cadê o Gabriel? — Cecília fingiu que não ouviu, El Diablo começou a perder a paciência. — Mulher, olha para mim quando estiver falando com você. Cadê o Gabriel? — Tá veno o jogo im casa. — olhou para El Diablo como ele ordenou, mas continuou a responder com empáfia. — E porque ele não veio para cá junto com você? — Sabi que u minino num gosta de ta junto de muita gente. — Gabriel não tem que gostar de nada, tem que estar onde a família dele está. Tudo desandou, El Diablo viu um lado de Cecília que nunca tinha se voltado contra ele, até aquele momento. — Meu fio num é um bicho, munto menos um capacho, tem as vuntadi dele. — disse com a voz elevada, completamente exaltada. — Que isso! Perdeu o juízo? Abaixa o tom de voz, estamos na rua. — Num perdi juízo, só quero que ocê deche meu fio em paz. — Cecília falou já mais calma. — O Gabriel é nosso filho. Tudo o que faço é pensando na educação dele. Se soltamos as rédeas, o garoto sai fora do caminho. — Quar caminho? Da bandidagem? Meu fio tem todo o direito de escolhê ondi ele qué vê o jogo, que caminho ele qué siguí. — ela se exaltou e alterou a voz novamente — E istudá na iscola que tivé vuntadi. O bandido sorriu meio transtornado e percebeu que sua companheira já estava inteirada da verdade. O ódio em seu olhar apareceu de forma instantânea, afinal, sua submissa mulher jamais tinha se rebelado contra ele, ainda mais à frente de alguns moradores da favela. Coçou sua barba e de forma robótica disse: — Você está um pouco alterada, vai pra casa e lá conversamos. Deu as costas e desceu a favela, pensando que iria dar um jeito nessa situação, que toda a humilhação que passou só tinha uma culpada. * 18:30 de 13 de julho, o jogo acaba e o Brasil está na final da copa do mundo de 1994.
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